A ILHA
(Um reprter brasileiro no pas de Fidel Castro)

ATUALIDADE

Direo
FERNANDO MANGARIELO
(editor)
FERNANDO MORAIS
Prefcio de Antnio Calado
EDITORA ALFA-OMEGA
So Paulo
1983
Planejamento Grfico e Produo
Tereza R. Guilares
Capa
Adilson Ferrari
Reviso
Carlos A. L. Salum
1.a edio 3.000 ex. Agosto 1976.
156 mil exemplares vendidos
t
at a 18.~ edio
t
Direitos Reservados
EDITORA ALFA-OMEGA, LTDA.
05413  Rua Lisboa, 502  lei. 280-9972
01000  So Paulo  SP
Impresso no Brasil
Printed in Brazil
Para Jos Maria Rabelo

Mantivemo-nos firmes: no povo buscramos a fora
e a razo
Inexoravelmente
como uma onda que ningum tr~ vencemos.
O        povo tomou a direo da barca,
Mas a lio l est, foi aprendid
No basta que seja pura e justa
a nossa causa.
E necessrio que a pureza e a jm
existam dentro de ns.
(Agostinho Neto, iii Poemas de Angola)

CONTEDO

Sobre o Autor
Prefcio  Dcima Quarta Edio
Prefcio
O        Cotidiano
A Cultura, as Relaes com o Mundo
O        Racionamento
Um Pas sem Favelas
A Nova Escola
A Sade
Imprensa
A Mulher
Eleio, Justia
Reforma Agrria, Economia
A Revoluo Onipresente

Apndice
Uma entrevista com Carlos Rafael Rodi
Entrevista
A Guerra em Angola Segundo Fidel Castro
O        Mdico de Sierra Maestra

SOBRE O AUTOR

O mineiro Fernando Morais nasceu h trinta e um anos em Mariana. Comeou
a trabalhar aos treze anos, como reprter de um jornazinho  de  bairro,
em Belo Horizonte. Um ano depois, j prbfissionalmente, era  redator  de
um house-organ local. Em 1965 mudou-se para So  Paulo,  onde  passou  a
tra- balhar no jornal A  Gazeta,  incorporando-se,  um  ano  depois,  ao
recm-fundado Jornal da Tarde, onde  passou  oito  anos,  sucessivamente
como reprter, redator, subeditor e reprter especial.  Simultanea,ncnte
ao trabalho no Jornal da Tarde, Fernando Morais foi redator da Folha  de
5. Paulo, do Suplemento Feminino do jornal O Estado de 5. Paulo e  chefe
de reportagem do Departamento de Telejornalismo da  TV  Cultura  de  So
Paulo. Foi tambm um dos editores da revista Bondinho e do jornal Ex-, e
colaborador dos jornais Opinio, Movimento,  e  das  revistas  Status  e
Homem. Em 1970, juntamente com o reprter  Ricardo  Gontijo,  recebeu  o
prmio Esso de reportagem, pela srie Transamaznica,  publicada  pelo
Jornal da Tarde e editada em livro pelo Editora  Brasiliense.  Em  1974,
trabalhou como reprter e editor da revista Viso,  de  onde  saiu  para
jun- tar-se  equipe que fundaria o semanrio Aqui So Paulo. Depois  de
passar dois anos como editor-assistente da revista Veja, Fernando Morais
transferiu-se para a Editora Trs,  onde,  como  reprter,  trabalha  na
revista Reprter Trs. O autor tem  reportagens  publicadas  na  Frana,
Itlia, Chile, Estados Unidos, Espanha, Portugal, Mxico e Alemanha.

Esta 14. edio de A Ilha foi publicada no Mxico, Espanha, Venezuela, Argentina (La Isla, Editorial
Nueva Imagen, 1977), Estados Unidos (The Island, Latin-Americana Associates, 1978), e Alemanha (Das
Insel, Peter-Hammer VerIa g).
A tualm ente Fernando Morais  vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado
de So Paulo, e tambm candidato a deputado estadual pelo MDB paulista.

XII
UM PEDAO DE TERRA CERCADA DE
AMIGOS E INIMIGOS

(Prefcio  dcima quarta edio)

Qggndo a ditadura de Bar ista foi destru da pelo povo cubano, os olhos da Amrica Latina se voltaram,
com perplexidade e surpresa, para uma pequena ilha do mar das Caraibas. Jos Marti j havia escrito: Para
que somos homens, seno para olhar cara a cara a verdade? O povo cubano voltou-se para si mesmo,
procurando descobrir a medida de sua possvel liberdade e procurando equacionar os caminhos de sua
necess~ia emancipao. Os jovens guerrilheiros que desceram de SierrMaestra conduziram o pais para o
socialismo. E, aos olhos da Amrica Latina, a pequena ilha transformou-se para alguns nu,na esperana,
para outros numa gigantesca ameaa. No incio da dcada de 60 comeam as nacionalizaes de empre.~as
estrangeiras, sobretudo norte-americanas e finalmente em 1962, seguindo cegamente as ordens vindas dos
Estados Unidos, a Organizao dos Estados Americanos expulsa Cuba de suas fileiras. No continente, s o
Mxico mantm relaes com Cuba: para os governantes dos demais pases, a pequena
XIII
ilha ficou sendo, de um instante para o outro, um sitio onde reinava a peste.

Os fatos reunidos por Fernando Morais em seu relato objetivo e imparcial, consolidam uma certeza. A
edificao de wna nova sociedade, a partir de um potencial de liberdade tantos anos negado por uma
ditadura cruel,  mostrada no atravs de uma anlise sociolgica ou de um profundo estudo de complexas e
surpreendentes transformaes. O que Fernando Morais nos traz so dados concretos. E diante deles 
preciso, porque lmpidos, aceit-los como verdadeiros. E, a partir deste irrecusvel reconhecimento, 
possvel desvendar, com nitidez, o esforo de um povo que visceralmente se entrega, no sem sacrifcios, a um
processo social criativo que nasce no cotidiano de cada um. E acaba se constituindo num gigantesco mutiro.

Antonio Calado precisa, no prefcio, que o retrato descrito por Fernando Morais,  a imagem de um
pas que parece determinado a seguir conselho de um autor srio e antigo como Aristteles; que no quarto
livro da Potica diz que um governo que queira prosperar deve cuidar de ampliar sua classe mdia,
repudiando o extremo daqueles que tudo possuem, e portanto criam ao seu redor uma barreira de desdm
pelos demais, e o outro extremo, daqueles que, nada tendo, fecham-se numa barreira de inveja. E numa
ilha, que em extenso no ultrapassa a do nosso Piau, em 1974 foram editados cerca de 34 milhare~ de
livros (dos quais 23 milhes so didticos). Os quartis se tornaram escolas e o analfabetismo foi
praticamente erradicado. Neste pas, a classe mdia pouco a pouco deixa de existir enquanto tal. J que uma
classe s se define em relao a outras. E assim, acentua Calado, as classes vo deixando de existir
homogeneizadas num povo educado, saudvel e, sobretudo, imune precisamente ao perigo da luta de
classes, j que ningum luta contra categorias abstratas.

Por outro lado,  verdade que esta construo imensa, onde tudo se integra numa extensa rede de
trabalhos organizados, onde cada rua possue estrutura prpria capaz de deciso e vigilncia, justia e
discusso permanente, projeto social fundamentado na conscincia de que um povo unido aos governantes
constri com liberdade no somente suas residncias e seus parques de lazer, como tambm suas leis e sua
cultura, no se realiza sem ameaas permanentes. Num difcil instante de an
XIV
gstia entre a agricultura e a industrializao, a ilha resiste com racionamentos pesados, impostos,
mobilizao constante. E eterna vigilncia. Nela um jovem reprter brasileiro (29 anos) viveu dias de
espanto. E descobriu at que Roberto Carlos, tambm l,  um dos idolos da msica popular, pois quando
desceu no aeroporto Jos Marti, os alto-falantes do avio transmitiam em espanhol Jesus Cristo, eu estou
~~,... Nos bares e restaurantes, sua voz est presente. Para surpresa nossa. E, na ltima pgina de seu honesto e
preciso relato, um jovem negro aproximou-se de Fernando Morais e, falando sobre o Brasil, ficou wn pouco
decepcionado com a resposta que recebeu quando perguntou: Roberto Carlos  negro?...

Orgulhosamente o pequeno pas desafia um gigante, sem descuidar dos aspectos da vida social de seu
povo. Cercado por todos os lados por amigos distantes e inimigos prximos, vive agora uma etapa nova: a
Revoluo vai institucionalizar-se atravs de eleies diretas. Foi redigida nova Constituio e abolido o
cargo de Presidente da Repblica. A. reforma dos servios de sade (3,6 bilhes de cruzeiros anuais so
investidos no setor) apresenta resultados que definem uma revoluo na sade: a taxa de mortalidade
infantil foi reduzida a 27,4, por 1.000 nascimentos (a mais baixa da Amrica Latina e inferior at a de
algwnas regies dos Estados Unidos, conforme dados da ONU); nos ltimos sete anos, houve apenas um caso
de poliomelite no pas (depois constatou-se que o garoto vitimado no tinha sido vacinado por descuido dos
pais); a tuberculose infantil, a malria, a dii teria e o ttano foram erradicados; nos partos, a mortalidade
materna foi reduzida a 50 por 100 mil bebs nascidos vivos~~.

Estatsticas e depoimentos de gente do povo preenchem as informaes reunidas por Fernando Morais.
Traam um painel vivo. E um apndice define, com extrema clareza, os traos de uma poltica onde esto
presentes a conscincia de transttrios limites e a certeza de ntidas perspectivas: Carlos Rafael Rodriguez,
encarregado do Comrcio e Poltica Exterior, expe o significado da coexistnca~ da compreenso
das dificuldades econmicas do pais (que se piepara para ampliar:
sua faixa de industrializao em condieg adversas), do continente e do mundo de hoje, prope
solues ou medidas urgentes para minimizar possveis crises catastrficas (defesa do
Xv
acar, petrleo e outras flsatrias-prj,,~ na imprevisvel crise mundial do capitalismo de hoje),
discute relaes internacionais e suas implicaes econmicop<,~~~ E explica como e porque a
justa Poltica exterior de um pais depende, ao mesmo tempo, dos objetivos desta nao, definidos
pelas necessidades internas do sistema de governo escolhido, e das instveis condies externas,
sendo necessrio agilidade para descobrir o caminho de um flexvel entendimento de todos os
vrtices do problema para afirmar, com suas contradies e coordenadas especficas, uma verdadeira
independncia nacional

A reportagem  minuciosa e justa, frente a uma realidade que se afirma coerente com as
palavras de um poema de Agostinho Neto, que Fernando utiliza corno epgrafe: No basta que
seja pura e justa / a nossa causa. / ~ necessrio que a pure~ e a justia / existam dentro de ns.
Em A Ilha o cotidiano  descrito. o livro examina a forma de distribuio de renda e os tipos de
Propriedade, assim como os problemas da administrao social. O dia-a-dia de um povo que
pratica a descoberta de que trabalho e estudo no so atividades incompatveis ou separadas Mas,
ao contrrio, se completam. E no se realizam, numa praxis criativa, em nome da sobrevivncia
pessoal, mas da sobrevivncia de uma nao. Hoje, talvez por esta conscincia nova, que se pe em
prtica,  o nico pais latino~a,ncricano que no tem favelas. E, apesar do rigoroso racionamento
causado pelo j to contestado bloqueio e pela rgida Planificao estatal da produo, no dia do
casamento os noivos tm direito, cada um, a 15 cailas de cerveja, 12 garrafas de rum e meia dzia de
garrafas de champanha E alm disso o Estado aluga quantos carros sejam necessrios para
transportar 05 convidados, e os noivos s pagam a gasol~ L os servios bsicos (educao,
alimentao escolar, roupas de estudantes, livros e cadernos, assistncia mdica e remdios) so
gratuitos,
afirma Fernando Morais o sacrifcio existe, mas tem suas recompensas.

O        livro de Fernando Morais traduz vida e olhos abertos. Ele sondou a verdaae de um povo,
percorreu ruas e estradas procurando desvendar um mistrio. Foi examinar a peste~~ ao vivo, frente a
frente. Nos revela em que ela consiste. Seu relato  sereno e tranquilo Uma fascinante reportagem que no
podemos ignorar como  impossvel ignorar a realidade que ela confronta Em 1960, Sartre escreveu que
ter vivido
XVI.
na ilha foi para ele tambm a descoberta das razes que fazem com que alegria e angstia sejam duas
pa~xes que coexistem no povo cubano, uma exaltando a outra. a alegria, sempre desperta, de construir; a
angstia, o temor permanente de que wna violncia estpida esmague tudo. Sartre dizia que o futuro pode
assaltar a ilha como um ladro. At hoje muitos assaltos foram tentados. Os planos e tentativas de subverso e
crime, orientados pela C.I.A., no so mais segredos. Mas os ladres no penetraram no interior da casa.
Fernando Morais, com a objetividade de um reprter inquieto e sensvel, situando-se de dentro da casa,
mostra porque.

Fernando Peixoto
XVII
PREFCIO

A Ilha, de Fernando Morais, 
uma reportagem no exato sentido da 
palavra. Ela s admitiria um 
qualificativo, o de reportagem 
escolhida, j que o autor no foi 
imperativamente incumbido por 
nenhum jornal ou revista de ir a Cuba. 
Escolheu, como jornalista, seu tema, quis 
conhecer pessoalmente o pas e foi visit-
lo. A partir da temos a reportagem, o 
franco relato de algum que observa o 
pas em construo, o pas que lanou 
sua prpria pedra fundamental em 
janeiro de 1 9S9 e que desde ento se 
elabora penosamente.

O        trao talvez mais comum 
entre os pases da Amrica Latina  a 
busca da identidade nacional. Todos se 
desgostam, sem exceo, quando 
incluidos no bloco chamado Latin Ame-
rica, cada um deles deseja aparecer 
diante do mundo com uma vincada 
personalidade nacional. Cuba no 
parecia fadada a antecipar-se a outros 
pases do hemisfrio na conquista de uma 
ntida individualidade, e, 
consequentemente, da notoriedade que 
alcanou nos assuntos mundiais. Pas 
ilhu, pequeno e de escassa populao, 
sofreu um direto e especfico domnio dos 
Estados Unidos. A partir de 1901, nos 
termos de uma emenda acolhida pelo 
Congresso americano e que guardou o 
nome do senador Orville Platt, Cuba era 
f~~rada a aceitar o direito que se 
arrogavam os americanos de 
inie~vir militarmente na ilha, para 
defender a ordem ou a 
indepeizdncia cubana. Em 1934 um 
novo tratado entre os Estados Unidos e 
Cuba suspendeu a


X
I
X


















PREFCIO


A Ilha, de Fernando Morais,  
uma reportagem no exato sentido da 
palavra. Ela s admitiria um 
qualificativo, o de reportagem 
escolhida, j que o autor no foi 
imperativamente incumbido por 
nenhum jornal ou revista de ir a 
Cuba. Escolheu, como jornalista, 
seu tema, quis conhecer 
pessoalmente o pais e foi visit-lo. A 
partir da temos a reportagem, o 
franco relato de algum que observa o 
pas em construo, o pas que lanou 
sua prpria pedra fundamental em 
janeiro de 1 9S9 e que desde ento se 
elabora penosamente.

O        trao talvez mais comum entre 
os pases da Amrica Latina  a busca da 
identidade nacional. Todos se desgostam, 
sem exceo, quando incluidos no bloco 
chamado Latin Ame-rica, cada um 
deles deseja aparecer diante do mundo 
com uma vincada personalidade 
nacional. Cuba no parecia fadada a 
antecipar-se a outros pases do 
hemisfrio na conquista de uma ntida 
individualidade, e, consequentemente, da 
notoriedade que alcanou nos assuntos 
mundiais. Pas ilhu, pequeno e de 
escassa populao, sofreu um direto e 
especfico domnio dos Estados Unidos. A 
partir de 1901, nos termos de uma 
emenda acolhida pelo Congresso 
americano e que guardou o nome do 
senador Orville Platt, Cuba era f~~rada 
a aceitar o direito que se arrogavam os 
americanos de inie~vir militarmente 
na ilha, para defender a ordem ou a 
indepeizdncia cubana. Em 1934 um 
novo tratado entre os Estados 
Unidos e Cuba suspendeu a


X
I
X

Enienda Platt. Mas perinaneceni at hoje os direitos americanos de manter uma base naval em Guantnamno.

A historia de Cuba, a partir da queda de Batista e do governo de Fidel Castro, est na memria de todos. 
No necessrio relembr-la e, porisso mesmo, Fernando Morais nos introduz de chofre na Cuba de hoje. Se a 
gente l o seu relato com to apaixonado interesse  porque quase tudo que se diz de Cuba ressente-se do tom 
polmico, no contra como no a favor. Todas as ora es, no que se escreve sobre Cuba, tm clusulas 
restritivas, a favor ou contra. Tudo que se diz da ilha, de bem ou de mal, parece vir com um fundo falso, feito 
mala de contrabandista. Perde-se de tal forma contato com a simplicidade que esta, quando exemplarmente 
usada como neste livro, fica inslita. A reportagem de Fernando Morais  cristalina. Um dirio. Um lho de 
cmara de cinema aberto sobre um tema.

A ilha, pelo que nos fica da leitura,  um pas que parece determinado a seguir conselho de autor srio e 
antigo como Aristteles, que no quarto livro da Poltica diz que um governo que queira prosperar deve cuidar 
de ampliar sua classe mdia, repudiando o extremo daqueles que tudo possuem, e portanto criam ao seu redor 
uma barreira de desdm pelos demais, e o outro extremo, daqueles que, nada tendo, fecham-se numa barreira 
de inveja. Cuba seguiu o conselho em ritmo extremamente acelerado. Foi to avassalador o crescimento, ali, da 
classe mdia, que j se torna difcil delimit-la. S se pode definir uma classe em relao a outras classes. Em 
Cuba vo deixando de existir, homogeneizadas num povo educado, saudvel e, sobretudo, imune precisamente 
ao perigo da luta de classes, j que ningum luta contra categorias abstratas.

Perdem-se alguns anis, em qualquer faina intensiva e inovadora como a dos cubanos. Mas os de Cuba 
deviam estar muito apertados nos dedos. Os ndices de sade do pas meIboraram consideravelmente. A Ilha 
contm, alis, excelente captulo sobre Sade na ilha. E passo aqui ao leitor a reportagem de fernando Morais, 
slida e cerrada como uma fortaleza nos dados que apresenta mas ao mesmo tempo transparente, pois deixa 
ver dentro dos muros a alegre atividade de um povo empenhado na autoria de si mesmo.

ANTONIO CALLADO




xx
O COTIDIANO






















A bordo de um quadrirreator 
Ilyushin-62 vendido pela Aeroflot  
Cubana de Aviacin (ainda com a marca 
sovitica pintada na fuselagem) a 
aeromoa oferece, em lugar dos tradi-
cionais jornais dirios, um suplemento de 
64 pginas sobre a vida do guerrilheiro 
Camilo Cienfuegos, um dos combatentes 
da Sierra Maestra, morto em 1960. Estou 
a caminho de Cuba.

No avio, que sara de Madri, 
viajam, entre outros passageiros, dezoito 
pescadores da Companhia Pesqueira 
Cubana, vindos das costas do Canad, 
depois de oito meses longe de casa. O 
servio de bordo  espartano como a 
decorao do jato: presunto, salaminho, 
queijo, cerveja e caf. Depois da 
sobremesa, charutos Romeo y Julieta. Os 
alto-falantes transmitem msica ambiente 
e Roberto Carlos me surpreende com 
Jesus Cristo, eu estou aqui, cantando em 
espanhol. Peo papel para anotaes e a 
aeromoa me oferece o verso de um 
bloco de declarao de bagagem, 
sorrindo: J ouviu falar na crise de 
papel?, cadeira ao lado, Jos Antonio 
Vacas Cubas, 22 anos, negro, pescador 
de atum, puxa conversa e  o primeiro de 
um ioi~ga ~srie de cubanos surpresos 
com a inslita presena de um brasileiro 
em seu pas.

Doze horas depois, o avio pousa 
n
o
 
e
n
s
o
l
a
r
a
d
o
 
A
e
r
o
p
o
r
t
o
 
J
o
s

 
M
a
r
t
i
,
 
e
m
 
H
a
v
a
n
a
.
 
P
a
s
s
o
 
p
e
l
a
 
a
l
f

n
d
e
g
a
 
s
e
m
 
d
i
f
i
c
u
l
d
a
d
e
s
 
e
,
 
e
m
 
v
e
z
 
d
e
 
r
e
t
e
r
 
m
e
u
 
p
a
s
s
a
p
o
r
t
e
 
a
t

 
o
 
d
i
a
 
d
e
 
m
i
n
h
a
 
s
a
i
d
a
,
 
c
o
m
o
 
f
a
z
i
a
m
 
a
t

 
h

 
p
o
u
c
o
s
 
a
n
o
s
 
c
o
m
 
t
o
d
o
s
 
o
s
 
j
o
r
n
a
l
i
s
t
a
s
 
e
s
t
r
a
n

2
3


~UNIV~flSIDID~ OE C~I~S 00 S~L





















A bordo de um quadrirreator 
Ilyushin-62 vendido pela Aerojlot  
Cubana de Aviacin (ainda com a marca 
sovitica pintada na fuselagem) a 
aeromoa oferece, em lugar dos tradi-
cionais jornais dirios, um suplemento de 
64 pginas sobre a vida do guerrilheiro 
Camilo Cienfuegos, um dos combatentes 
da Sierra Maestra, morto em 1960. Estou 
a caminho de Cuba.

No avio, que saira de Madri, 
viajam, entre outros passageiros, dezoito 
pescadores da Companhia Pesqueira 
Cubana, vindos das costas do Canad, 
depois de oito meses longe de casa. O 
servio de bordo  espartano como a 
decorao do jato: presunto, salaminho, 
queijo, cerveja e caf. Depois da 
sobremesa, charutos Romeo y Julieta. Os 
alto-falantes transmitem msica ambiente 
e Roberto Carlos me surpreende com 
Jesus Cristo, eu estou aqui, cantando em 
espanhol. Peo papel para anotaes e a 
aeromoa me oferece o verso de um 
bloco de declarao de bagagem, 
sorrindo: J ouviu falar na crise de 
papel?, cadeira ao lado, Jos Antonio 
Vacas Cubas, 22 anos, negro, pescador 
de atum, puxa conversa e  o primeiro de 
um ioi~ga ~srie de cubanos surpresos 
com a inslita presena de um brasileiro 
em seu pas.

Doze horas depois, o avio pousa 
n
o
 
e
n
s
o
l
a
r
a
d
o
 
A
e
r
o
p
o
r
t
o
 
J
o
s

 
M
a
r
t
i
,
 
e
m
 
H
a
v
a
n
a
.
 
P
a
s
s
o
 
p
e
l
a
 
a
l
f

n
d
e
g
a
 
s
e
m
 
d
i
f
i
c
u
l
d
a
d
e
s
 
e
,
 
e
m
 
v
e
z
 
d
e
 
r
e
t
e
r
 
m
e
u
 
p
a
s
s
a
p
o
r
t
e
 
a
t

 
o
 
d
i
a
 
d
e
 
m
i
n
h
a
 
s
a
i
d
a
,
 
c
o
m
o
 
f
a
z
i
a
m
 
a
t

 
h

 
p
o
u
c
o
s
 
a
n
o
s
 
c
o
m
 
t
o
d
o
s
 
o
s
 
j
o
r
n
a
l
i
s
t
a
s
 
e
s
t
r
a
n

2
3


~UNIV~flSIDID~ OE C~I~S 00 S~L

geiros, apenas perguntam sobre eventuais sintomas de meningite:
h quanto tempo sa do Brasil, se tenho sentido dores de cabea fortes, nsia de vmito, endurecimento do 
pescoo, se fui vacinado contra a doena.
Cuba surpreende de novo: de um pas que oferece biografias de guerrilheiros como leitura de bordo 
espera-se encontrar como recepciopista no aeroporto, no mnimo, um barbudo armado. Mas quem me recebe 
cordialmente  Ricardo, jovem diplomata recem-formado, cabelo escovinha, metido numa impecvel camisa 
engomada. Ao saber dele que sou convidado oficial do governo durante a visita, explico que, como se trata de 
um trabalho profissional, prefiro eu prprio pagar minhas despesas. Bem  diz ele  se  assim, consultarei de 
novo a chancelaria e,  noite, falarei de novo com voc. Numa pequena agncia do Banco Nacional de Cuba 
troco cem dlares. Com um dlar americano, consegue-se comprar apenas 82 centavos de peso cubano.

Como em qualquer pais capitalista, h out-doors, cartazes de rua. O que muda  a mensagem. O 
primeiro que vejo . enorme, colorido  est colocado logo  sada da ala internacional do aeroporto. Exibe um 
rosto risonho de Ho Chi Minh ao lado de uma frase sua: Construiremos um Vietn dez vezes mais bonito.
No Hotel Nacional h um apartamento reservado em meu nome. O Nacional  um dos hotis mais antigos 
do pas, construdo em 1930, e  conhecido por ter sido ponto de encontro para reunies e conspiraes 
contra os governos constitucionais, antes da chegada de Fidel Castro ao poder. No caminho, havamos 
passado pela porta do Hotel Havana Riviera, moderno, com todos os apartamentos de frente para o 
mar. Ricardo sorrira de novo: Este hotel foi dado de presente ao tirano Batista por Meyer Lanski, um 
dos chefes da Mfia. Agora  do povo.

O        carregador do Nacional leva as malas ao confortvel apartamento e fica me olhando, sorridente. 
Tiro do bolso moedas recebidas na troca de dinheiro e lhe ofereo. Sempre sorrindo, o homem diz apenas que 
no~~. Devo estar oferecendo pouco, imagino. Tiro uma nota de um peso cubano  nove crnzeiros, ao cmbio 
da poca  e entrego a ele. O carregador  obrigado a ser claro comigo: Compaiiero, aqui no existe mais isso 
Estou esperando, mas  para o senhor dizer se est satisfeit com o apartamento.


24
 noite sou convidado por Ricardo para jantar num dos melhores restaurantes de Havana, o 
Torre, no 359 andar de um recm-construdo edifcio central. No meio do jantar ~ lagosta e vinho 
branco chileno, 130 cruzeiros por pessoa espanto-me com o nvel de informao do jovem diplomata 
sobre o Brasil. Ele sabia detalhes do Tratado de Itaipu, os nomes e postos de todos os ministros 
brasileiros e comentava com naturalidade uma conversa do presidente Geisel com atores, em Manaus, 
que ele lera numa revista, poucos dias antes. Sobre minha permanncia em Cuba, ele informa 
oficialmente que sou mesmo hspede do governo  j que era o segundo jornalista brasileiro, depois 
do bloqueio, a entrar em Cuba em misso profissional. Antes de mim, s havia estado l o jornalista 
Milton Coelho, da Revista Realidade, em 1968.

O Ministrio das Relaes Exteriores colocaria  minha disposio um carro (um Ford Falcon 
argentino, ltimo tipo) com motorista, durante toda a viagem; ele, Ricardo, seria meu guia. Pergunto-
lhe se toda aquela hospitalidade no acabaria se transformando num constrangimento para minha 
liberdade de trabalhar e ver o que me interessasse no pas. Ele no chega a se ofender, mas responde 
secamente: O Ministrio manda informar que voc ter o guia e o automvel apenas quando quiser. 
Ter toda liberdade de circular pelo pas, conversar com qualquer pessoa. A oferta do carro e do 
cicerone pretende apenas facilitar seu trabalho em Cuba. No fim da viagem eu veria que a promessa 
tinha sido cumprida.

Na manh seguinte viajei para Varadero, unia espcie de Guaruj cubano  uma das praias mais 
famosas do pas. Chamam a ateno dois edifcios mandados construir pessoalmente por Fide~ 
Castro. Numa de suas viagens  URSS, o primeiro-ministro disse que Cuba, evidentemente, no tinha 
condies de dar qualquer contribuio  tecnologia espacial sovitica, mas que o pas ajudaria no que 
pudesse. Mandou construir uma colnia de frias exclusivamente para cosmonautas e suas f amulas,  
beira-mar. Ao lado dela est sendo levantado um edifcio, com trabalho voluntrio, com capacidade 
para hospedar duas mil pessoas, oferecido por Fidel  Confederao Mundial de Juventudes 
Democrticas, para receber filhos de operrios do mundo inteiro  mesmo de pases no ligados  
organizao

        que passaro frias ali, por conta do governo cubano.
A mo de Fidel est presente em quase tudo neste pas. Um dia, por exemplo, ele entrou num 
restaurante de Havana


.25.
e quis comer coelho assado. No havia  nem assado, n~m cozido, simplesmente no havia coelho. Fidel 
estranhou que, num pas onde a produo de coelhos  significativa, um restaurante no tivesse essa 
carne para oferecer aos fregueses. E sugeliu que se criasse um restaurante que s servisse coelho. Hoje o 
Conejito (coelhinho), em Havana, tem filas enormes. E deve ser um dos poucos restaurantes do mundo que 
servc exclusivamente coelho  feito de mais de vinte maneiras diferentes (e servido a 45 cruzeiros a poro).

Logo depois que Fidel chegou ao poder, o turismo externo praticamente acabou em Cuba. De um lado, 
pouca gente se arriscava a passar frias l, em plena revoluo. Do lado cubano, o governo acabou com os 
grandes atrativos que levavam  Ilha, anualmente, 250 mil estrangeiros  na maioria norte-americanos: foram 
fechados os cassinos, os grandes bordis. Os traficantes de drogas fugiram ou foram presos. E, alm disso, o 
governo fazia srias restries  entrada de ian quis no pas mesmo antes do bloqueio: afirmava-se que os 
grupos de turistas poderiam ocultar contra-revolucionrios e agentes da CIA.

A infra-estrutura montada durante todos os governos ante-
?        riores (o turismo era a terceira fonte de diyisas de Cuba, depois
?        do acar e do tabaco) foi aproveitada para o turismo interno ou para receber delegaes estrangeiras, 
convidadas oficialmente. Hoje o INIT  Instituto Nacional de Indstria Turstica administra tudo isso, e 
organiza, junto  Central de Trabalhadores de Cuba, um sistema de distribuio das vagas em hotis e motis  
alguns luxuosssimos  entre as famlias de tra<balhadores em frias.

A diria de um apartamento de casal no Hotel Internacional de Varadero (a praia preferida pelos 
milionrios de Miami, at 1959) custa aproximadamente 70 cruzeiros. Nesse preo esto incluidos o almoo e 
o jantar, servidos no Restaurante das Amricas, um pequeno palcio construdo pela famlia americana 
Dupont, equipado com aeroporto e no meio de uma praia particular de seis quilmetros de extenso. 
Particular antes do triunfo da revoluo, faz questo de esclarecer o porteiro.

O cl~efe jdo cl Dupont no esperou a expropriao. Fugiu e deixou a ca~a para a revoluo, com tudo 
o que havia dentro:
mveis~-de~-cedro entalhados em Portugal, um rgo belga, uma requintada adega, uma biblioteca de dois 
mil volumes. Ficou


26
l, tambm, uma raridade digna de museu: restos da primeira bandeira cubana, abandonada numa das praias 
prximas aps uma batalha contra os espanhis. A antiga casa dos Dupont foi inicialmente transformada em 
~repblica. para estudantes bolsistas  mas a idia no deu certo. Mveis e objetos de arte estavam sendo 
destruidos pelos jovens, que acabaram retirados de l.

Assim como ocorreu com o legado dos Dupont, dezenas de outras manses construdas e abandonadas por 
milionrios cuba-nos no litoral foram aproveitadas como local de frias gratuitas para quem se oferecia ao 
trabalho voluntrio  por exemplo, no corte de cana. Terminada a safra, o voluntrio tinha direito a frias com 
sua famlia em Varadero, ou em qualquer outra praia do pas.

Em Miramar e Laguitos  bairros de Havana  os antigos clubes privativos de algumas famlias, de frente 
para o mar, com piscinas naturais de gua salgada, foram transformados em Centros Sociais Operrios para 
reunies de fins de semana, bailes e piqueniques. Cada clube operrio foi entregue a uma indstria, a um 
conjunto de reparties pblicas ou a um sindicato.

Nos ltimos cinco anos, Cuba foi se reabrindo gradativamente para o turismo externo. Os primeiros vos 
charter vieram de pases da Europa Oriental. Em 1970 a Cubatur (empresa encarregada de divulgar o turismo no 
exterior) iniciou os primeiros contatos com o Canad  e, s em 1974, cerca de 46 mil turistas canadenses 
visitaram o pas.

? Telsphoro Prates, o jovem diretor do INIT, afirma com orgulho que, para que o turismo rendesse  economia 
cubana, s em 1974, algumas centenas de milhes de pesos, o pas no teve de abrir mo de seus princpios:

 As regras do nosso jogo so muito claras. Aqui ningum vai encontrar prostitutas, drogas, cassinos. O 
que temos a oferecer so .praias lindas, preos muito baixos, clima bom o ano inteiro. E em Cuba no h 
gorjetas e impostos, no h doenas infecciosas. Compramos iates e nibus no exterior para melhorar a cada dia 
o servio oferecido. Quem quiser turismo sadio pode vir a Cuba sem susto   o lugar ideal.

Eu ainda no estava convencido de que no existiam prostitutas e drogas em Cuba. Afinal havia, em 1959, 
segundo dados


27
oficiais, 100 mil prostitutas no pas. Quem primeiro me falou que a prostituio tinha sido extinta pela revoluo 
foi um jovem universitrio. Manifestei minha incredulidade com um argumento considerado por ele pouco 
revolucionrio: pases desenvolvidos e democrticos, como a Inglaterra e a Frana. at hoje vivem s voltas 
com esses problemas: prostituio e drogas. Resolvi tirar a limpo a questo, da melhor maneira possvel: 
procurando drogas e prostitutas como se estivesse pessoalmente interessado. Uma noite tomei um txi (estatal, 
como 90% dos que circulam em Cuba) e fui direto no assunto com o motorista. Ele levou alguns minutos para 
entender o que eu queria (evitei usar a palavra prostituta), diminuiu a velocidade do Dodginho argentino e 
respondeu:

 No com pasiero. Aqui no temos mais essas coisas.

Repeti a tentativa mais duas vezes  com outro motorista e com um porteiro de hotel  sem resultado. O 
porteiro respondeu, irnico:

 Mas no se aborrea se no temos putas aqui. Voc  jovem, estrangeiro, certamente encontrar uma 
cubana que v com sua cara. De graa, claro.

Com drogas foi a mesma coisa. Na universidade, nos clubs (pequenas boates, muito escuras, com msica 
de fita todo o repertrio de rto Carlos), a resposta ia da simples negativa  advertnci : uidado. Se a policia 
peg-lo procurando drogas, vo  v>9lta ara seu pas imediatamente. Ou, o que  pior, pode a nao voltar mais. 
Entre os jovens, nas universidades, voltei a fazer outras incurses pela rea das drogas, sempre sem resultado.

Embora dezenas de pessoas tivessem me repetido que em Cuba no h qualquer preconceito contra barba 
e cabelos longos, hoje talvez seja possvel contar nos dedos o nmero de barbudos do pas: Fidel, seu irmo 
Ramn Castro, a mdico Eduardo Ordaz, diretor do Hospital Psiquitrico de Havana, o vice-primeiro-ministro 
Carlos Rafael Rodriguez. E mais uns quatro ou cinco dirigentes de menor projeo.

A presena de um barbudo causa tanto espanto que um dia,  sada de uma repartio, um garotinho 
olhou-me, surpreso, e chamou a ateno da me, puxando-a pela mo:

        Mira, mam, mira: um guerriliero!


28
A imagem que ficou para as crianas foi essa: quem tem barba  guerrilheiro, lutou na serra. Para 
refor-la, o pas est cheio de fotos de Che Guevara e Camilo Cienfuegos, heris nacionais  barbudos e 
guerrilheiros. Cheguei a ouvir pelo menos trs verses para a quase total ausncia de jovens barbudos no pas. 
A primeira foi de Ricardo, o diplomata que me acompanhava:

 ~ que as cubanas, na verdade, preferem os homens de cara lisinha, de barba feita. Assim como a minha.

A explicao de uma estudante de Qumica era mais convincente:

 No  nada disso. O que acontece em Cuba  que a barba tornou-se uma marca registrada, uma 
caracterstica muito forte: esta revoluo foi feita por barbudos, e a barba virou um smbolo. Ento os rapazes, 
por receio de parecerem pretensiosos, tm uma certa vergonha de usar barba. Por outro lado, a barba 
transformou-se numa coisa da moda. E moda aqui em Cuba no pega.

A terceira verso, de um motorista de txi:

 A verdade  que a barba  proibida nas escolas s~cundrias e nos cursos pr-universitrios, assim como o 
cabelo grande. Depois, quando o sujeito est adulto, usa barba se quiser. Quem tem vergonha, no usa. O Estado 
no  dono da vontade de ningum.

> O Estado respeita os direitos individuais, mas j domina cerca de .96% do PNB, o que inclui o Banco 
Nacional, todas as indstrias, quase todos os txis, os restaurantes, os hotis, as bancas de jornais, os cinemas, 
os teatros. E, como todas as coisas so do Estado (isto   do povo, repetiam-me sempre), os hotis de curta 
permanncia tambm so.

Esta deve ser uma das caractersticas do que os comunistas ortodoxos apelidaram de socialismo tropical: 
em Cuba no existe o forte moralismo com que freqUentemente se costuma caracterizar os regimes comunistas. 
A plula anticoncepcional  vendida em qualquer farmcia, o aborto  livre at os trs meses de gravidez e existe 
o divrcio. Mas apesar disso, e do machismo cubano, de que muito me falaram, l  praticamente impossvel 
ter uma garonnire. Um pas com problemas habitacionais no pode se dar ao luxo de oferecer apartamentos


29
para esse tipo de desfrute, enquanto h famlias necessitadas, disse um jornalista divorciado, que vive num 
hotel.

O Estado se encarregou de dar abrigo aos casais apaixonados e no casados legalmente. Em Havana e nas 
outras capitais de provncias, o INIT criou e passou a administrar as posadas ou albergues. So peqenas 
kitchnettes alugadas a preo fixo em todo o pas: as trs primeiras horas de permanncia custam 30 cruzeiros e 
cada hora adicional custa mais CrS 1,80. Se o apartamento tiver ar condicionado, cada hora a mais passa a 
custar 4 cruzeiros.

Nenhuma posada chega a ter, evidentemente, a sofisticao dos hoteizinhos da Barra da Tijuca, no Rio de 
Janeiro, por exemplo. Alm de ar condicionado e gua quente, o nico luxo oferecido , em alguns casos, uma 
discreta entrada de carros depois de um porto de garage. O casal entra num ptio que d acesso ao 
apartamento, sem ser visto por ningum. Isso desde que no esteja num carro oficial, cuja entrada  proibida nos 
albergues e posadas. O interesse despertado por esses hoteizinhos  grande: nos fins de semana  possvel ver 
s suas portas, por exemplo, pequenas filas de casais, de mos dadas, esperando a hora de entrar.






















30
A CULTURA, AS RELAES COM O
MUNDO

II ITihumi miiniu
Durante muitos anos, aps a 
revoluo, a indstria editorial cubana 
manteve uma prtica  hoje em escala 
muito reduzida  que foi batizada de 
fuzilamento de livros. Isto :
a traduo pura e simples de obras 
estrangeiras, sem o pagamento de direitos 
autorais. Mas recentemente o feitio virou 
contra o feiticeiro: o rum Bacardi, que 
Cuba exportava para vrios pases, foi 
vtima de um fuzilamento. Uma empresa 
da Jamaica registrou a marca 
internacionalmente e Cuba foi obrigada a 
mudar a sua para Havana Club, sem poder 
sequer protestar.

A publicao de uma obra sem o 
pagamento de direitos era justificada por 
dirigentes cubanos de uma maneira bem 
simples: para escrever um livro, o autor 
baseou-se em conhecimentos que 
pertencem  humanidade. Esse livro, 
portanto, tambm pertence  humanidade. 
Da mesma forma, toda obra produzida em 
Cuba pode ser transcrita total ou 
parcialmente em qualquer idioma  sem 
pagamento de direitos.

Entre obras fuziladas, compradas 
ou escritas por cubanos, o Instituto 
Cubano do Livro editou, em 1974, cerca 
de 34 milhes de exemplares, dos quais 23 
milhes so didticos e o restante de 
fico, ensaios e depoimentos scio-
polticos. Os livros didticos so 
distribudos gratuitamente aos estudantes, 
em todos os nveis (do pr-escolar  ps-
graduao). As livrarias de Havana so 
poucas e pobres em ttulos. Em parte isso 
se explica pela -riqueza da Biblioteca 
Nacional, que tem mais de
iUNIVFDSIOIflF OE 
CI~I~S 00 SW
3
3
Durante muitos anos, aps a revoluo, a indstria editorial cubana manteve uma prtica  hoje em escala muito reduzida  que foi batizada de fuzilamento de livros. 
Isto :
a traduo pura e simples de obras estrangeiras, sem o pagamento de direitos autorais. Mas recentemente o feitio virou contra o feiticeiro: o rum Bacardi, que Cuba 
exportava para vrios pases, foi vtima de um fuzilamento. Uma empresa da Jamaica registrou a marca internacionalmente e Cuba foi obrigada a mudar a sua para 
Havana 
Club, sem poder sequer protestar.

A publicao de uma obra sem o pagamento de direitos era justificada por dirigentes cubanos de uma maneira bem simples: para escrever um livro, o autor baseou-se 
em conhecimentos que pertencem  humanidade. Esse livro, portanto, tambm pertence  humanidade. Da mesma forma, toda obra produzida em Cuba pode ser transcrita 
total ou parcialmente em qualquer idioma  sem pagamento de direitos.

Entre obras fuziladas, compradas ou escritas por cubanos, o Instituto Cubano do Livro editou, em 1974, cerca de 34 milhes de exemplares, dos quais 23 milhes 
so 
didticos e o restante de fico, ensaios e depoimentos scio-polticos. Os livros didticos so distribudos gratuitamente aos estudantes, em todos os nveis (do 
pr-escolar  
ps-graduao). As livrarias de Havana so poucas e pobres em ttulos. Em parte isso se explica pela -riqueza da Biblioteca Nacional, que tem mais de


33

iUNIVFDSIOIflF OE CI~I~S 00 SW

meio milho de volumes, e pelas 1.500 bibliotecas espalhadas em escolas, centros dc trabalhos c sindicatos, 
alm da distribuio de livros didticos pelo Estado. Nas prateleiras das livrarias. a maior variedade de ttulos 
refere-se a temas marxistas. Mas pode-se comprar. por 20 cruzeiros, best-sellers nem to revolucionrios, como 
O Cliefo, de Mrio Puzo.

Embora no se permita a exibio de filmes considerados ~contra-revolucionrios, no h restrio 
quanto  origem dos filmes: adquiridos de distribuidores europeus, chegam a Cuba filmes americanos, 
brasileiros e de qualquer outro pas participante do bloqueio econmico (em maro de 1975, por exempo, 
Havana tinha os muros cobertos de cartazes anunciando a exibio de So Bernardo, do brasileiro Leon 
Hirzmann).

A qualidade dos documentrios produzidos em Cuba respeitada por cineastas de todo o mundo. Algumas 
das peliculas mais conhecidas so Girn, que conta como os mercenrios foram vencidos na Baa dos Porcos, 
Luzia, onde a atriz principal vive smultaneamente os papis de trs mulheres cuba-nas trabalhando em 
atividades diferentes, e La Nueva Escuela um filme sobre a revoluo educacional realizada em Cuba.

Filmar tudo o que acontece de importante e guardar as pelculas, disse um jovem cineasta, foi um 
conselho que nos deram os cineastas soviticos logo aps o triunfo da revoluo. Hoje somos capazes de montar 
filmes sobre tudo o que se passou de importante no pas aps janeiro de 1959.

A influncia do leste europeu na cultura cubana no se manifesta apenas no cinema. Os trs canais de 
televiso de Cuba apre~cntam todos os dias, pelo menos um documentrio produzido na Europa Oriental. Dois 
telejornais  um s 12 t outro s 19 horas  apresentam noticirio nacional e internacional. A televiso cubana s 
entra em cadeia nacional para Fidel falar ou para transmitir uma partida importante de basebali (l chamado de 
pelota), o esporte nacional.

Com o esporte profissional abolido pela revoluo, todos os times cubanos so amadores, compostos por 
operrios, estudantes, mdicos, pessoas de todas as categorias. Quem atua num time provinciai tem direito  
folga no trabalho para os treinos. Trs anos aps a amadorizao dos esportes no pas, Cuba tornou-se campe 
mundial de basebali, ttulo que ainda


34
detm. E, nos ltimos Jogos Panamericanos, realizados no Mexico, o pas s perdeu para os Estados Unidos  
superando, no entanto, o Canad, o Mxico, o Brasil, a Argentina e todos os outros 18 pases concorrentes. Hoje 
os esportes em Cuba so amadores para quem joga e para quem v~: nenhum estdio cobra ingressos, todos os 
jogos so realizados com portes abertos.

Ningum fala em esportes em Cuba sem referir-se com orgulho a Tefilo Stevenson, um operrio de quase 
dois metros de altura, medalha de ouro em box peso-pesado nas Olimpadas de Munique (quando derrotou 
justamente um americano, Duane Bobby) e nos ltimos Jogos Panamericanos. Nas Olimpadas de Munique, um 
grupo de managers de box dos Estados Unidos ofereceu-lhe um milho de dlares para mudar-se para Los 
Angeles e profssonahzar-se (seus trs antecessores no ttulo olmpico peso-pesado, Muhammad Ali, em 1960, 
Joe Frazier, em 1964, e George Foreman, em 1968, acabaram sendo campees mundiais como profissionais). 
Stevenson  no se cansam de repetir os cubanos  preferiu voltar a ser operrio e boxeur amador em Cuba.

O_esporte_amador parece ser uma das formas com que ~Cuba facilita sua aproximao com pases de 
tod o mundo. Omctyjmenw de atletas canadenses, blgaros, russos e de uma infinidade de outros pases,  
intenso em Havana e nas provncias do interior. Muitos deles vivem em Cuba, como  o caso do hngaro Karoly 
Laky, de 64 anos, treinador da equipe cubana de plo aqutico.

A exceo desses treinadores de esportes e 4e ~lguns instrutores militares, a presena de europeus 
orientais no dia a dia cubano no  to intensa e ostensiva como o noticirio dos jornais d a entender. Pode-se, 
entretanxo, ouvir nas ruas algumas expresses russas, como tovaritch (camaradaj, niet (no), mescladas ao 
espanhol, da mesma forma que usamos no Brasil palavras inglesas como yes, ok, bye-bye, Fora isso, no se 
percebe no cotidiano cubano a presena sovitica. At os caminhoes Gaz e Zil j comeam a ficar em minoria 
nas estradas, depois da chegada dos Mercedes-Benz argentinos. O mesmo ocorre com os Zhugulin-Far 
produzidos na Rssia  agora perdidos no meio dos 45 mil Ford Falcon, Chevy e Dodge 1.500 que Pern 
vendeu a Cuba h dois anos, e dos Alfa-Romeo italianos.



35
No se vem russos nas ruas. Sua presena em Cuba (6 mil ao todo, segundo autoridades cubanas, e 10 
mil, segundo estatsticas americanas) est mais restrita aos acordos de ajuda cientfica e militar. E, apesar da 
participao da URSS no processo cubano, os russos residentes em Cuba no tm privilgio em relao aos 
tcnicos de outros pases.

As boas relaes de Cuba com o mundo socialista  e no apenas com a Europa Oriental  podem ser 
medidas pelo nmero de delegaes estrangeiras que diariamente chegam e saem do pas. Durante minha 
viagem, quase todas as edies dos jornais Granma e Juventud Rebelde anunciavam a presena de uma misso 
estrangeira.

Comparadas com as do incio da dcada de 60, as relaes atuais do governo cubano com a Igreja podem 
ser consideradas muito boas. Dois anos depois da revoluo, Fidel Castro mandou expulsar do pas o Nncio 
Apostlico, acusado de envolvimento no contrabando de armas para os grupos que lutavam contra o governo.

A paz entre o Estado e a Igreja veio, segundo se diz em Cuba, depois que se estabeleceu um princpio: Os 
padres no se metem na revoluo e os revolucionrios no vo missa. Quando Fidel Castro esteve no Chile, 
em 1971, disse, em conversa com um grupo de padres catlicos,qne a revoluo sempre teve para com a Igreja 
uma atitude indulgente, mesmo nos casos em que a acusao contra seus membros era a mais grave de todas em 
Cuba: traio. Quando um padre era acusado de traio, o governo o expulsava do pas. Pelo mesmo crime, 
qualquer outra pessoa seria condenada  morte.~

H dois anos, Dom Cesare Zacchi, o atual Nncio, liderando um grupo de seminaristas, participou 
pessoalmente de um perodo de trabalho voluntrio no corte de cana. E, alguns meses antes, o chanceler do 
Vaticano, Dom Carmine Rocco, interrompeu uma missa que rezava durante sua visita ao pas para atender a um 
telefonema de saudaes do prprio Fidel Castro.

s seis horas da tarde de uma agitada segunda-feira, o bar do Hotel Nacional parece uma espcie de 
Assemblia Geral dos Pases Socialistas, No Alinhados e Inimigos do Capitalismo:

de um lado, trs mongis bebem vodca  vieram a Cuba estabelecer convnios agropecurios; no balco, um 
diplomata blgaro conversa com um jornalista romeno; trs membros do Partido do Trabalho do Congo tomam 
daiquiri junto  porta,


36
esperando vagar uma mesa; junto com um guia cubano, um jurista do Vietn do Norte tenta inutilmente falar 
espanhol.

E diariamente o jornal Granma, o mais importante do pas, repete a notinha de primeira pgina onde s 
mudam o nome de quem chegou e de quem foi ao aeroporto receb-lo:

Chegou ontem a Cuba, convidada pelo Comit Central do Partido Comunista Cubano, a delegao de. . . que foi 
recebida no aeroporto Jos Marti por. . ., do Bureau Poltico do PCC.

Mais ostensiva do que em relao  URSS  a amizade dos cubanos pelo Vietn do Norte. Fidel Castro 
no se cansa de citar o herico povo vietnamita em seus discursos, e pelas cidades h bandeirinhas vermelhas 
nos restaurantes, cinemas, escritrios, com esta frase: Cubanos e norte-vietnamitas tm em suas veias o mesmo 
sangue. O sangue vermelho da revoluo. Depois de seus prprios her5is nacionais (Jos Mart, Che Guevara, 
Camilo Cienfuegos), Ho Chi Minh parece ser a figura mais venerada e respeitada em Cuba.

O governo mantm dois supermercados especiais para tcnicos estrangeiros, onde podem comprar 
cigarros, bebidas, roup~as e alimentos europeus e soviticos a preos muito baixos. A justificativa: O pas no 
pode submeter ao racionamento os estrangeiros que saem de sua terra para prestar ajuda revoluo. O preo 
dos produtos vendidos nessas tiendas diplomticas  irrisrio: uma garrafa de usque Johnnie Walker custa 35 
cruzeiros, enquanto a dose do mesmo usque custa 45 cruzeiros nos restaurantes de luxo da cidade. Os turistas 
tambm tm tratamento especial, mas apenas na compra de produtos cubanos. Em todos os grandes hotis h 
tiendas tursticas, onde se pode comprar charntos, rum, discos e posters a preos mais baixos, apenas 
exibindo o passaporte e o visto de turista.

Nenhuma dessas regalias, entretanto, beneficia os estrangeiros que entraram no pas como exilados 
polticos. Estes tm os mesmos direitos e obrigaes de qualquer cidado cubano
        ou seja: trabalham e vivem como cubanos. Tm tambm de submeter-se ao racionamento que, segundo 
dizem os cubanos. j est chegando ao fim.






37

















O
        RACION
AMENTO
















O
        RACION
AMENTO





















Pelo menos duas vezes por semana 
os jornais anunciam que um novo gnero 
alimentcio deixou de ser racionado e que 
j pode ser comprado por la libre (fora 
da tabela a que todo cubano est sujeito). 
O racionamento j foi pior  diz dona 
Eliana, mulher de um agrnomo e me 
de trs filhos, que vive em Havana. 
Hoje a quantidade a que cada um tem 
direito  mais abundante e acredito que 
em um ano o racionamento tenha 
acabado. Pelo menos a gente tem a 
certeza de que no h discriminao. O 
racionamento  igual para todos. E esta 
mesma fila que fao neste supermercado 
 enfrentada pela mulher do ministro do 
Interior, de fibreta na mo. Quem v um 
ministro cubano nas ruas passa a 
acreditar nisso. Eles, de fato, se 
confundem com o povo, sempre em 
mangas de camisa, nos restaurantes, nas 
reparties pblicas.

A libreta, dizem,  o osso 
atravessado na garganta da revoluo. 
Ou, nas palavras de um gerente de 
supermercado em Havana: Fidel disse 
que quando a revoluo estivesse 
terminada, ele cortaria a barba. Acho que 
no dia em que a libreta for eliminada, ele 
corta.
Para que a produo agrcola do 
pas d para abastecer os 9,2 milhes de 
habitantes,  que existe o racionamento. 
Com isso, todos os cubanos tm direito  
mesma quota mensal de alimentos,. At o 
fim da dcada passada, conta-se que o 
mercado negro era feroz, pois o governo 
ainda no havia assumido


4
1





















Pelo menos duas vezes por semana 
os jornais anunciam que um novo gnero 
alimentcio deixou de ser racionado e que 
j pode ser comprado por la libre (fora 
da tabela a que todo cubano est sujeito). 
0 racionamento j foi pior  diz dona 
Eliana, mulher de um agrnomo e me 
de trs filhos, que vive em Havana. 
Hoje a quantidade a que cada um tem 
direito  mais abundante e acredito que 
em um ano o racionamento tenha 
acabado. Pelo menos a gente tem a 
certeza de que no h discriminao. O 
racionamento  igual para todos. E esta 
mesma fila que fao neste supermercado 
 enfrentada pela mulher do ministro do 
Interior, de fibreta na mo. Quem v um 
ministro cubano nas ruas passa a 
acreditar nisso. Eles, de fato, se 
confundem com o povo, sempre em 
mangas de camisa, nos restaurantes, nas 
reparties pblicas.

A libreta, dizem,  o osso 
atravessado na garganta da revoluo. 
Ou, nas palavras de um gerente de 
supermercado em Havana: Fidel disse 
que quando a revoluo estivesse 
terminada, ele cortaria a barba. Acho que 
no dia em que a libreta for eliminada, ele 
corta.

Para que a produo agrcola do 
pas d para abastecer os 9,2 milhes de 
habitantes,  que existe o racionamento. 
Com isso, todos os cubanos tm direito  
mesma quota mensal de alimentos,, At o 
fim da dcada passada, conta-se que o 
mercado negro era feroz, pois o governo 
ainda no havia assumido


4
1



o        controle total do abastecimento e da comercializao de gneros no 
pais. Em 1968, por exemplo, um leito que custava 135 cruzeiros pela 
libreta era vendido no mercado negro por quase Cr$ 3 mil. Hoje, com toda a 
distribuio e comercializao nas ms do Ministrio do Comrcio 
Interior, s se compra com libreta. E para os produtos considerados no 
essenciais  como cigarros e bebidas  o Estado arranjou uma soluo sui-
generis, adotada recentemente pelo governo do Vietn na reconstruo do 
pas: assumiu o mercado negro.

Assim, cada cubano tem direito a apenas um mao de cigarros por 
semana, ao preo de Cr$ 1,80. Se quiser fumar mais, tem de pagar o mao a 18 
cruzeiros. A garrafa de rum, que custa 22 cruzeiros pela lbreta (uma por ms, 
para cada adulto),  vendida a 198 cruzeiros por la libre. Cada cubano tem 
direito a um charuto por semana que lhe custa dois cruzeiros  quem 
quiser fumar mais, paga nove cruzeiros a unidade.

Juan Martinez Tinguao, amigo pessoal de Fidel, a quem ajudou a editar 
um jornazinho clandestino antes da revoluo,  hoje funcionrio do 
Instituto Nacional da Indstria Turstica. Fuma de dez a quinze charutos 
Cazadores por dia, e paga caro: Sinto-me como se estivesse sustentando um 
filho que vivesse em Paris. O preo  o mesmo. Quando perguntei a 
Gilberto, o motorista que trabalhava comigo, se no era caro demais um mao 
de cigarros custar 18 cruzeiros por la libre, ele tirou do bolso seu mao de 
Populares e mostrou-me algo que vem impresso sob a marca:

        Est vendo? Fumar faz mal  sua sade. No necessrio. Em 
Cuba um mao de cigarros custa 18 cruzeiros, mas a gente se consola 
sabendo que toda criana at sete anos de idade e todo velho de mais de 
65 tem direito a um litro de leite por dia, por lei. Uma coisa paga a outra.

Para racionalizar a distribuio e evitar que o mesmo produto falte num 
lugar e sobre em outro, cada supermercado serve a determinado nmero de 
moradores de um bairro. Por exemplo: um supermercado do bairro de Vedado, 
em Havaha, vende a 6 mil famlias residentes naquela regio. Isso significa 
que um morador da rua 23, por exemplo, s pode comprar ali seus 
alimentos racionados Por ia libre ele compra onde quiser. Com o controle 
total do Estado sobre o abastecimento do pas, o governo consegue manter 
estveis os preos ao consumidor h catorze anos, desde que foi baixada a 
segunda lei da reforma


42
agrria. Um quilo de arroz, por exemplo, continua custando 2,60 cruzeiros desde 1962, embora nesse perodo o 
preo da tonelada do produto tenha aumentado de 864 para 3.600 cruzeiros no mercado internacional. A 
diferena  subsidiada pelo Estado. Para reduzir o gasto de divisas, Cuba tem forado a diminuio do 
consumo interno de seus produtos de exportao
        o que explica os preos altos do rum, do charuto e dos cigarros.

Com os preos internos estveis, o que pode sofre~- uma pequena variao  a quantidade a que 
cada cubano tem direito. Se uma safra  boa (ou se os preos de algum gnero importado caem no 
mercado internacional), a quota de cada um aumenta. e vice-versa. Mas sempre mantendo um 
mnimo necessrio  alimentao das pessoas  assegura o gerente de um supermercado. Pregada  porta dos 
armazns h sempre uma tabela com a quantidade por pessoa e o respectivo preo  tabela que  a 
mesma em Pinar IJel Rio, no oeste do pais, ou em Santiago, capital da provncia de Oriente. Em 
maro de 1975, esta era a tabela em vigor no pas (convertida em cruzeiros):

Produto

Manteiga
Sabo/detergente
Caldo de carne e galinha,
Concentrado, para crianas
Arroz
Massa de tomate

Feiio
Acar
Sal
Sabonete
Pasta dental

Carne de boi (preo mdio)
Carne de porco
Carne congelada prensada
Salame
Salsicho
Costeleta salgada
Toucinho
Presuntada em lata
Presunto Cozido
Presunto cru
Pata
Lombo defumado
Quantidade per capita por ms
500 gramas
3,5 quilos

7        tabletes
3        quilos
1,5        quilo p/ famlia de at 7 pessoas
700 gramas
1,5 quilos
500 gramas
1,5 unidade p/ Pessoa
4        por grupo de 15 pessoas
350 gramas
350 gramas
700 gramas
480 gramas
480 gramas
420 gramas
350 gramas
350 gramas
300 gramas
240 gramas
3        latinhas
270 gramas
Preo a pagar
pela quota

CrS 2,16
Cr$ 2,70

Cr$ 1,40
Cr$ 7,80

Cr$ 2,70
Cr$ 1,62
Cr$ 0,50
Cr$ 0,30
Cr$ 1,30
        Cr$        6,00
        CrS        5,00
        Cr$        5,00
        Cr$        5,40
        Cr$        5,40
        Cr$        5,40
        Cr$        5,00
        CrS        5,00
        CrS        4,50
        CrS        5.20
        Cr$        9,45
        Cr$        9,45
        Cr$        4,60



43
a~ CAU~S flfl Su



Para entender o racionamento de alimentos  preciso saber que 
todos os locais de trabalho (fbricas, reparties pblicas, etc.) 
servem almoo e jantar a 3 cruzeiros, e as escolas, em todos os 
nveis, do caf da manh, almoo e jantar gratuita-mente aos alunos. 
Nada disso  debitado  quota individual das pessoas. O que se compra nos 
supermercados, ento, utilizado praticamente apenas em jantares 
eventuais e nas refeies de sbados e domingos.

A gasolina tambm  racionada, embora Cuba tenha seu 
abastecimento de petrleo garantido pela URSS at 1980, a preo 
fixo (e abaixo dos preos do mercado internacional).. Os carros 
particulares de 4 e 6 cilindros (Fiat, Zhugulin, Dodge 1500, Ford Falcan, 
Alfa Romeo) tm direito a 76 litros de gasolina por ms, e os de 8 
cilindros (geralmente os velhos carros americanos de antes do bloqueio) 
tm direito a 95 litros. Dentro dessa quota, o litro custa 1,42 cruzeiros, mas 
quem quiser pasear por la libre, como dizem os cubanos, tambm pode  s 
que o litro de gasolina passa a custar 4,72 cruzeiros. Para compensar o 
racionamento, o transporte coletivo urbano  eficiente e relativamente 
barato (uma passagem de nibus custa Cr$ 0,45).
As corridas de txi so caras: a bandeirada custa Cr$ 4,50 e o 
quilmetro rodado, Cr$ 3,00. Uma viagem equivalente do centro de So 
Paulo ao aeroporto de Congonhas  15 quilmetros  custava Cr$ 45,00. Mas 
isso no impede que os txis sejam disputados pela populao nas noites de 
sexta-feira, sbado e domingo, quando o povo invade as boates, restaurantes 
e casas de espetculos de Havana e das capitais provinciais.

 custa do racionamento, quem quiser fazer um galanteio a uma 
cubana deve levar-lhe de presente uma duzia de bobbies plsticos para 
enrolar cabelos. A cubana  extremamente vaidosa  o que pode ser 
percebido pelo intenso movimento dos sales de beleza. Este costume 
burgus sobreviveu em Cuba com toques revolucionrios: o salo de beleza 
do Hotel Nacional, por exemplo, se chama Van Troi, em homenagem a 
uma combatente da guerra do Vietn. o racionamento fez desaparecerem os 
bobbies do mercado, o que criou uma situao engraada: pode-se ver pelas 
ruas mulheres com os cabelos enrolados com latinhas de talco vazias ou 
cilindros de papelo de papel higinico, transformados em bobbies.

Para os noivos, o racionamento deixa de existir por algumas
horas: no dia do casamento, o homem e a mulher tm direito,

44
cada um, a 15 caixas de cerveja, 15 garrafas de rum e meia dzia de garrafas de champanha da Crimia  
tudo a preo de tabela, fora do racionamento. Alm disso, o Estado aluga quantos carros sejam 
necessrios para transportar os convidados, e os noivos s pagam a gasolina.

No Palcio dos Matrimnios, o movimento  muito grande aos sbados e domingos. No dia 19 de maro 
de 1975, a noiva era Hortensia, uma ex-domstica de 38 anos, hoje chefe de seo numa fbrica de roupas 
industriais. O noivo era Alberto, 35 anos, mecnico de turbinas da Cubana de A viacin. Intercalando frases de 
Lnin com conselhos de sua prpria lavra, o juiz d por encerrada a cerimnia com uma frase dirigida ao 
noivo: No se esquea de que este  o Ano Internacional da Mulher. Sua homenagem, Alberto, deve ser 
prestada a flortensia, que agora  a sua mulher.

Roupas e calados tambm continjiam racionados: cada pessoa tem direito a comprar trs pares de sapatos 
por ano. Os homens tm uma quota anual de dois temos e as mulheres de dez metros quadrados de tecido 
para vestidos. Nenhum desses produtos, entretanto,  anunciado em Cuba. Os out-door onde antigamente 
eram colados cartazes de publicidade foram multiplicados no pas e transformados em veculos s de 
propaganda poltica e de estmulo  produo agrcola e industrial. A agncia de propaganda do Estado  o 
DOR  Departamento de Orientao Revolucionria, responsvel pela criao da propaganda oficial.

Viajando pela carretera central, que atravessa o pas de ponta a ponta (quase mil quilmetros de 
extenso, quatro pistas asfaltadas), pode-se ver, de um lado e de outro, os cartazes coloridos: Os homens 
morrem, o Partido  imortal; AVenezuela no estar sozinha neste continente, como Cuba esteve; 
Saudaes ao companheiro Edward Gierek, da Polnia. Por todo o pas estavam espalhados cartazes 
chamando a ateno para o primeiro Congresso do Partido Comunista Cubano (ocorrido em 1975) e 
manifestando solidariedade ao povo chileno.

A cerveja Atuey e os refrigerantes Som, de cinco sabores, produzidos no pais, no tm rtulo nem chapinha 
impressa: so identificados pelo formato da garrafa ou pela cor do lquido.

Sendo gratuitos quase todos os servios bsicos (educao, alimentao escolar, roupas de estudantes, 
livros e cadernos,


45


assistncia mdica e remdios), sem pagar impostos e sofrendo uni 
dsconto de apenas 6% no salrio (pagamento de aluguel, para os que no 
tinham casa prpria antes da revoluo), o cubano faz sua poupana. 
Normalmente as economias so depositadas no Banco Nacional de Cuba  
que s agora comear a cobrar e pagar juros  ou gastas em bens de 
consumo (geladeiras, televisores e mquinas de lavar importados da URSS, 
do Canad ou da Espanha, financiados pelo Estado). A maioria, 
entretanto, inclusive pela falta de bens de consumo  disposio, prefere 
gastar o dinheiro bebendo, comendo, danando
        divertindo-se de vrias formas. Isso pode ser percebido facilmente pelo 
movimento das boates e restaurantes nos fins de semana:  impossvel 
entrar num desses locais sem ter reserva feita com dois dias de 
antecdncia.

Os carros recentemente importados da Argentina passaram a ser a 
nova tentao dos cubanos. Os primeiros que chegaram ao pas 
substituiram os velhos Cadillacs e Oldrmobile. americanos nos setores 
considerados fundamentais: txis e reparties pblicas. As remessas 
seguintes puderam ser vendidas a particulares. Mas, como os carros 
no so tantos e a procura  grande, o governo adotou um critrio: 
primeiro vender aos mdicos, depois s outras categorias, at que se possa 
atender a todos os interessados. Os que compraram, por exemplo, os 
Fiat fabricados na Argentina, pagaram cerca de 40 mil cruzeiros, que o 
governo financia em quatro anos. A prestao mnima  de 720 cruzeiros, 
valor do salrio-mnimo nacional.

Cuba passou 60 anos dependendo dos Estados Unidos para tudo. A 
economia, a tecnologia, a indstria, a educao, a cultura, a alimentao, o 
fornecimento de petrleo, a venda de acar  tudo dependia dos vizinhos 
americanos. Em 1961, da noite para o dia, o governo dos Estados 
Unidos cortou o cordo umbilical por onde passavam o oxignio, o 
sangue, o alimento dos ento 5,5 milhes de cubanos. E, alm disso, 
ofereceu aos tcnicos, aos mdicos e aos cientistas altos salrios para que 
abandonassem o pas  um estrangulamento no melhor estilo. As 
mquinas pararam, pois no havia quem as movimentasse. Muitas das 
que continuaram funcionando acabariam desativadas por falta de peas 
de reposio.

Os russos substituiram os americanos no fornecimento de
petrleo, na compra da quota do acar, no abastecimento de
produtos semi-industrializados. Com o bloqueio total, decre46
tado pela Organizao dos Estados Americanos, por inspirao dos FUA, Cuba viveu momentos duros e s 
podia comprar o que fosse absolutamente indispensvel para a vida do pas. Os carros foram um bom exemplo 
desse comportamento: decidiu-se sobreviver com os carros americanos que existiam, e tentar mant-los 
inteiros at que a situao melhorasse e a frota nacional pudesse ser substituida por outros modelos.

Durante dez anos, no entrou no pas um s parafuso feito nos Estados Unidos, embora praticamente todos 
os carros fossem americanos. Em Cuba diz-se que os mecnicos de automvel chegaram  perfeio de 
tirar umidade do p, em matria de consertos e reparos. O pas voltava ao estgio em que os americanos se 
encontravam em 1900: quando algum precisava de peas de reposio, metia um bloco de ao no torno e as 
construa, uma por uma.

Os velhos Ford Fajilane fabricados em 1960, que eram usados pela Polcia Nacional Revolucionria, 
rodaram durante dez anos, 24 horas por dia, sem uma pea sobressalente comprada no exterior. Dizia-se que um 
ladro, a p, estava mais bem equipado que a polcia, de automvel.

Hoje, abastecida pelo Japo, Itlia, URSS e Argentina, Cuba resolveu em parte o problema dos 
carros. Mas ainda possvel ver nos jornais notinhas da polcia advertindo que expressamente proibido 
abandonar veculos imprestveis na via pblica. Largados nos subrbios das principais cidades, os velhos 
Cadillacs dos anos 50 so a ltima lembrana, uma irnica lembrana da presena americana no pas.

















47

















UM PAS SEM FAVELAS
















UM PAS SEM FAVELAS






















Uma das mais baixas relaes 
entre piso e te~3 salarial do mundo  
a cubana. Os salrios oscilam entre 
mnimo de 80 pesos e o mximo de 350 
pesos mensais (720 a 3.150 cruzeiros, 
segundo o cmbio do cruzeiro em 1975). 
Pouqussimas pessoas, entretanto, 
ganham apenas um salrio-mnimo. 
Um basurero
        lixeiro  por exemplo, ganha cerca de 
950 cruzeiros. E, embora a mdia salarial 
gire em torno dos 180 pesos mensais, 
sobrevivem em Cuba os chamados 
salrios histricos, de 500 a 600 pesos 
mensais  to raros que no so 
computados nos clculos globais.

Os salrios histricos so 
originrios de uma peculiaridade da 
revoluo cubana. Como nenhum 
empregado teve seu salrio reduzido 
pelos novos governantes, a partir de 
1959, alguns funcionrios das antigas 
empresas telefnicas e de eletricidade 
estrangeiras continuaram recebendo o 
que ganhavam na poca da revoluo. 
Um clculo aproximado fixa em 
torno de mil as pessoas que continuam 
recebendo salrios histricos. Um 
jornalista ganha em mdia 2 mil cruzeiros 
por ms, um
-ministro de Estado, 2.700, um motorista, 
1.500 cruzeiros.

Como no h inflao, os 
reajustes salariais so muito raros. Em 
1975, por exemplo, o Sindicato dos 
Jornalistas ia propor ao Ministrio do 
Trabalho um aumento do piso salarial da 
classe, para estimular o interesse dos 
jovens pelos cursos de Comunicao. A 
escala salarial dos jornalistas obedece


5
1






















Uma das mais baixas relaes 
entre piso e te~3 salarial do mundo  
a cubana. Os salrios oscilam entre 
mnimo de 80 pesos e o mximo de 350 
pesos mensais (720 a 3.150 cruzeiros, 
segundo o cmbio do cruzeiro em 1975). 
Pouqussimas pessoas, entretanto, 
ganham apenas um salrio-mnimo. 
Um basurero
        lixeiro  por exemplo, ganha cerca de 
950 cruzeiros. E, embora a mdia salarial 
gire em torno dos 180 pesos mensais, 
sobrevivem em Cuba os chamados 
salrios histricos, de 500 a 600 pesos 
mensais  to raros que no so 
computados nos clculos globais.

Os salrios histricos so 
originrios de uma peculiaridade da 
revoluo cubana. Como nenhum 
empregado teve seu salrio reduzido 
pelos novos governantes, a partir de 
1959, alguns funcionrios das antigas 
empresas telefnicas e de eletricidade 
estrangeiras continuaram recebendo o 
que ganhavam na poca da revoluo. 
Um clculo aproximado fixa em torno de 
mil as pessoas que continuam recebendo 
salrios histricos. Um jornalista ganha 
em mdia 2 mil cruzeiros por ms, um
-ministro de Estado, 2.700, um motorista, 
1.500 cruzeiros.

Como no h inflao, os 
reajustes salariais so muito raros. Em 
1975, por exemplo, o Sindicato dos 
Jornalistas ia propor ao Ministrio do 
Trabalho um aumento do piso salarial da 
classe, para estimular o interesse dos 
jovens pelos cursos de Comunicao. A 
escala salarial dos jornalistas obedece


5
1




a critrios objetivos: quem souber mais de um idioma tem direito a x 
pesos de aumento; quem tiver ps-graduao, mais x, e assim por diante, mas 
nunca superando o teto da classe.

Alm dos que recebem salrios histricos~, um grupo vive de rendas 
mensais de aproximadamente 500 pesos (cerca de 4.500 cruzeiros). So os 
antigos proprietarlos de casas alugadas, que recebem essa quantia do 
Estado, a ttulo de indenizao. A lei da reforma urbana, uma das 
primeiras baixadas pelo novo regime, determinou que todo mundo passava 
a ser dono da casa em que vivia. Quem tivesse, alm da casa em que morava, 
um imvel a mais, perderia a segunda propriedade e receberia do governo 
500 pesos mensais, em carter vitalcio e no hereditrio. Os proprietrios de 
mais de dois imoveis eram simplesmente expropriados, a partir do segundo 
imvel, sem direito indenizao. Os antigos inquilinos compravam a casa, 
pagando o preo ao Estado, num prazo que variava de trs a oito anos e 
em prestaes mensais proporcionais  renda da famlia.

Q~ando, em 1961, o governo proclamou o carter socialista da 
revoluo, ocorreu o que os cubanos chamam ironicamente de reforma 
urbana espontnea: a fuga em massa dos milionrios para Miami. Os 
dois bairros mais elegantes de Havana, Miramar e Lagi.tos  
infinitamente mais sofisticados, por exemplo, que o Morumbi, em So 
Paulo e a Gvea, no Rio
        ficaram desertos da noite para o dia. Na esperana de que a 
revoluo fosse algo passageiro, os donos de muitas das manses 
transformaram as paredes em cofres, abarrotando-OS de jias, obras de arte e 
dinheiro vivo. Jlio Lobo, por exemplo, industrial do acar de 78 anos, um 
dos homens mais ricos da Cuba pr-revolucionria (hoje residente em Madri), 
confessou h alguns meses, em uma entrevista a uma revista mexicana, que 
deixou em seu pas, sem olhar para trs, 140 milhes de dlares em 
dinheiro, a maior fortuna pessoal de Cuba. Como parte dessa fortuna, ele 
tinha mais de 400 imveis alugados em Havana e nas outras provncias 
 todos expropriados pelo novo governo.
As milhares de casas abandonadas foram ocupadas de imediato pelo 
governo. A redistribuio das manses de Laguitos e Miramar transformou 
a vida desses dois bairros arborizados com lamos seculares: onde 
moravam os ezares do acar, passaram a viver estudantes pobres que 
vinham a Havana terminar seus cursos com bolsas de estudos. Ainda hoje, 
uma das diverses preferidas desses estudantes  andar pelas casas


52
batendo na paredes com os ns dos dedos,  procura de fundos falsos, onde os antigos moradores pudessem ter 
escondido fortunas antes de partir.

Mas o problema habitacional, evidentemente, continuava de p. Fidel Castro havia dito, no incio dos 
anos 60, que enquanto houvesse um s boho (casebre) em Cuba, a revoluo no mereceria esse 
nome. E ainda havia bohios espa]hados pelo p.~as. A reforma urbana e as casas abandonadas pelos 
milionrios no resolveram a crise. Em 1968 havia um dei icit, reconhecido pelo prprio primeiro-ministro, de 
100 mil casas por ano.

O        Ministrio da Construo tentava diminuir as causas do problema, construindo conjuntos de 
casas e apartamentos, mas no havia mo de obra suficiente para a construo civil. A soluo adotada, a 
partir de 1969, foi a formao de grupos speciai& para prestar servios na construo. O_Es tndo forneceria 
material, terreno, arquitetos e engenheiros. E de cada local de trabalho seria deslocado um certo nmero 
defuncionrios para trabalhar na construo dos conjuntos habitacionais. A idia, lanada pelo prprio Fidel 
Castro num congresso nacional dos trabalhadores cubanos, determinava tambm que as casas construdas pelos 
grupos especiais seriam distribudas entre os trabalhadores da repartio, da indstria, do local que for-
necesse a mo de obra. Naquele momento estavam nascendo as microbrigadas.
Fidel imps apenas uma condio: qualquer que fosse o nmero de pessoas afastadas do servio 
para atuar na construo, a produo daquele centro de trabalho no poderia cair. Os que 
permanecessem teriam que aumentar o ritmo para manter a produo estvel, j que tambm seriam 
beneficiados na distribuio de casas prprias. Parecia uma soluo de guerra. E era, comenta hoje 
um engenheiro. Ns estvamos em guerra contra o capitalismo.

Em 1970, havia trs microbrigadas_no pas: duas na
vncia de Oriente e uma em Havana, cada uma com 33 trabalhadores homens e mulheres. Um ano 
depois j existiam 440 microbrioadas; no fim de 1974, elas tinham crescido para 1.125. No princpio, o 
maior problema era a falta de qualificao dos trabalhadores. Por melhor que fosse a assessoria tia,as casas 
construdas eram muito simples. Havia padeiros, garo~ professores, mdicos, diplomatas, gente de todas as 
profisses


53

~DIIYERSIOROF DE CllJ~S Do SI]!


as5entando tijolos, pregando tacos, instalando sistemas hidrulicos e eltricos. 
Se a esttica no poderia ser considerada prioritria, os tcnicos procuravam 
ser exigentes com as normas dc seurana. Segundo Alrio ~\Ifonso, 
coordenador nacional da~ ncrobrigadas, nunca houve um s caso de 
incndio, curto circuito ou desabamento por defeito em casas ou 
apartamentos por elas construdos. ~Alm do esprito de responsabilidade do 
nosso operrio, diz ele, existia outro dado: o homem que estava instalando 
um sistema eltrico numa casa podia ser seu futuro morador.

A idia de construir conjuntos de casas foi logo abandonada  fazer 
prdios dc cinco andares era mais racional. No princpio, usou-se tecnologia 
sovitica em pr-moldados, mas hoje i se projeta e se constri tudo em Cuba.

Um ano depois de organizadas as microbrigadas, ficou claro que no 
bastava construir apenas os conjuntos habitacionais e entreg-los a seus 
futuros donos. Era preciso criar infra-estrutura para as famlias que ali fossem 
viver. Passou-se ento a dividir cada microbrigada em dois grupos: um de 25 
trabalhadores para levantar o prdio de apartamentos e outro, de 8 pessoas, 
para a construo de obras sociais e de servios: mercado, berrio, gabinetes 
mdicos, piscina e praas de esportes.

Resolvido desta maneira o problema da mo de obra para c setor 
habitacional, surgiu outra dificuldade: no havia gente para trabalhar na 
montagem de fbricas de cimento, esquadrias metlicas, pr-moldados, 
ladrilhos e azulejos. As microbrigadas tiveram ento de fornecer mo de obra 
para as fbricas que iriam aliment-las.

Em Cuba, dificilmente se encontra um setor de atividad~ que seja 
fnterainente independente de outro. Assim, as nicro~ brigadas acabaram 
encontrando-se com a Educao. Como o sistema educacional cubano prev 
que o aluno deve dar um perodo do dia a seu curso, propriamente dito, e o 
outro perodo ao trabalho efetivo (dentro da atividade escolar escolhida), as 
microbrigadas passaram a incorporar estudantes do ltimo ano de Engenharia 
e de Arquitetura. Mrio, 24 anos, estudante de Engenharia Hidrulica na 
Universidade de Havana, por exemplo, passa as manhs nas salas de aula, na 
capital. tarde, vai para o Distrito de Alamar, a 15 quilmetros de distncia, 
onde foi construdo um conjunto habitacional para 25 mil pessoas,  beira-
mar. Ali, supervisiona todo o sistema lii-


54
druflco e d pequenos cursos especiais para formao de pedreiros, na sua especialidade.

Ao lado da fbrica de cimento montada para alimentar as obras de Alaniar, h uma fbrica de mveis  
cerca de 65% dos apartamentos construdos pelas microbrigadas so entregues j mobiliados. Metida no 
meio da serragem, num dia de fevereiro, estava Clia, estudante do terceiro ano de Arquitetura. De calas 
compridas, cabelos presos por um leno, ela orientava um grupo de operrios na linha de montagem de 
estantes e camas de casal. A seu lado, sem camisa, explicando a um trabalhador como cortar um caibro, um 
jovem louro, com um sotaque pouco cubano: era Rui Snchez, arquiteto chileno, asilado poltico.

Armando Surez, um homem avermelhado, de mais de cem quilos,  o mestre de obras de uma das 
microbrigadas de Alamar. H dois anos era tabacalero  enrolador de fumo numa fbrica de charutos. 
Embora j tivesse casa prpria, entrou como voluntrio para as microbrigadas:

 No sei quem  que vai morar a dentro, mas uma coisa  certa:  gente que merece. Cada centro de 
trabalho tem uma comisso, composta de trabalhadores ~ue_decide qua~s~ serao os primeiros a receber 
casa prpria. A deciso sempre leva em conta o nmero de filhos, o salrio e, to~e~pto de coletividade do 
beneficirio_ a vontad de trabalhar e de ser revolucionrio Q~m no fez nada pela revoluo no pode~ 
ser seu primeiro beneficirio

O primeiro apartamento do prdio construdo por Armando dever ser oferecido a uma famlia de 
asilados polticos chilenos, cujo chefe, um mineiro de cobre, foi morto em Santiago a 11 de setembro de 
1973, dia da queda de Salvador Aliende.

At agora foram construdos cerca de 70 mil apartamenLos pelo sistema de microbrigadas em que 
trabalham atualmente

quase 40 mil pessoas, em todo o pas. E, se as microbrigadas no resolveram integralmente 6 problema 
habitacional cubano, certamente tero contribudo para isso: Cuba  o nico pas da Amrica Latina que no 
tem favelas.








5,5
A NOVA
ESCOLA























Cem mil estudantes e cem mil 
operrios de nve] mdio foram mobilizados, 
cm 1961, para iniciar uma campanha de alfaj 
betizao em massa do povo cubano  naquele 
ano o ndice de
analfabetismo girava em tomo de 35%. Aos 
poucos, outras categorias  como donas de 
casa e aposentados  incorporaram-se 
voluntariamente s brigadas 
alfabetizadoras, exercendo as mais diversas 
tarefas.
Alguns deles hoje so considerados 
heris nacionais e tm seus nomes em 
escolas, bandeiras, medalhas de mrito. 
Dezenas de alfabetizadores foram 
assassinados por contra-revolucionrios, 
acusados de estarem submetendo o povo  
lavagem cerebral vermelha, diz um 
funcionrio do Ministrio da Eduao. No 
fim do primeiro ano de trabalho, o pas, 
que era chamado pelos revolucionrios de 
Territrio Livre do Imperialismo, passou 
a ser conhecido pelo povo como Territrio 
Livre do Analfabetismo. Os ndices 
tinham sido reduzidos de 35~? para 5% de 
analfabetos no pas  hoje reduzido a cerca 
de 2%.
Foram criadas mais de dez mil salas 
de aulas apenas no primeiro ano aps a 
derrubada de Fulgencio Batista. Uma das 
primeiras instrues baixadas por Fidel 
Castro como primeiro-ministro foi a 
transformao de 70 quartis em escolas de 
alfabetizao. depois readaptadas para o 
ensino mdio.


5
9






















Cem mil estudantes e cem mil 
operrios de nvel mdio foram mobilizados, 
em 1961, para iniciar uma campanha de alfaj 
betizao em massa do povo cubano  naquele 
ano o ndice de
analfabetismo girava em tomo de 35%. Aos 
poucos, outras categorias  como donas de 
casa e aposentados  incorporaram-se 
voluntariamente s brigadas 
alfabetizadoras, exercendo as mais diversas 
tarefas.
Alguns deles hoje so considerados 
heris nacionais e tm seus nomes em 
escolas, bandeiras, medalhas de mrito. 
Dezenas de alfabetizadores foram 
assassinados por contra-revolucionrios, 
acusados de estarem submetendo o povo  
lavagem cerebral vermelha, diz um 
funcionrio do Ministrio da Edttao. No 
fim do primeiro ano de trabalho, o pais, que 
era chamado pelos revolucionrios de 
Territrio Livre do Imperialismo, passou 
a ser conhecido pelo povo como Territrio 
Livre do Analfabetismo. Os ndices 
tinham sido reduzidos de 35~? para 5% de 
analfabetos no pas  hoje reduzido a cerca 
de 2%.
Foram criadas mais de dez mil salas 
de aulas apenas no primeiro ano aps a 
derrubada de Fulgencio Batista. Uma das 
primeiras instrues baixadas por Fidel 
Castro como primeiro-ministro foi a 
transformao de 70 quartis em escolas de 
alfabetizao. depois readaptadas para o 
ensino mdio.


5
9

A responsabilidade pela educao passou a ser intcir~ mente do Estado. O ensino tornou-se, ento, 
gratuito em todos os nveis  do pr-escolar ao curso superior  e obrigatrio at o 60 grau. A gratuidade 
da educao compreende alimentao (caf da manh, almoo e jantar) e todo o material escolar.
A grande virada nos conceitos tradicionais de educao, entretanto, s veio a ser iniciada em 
1966. Naquele ano, o Ministrio da Educao instituiu em carter experimental, uma escola secundria bsica 
 do 79 ao 109 grau  na zona rura1.~ Com base no princpio que concebe a formao do homem 
vinculada ao trabalho produtivo, criou-se uma escola secundria no interior da provncia de Matanzas, onde os 
alunos, em regime de semi-internato, dedicavam meio perodo s aulas e meio ao trabalho no campo, orientados 
por tcnicos do Instituto Nacional de Reforma Agrria. No final do primeiro ano de experincia, 
descobriu-se que o aproveitamento dos alunos daquela escola era superior ao de seus companheiros das secun-
drias bsicas urbanas.

A escola experimental conjugava dois fatores considerados fundamentais no pas: o desenvolvimento do 
homem voltado para o campo, e a instituio de uma educao de modelo socialista. O trabalho agrcola 
dos estudantes, inicialmente criado apenas para estimular o contato do jovem com a terra, com a 
produo, passou a dar resultados concretos. A multiplicao das escolas no campo, em todo o pas, fz 
sur~gir um item novo, nas estatsticas da agricultura: a produo das hortalias e dos citricos nascidos das 
mos dos estudantes. om surpresa, as autoridades descobriram, ao fim de poucos anos de 
funcionamento das escolas no campo, que 500 hectares de ctricos plantados e colhidos pelos alunos e 
vendidos no mercado internacional eram suficientes para pagar todos os gasto& da escola em um ano (cada 
aluno de escola secundria bsica no campo custa ao Estado, anualmente, 6 mil cruzeiros).
Hoje existem 150 escolas omo&s~ espalhadasyor todo o pas, cada uma com 500 estudantes. 
Ftf~Tl~micro-nibus recolhem os jovens em suas casas na segunda-feira de manh e os trazem de volta no 
sbado  tarde. Durante a semana, o ritmo de trabalho e estudo  intenso: os alunos acordam s seis da 
manh e durante o caf ouvem as principais notcias nacionais e internacionais, publicadas pelo Granma, lidas 
por um colega e espalhadas por todo o refeitrio atravs de alto-falan60
tes. As 7h3o, os 250 rapazes e moas do 79 e 99 graus seguem para o campo, onde ja os esperam tratores, 
arados, colhedeiras e pulverizadores de herbicdas Ao mesm
salas de aulas 05 250 alunos do 89 e 109 o tempo, entram nas
graus. Ao meio dia,
todos se encontr.31n no refeitrio e  uma da tarde os trabalhos se invertem: as turmas que assistiram s aulas 
vo para o campo, e vice~versa As cinco e meia, novo encontro de todos, para prtica obrigato~1~ de 
esportes, durante uma hora e escolha de cada um: basebail natao futebol, basquete vjei, atletismo sete s 
oito, jantar para todos e depois meia hora de lvldade livre, uma hora e meia de estudo individual e, s dez, 
cama Essa rotina se repete diariamente para 75 mil moas e rapazes de 12 a 16 anos
territrio cubano        em 150 pontos diferentes do
Quando Fidel Castro tomou a capital, em janeiro de 1959 Augusto, hoje diretor da Secundria Bsica 
Smn Bolivar em ~~~~Antonio de los Bao5 no interior da provncia de Havana,
apenas 4 anos. Como todo diretor de escola em Cuba, de e tambm professor de alguma matria para 
evitar distan.. ciamento dos alunos. Militante ex~dirigente da Unio dos Jovens Comunistas sentese  vont~~ 
como professor de Moral Comunista~ Uma rpida olhada no progra~~ do curso deixa en trever um tpico em 
que se estabelecem
raes entre as        compa
Sociedades capitalista e socialista, com destaque para as degrada~5 morais 
provocadas pelo capitalismo no ser humano.

Perguito a Augusto se ele conhece algum pas capitalista A resposta vem rpida:
 No, no conheo. Mas no  preciso ter vivido nas vsceras do monstro para conhecqo bem.

At .1980,
todas as escolas como a dirigida
as construdas no campo  tero sido pagas por Augusto
duo de ctrico5 dos alunos.        co
Entusiasmado m com a proeducao Fidel Castro prometeu que, dentro de 
esse tipo de

dez anos, todas as escolas Secundrias cubanas terao sido trans
feridas para a zona rural                - no mximo
A receita para a educao secundria (conju
e estudo) j est sendo Implantada                 I-Iavan h
tambm em gar trabalho
algu~5 anos, naquela que e considerada nternaconam~t Como o
m modelo de escola segundo grau: a Escola Voca.. cional Lnin, inaugur~~~ em fevereiro de 1974 por 
Leond
        61
Brejnev. secretrio-geral do Partido Comunista da URSS. Instalada num conjunto de 98 mil metros quadrados 
de rea construda em 30 blocos de edifcios, a Lnio  uma verdadeira cidade estudantil, onde vivem, estudam e 
trabalham 4.600 moas e rapazes.

A escola foi criada com o objetivo de descavolver vocaes e selecionar os jovens que se interessem 
por carreiras tcnicas e cientficas. Da mesma forma que nas escolas no campo, o aluno  obrigado a dar 
15 horas semanais de trabalho produtivo, apenas com uma diferena: na Lnio esta atividade  dirigida 
exelusivamente para os setores cientficos e tcnicos, no havendo nenhum contato dos estudantes com a 
agricultura. A escola recebeu quase todos os seus 72 laboratrios de fsica, qumica e biologia do governo da 
URSS, que mandou a Cuba um grupo de cientistas para a formao dos professores que dirigem os cursos da 
escola. O aproveitamento dos alunos da Lnin  medido pela produo de seu trabalho. De suas oficinas 
saem anualmente 30 computadores eletrnicos de terceira gerao, inteiramente construdos por alunos, com 
componentes soviticos, franceses e japoneses (a Lnin fabricou os primeiros computadores cubanos); a cada 
dia so fabricados 200 rdios de trs faixas de onda e cerca de cem mil pilhas secas. S as exportaes de bolas 
e luvas de basebail fabricadas na Lnin deram a Cuba, no ano passado, divisas no valor de 7,5 milhes de 
cruzeiros.

O        cubano vanoloria-se dos progressos ating~.os no cam o da educao pela revoluo3 e no se 
cans~de exibir estatsticas de organsmos internacionaj~ como a Unesco, sobre a situao do pas antes de 
1959, para que o visitante possa ter uma noo exata do que foi feito: 35% da populao era composta de 
analfabetos; mais da metade da populao escolar, em nvel primrio, no tinha escolas; aos cursos 
mdios s tinha acesso uma pequena parcela do povo, e ingressar numa universidade era um privilgio de 
muito poucos; a poltica educaconal no inclua ensino tcnico e profissional.
Assim como foi feito com a sade pblica, o governo resolveu investir maciamente em Educao (em 
1974, o oramento da pasta foi de 6,3 bilhes de cruzeiros  superior, segundo informaes oficiais, aos gastos 
com Defesa). A escolarizao alcanou a cifra de 96,1% para a populao entre 6 e 12 anos, e 40,4% dos 
professores primrios em atividade no pas esto incorporados ao setor rural, onde vivem 39.6%


62
dos enhanos Atualmente h cerca de 300 mil bolsistas no pas (unia bolsa de estudos eni Cuba compreende o 
pagamento de todas as despesas do estudante que passa a viver inteir~. mente s cXpe~~sas do Estado), das 
quais 20 mil em cursos superiores As escojas para formao de professores de cursos tcnicos e profissionais, 
que eram 40 em 1959, hoje so 1.400 e o nmero de alunos que as freqiienta~ aumentou, no mesmo perodo, de 
93 para 5 mil.
A educao geral vai do pr-escolar  universidade, assim dividida: pr-escolar (dois anos); primrio (seis 
anos); secundria basca (quatro anos); pre~unversitria (trs anos); universitria (que varia de quatro a 11 
anos, dependedo do curso escolhido)
Para evitar que o trabalho pudesse ser usado como pretexto para que os jovens se dedicassem menos  
educao o governo baixou uma lei proibindo o trabalho remunerado aos menores de 17 anos.
Durante o curso universitrio, repete-se o critrio adotado no ensino mdio, e o estudante permanece no 
regime de trabalho-estudo, desde o primeiro ano. Numa espcie de estgio, o universitrio  obrigado a dar meio 
perodo num centro de trabalho ligado  sua carreira: os futuros mdicos em hospitais, Osengenheiros em 
indstrias, os agrnomos no campo. Ternnn mio o curso, o estudante  destacado pelo Ministrio do Trabalho 
(que, em contato com o Ministrio da Educao, sabe para onde se dirigir profissionamente toda a populao 
~tg4antil, depois de formada) para trabalhar onde o Estado estiver mais necessitado. Estudantes das 
universidades de Havana e Oriente disseram que o desejo do recm4ormado de trabalhar neste ou naquele lugar, 
gera1ment~  respeitado, O que no impede, em casos mais raros, que algum queira permanecer em Havana, 
por exemplo, e tenha que se mudar para outra provncia, onde sua especializao seja considerada mais 
necessria.

Alm das universidades instaladas nas capitais e cidades mais importantes de cada prdvncia o governo 
mantm Universidades Operrias, encarregadas de formar tcnicos agrcolas e engenheiros agrnomos que 
voltaram a estudar depois de adultos. Durante o dia os alunos trabalham na agricultura e na pecuria e,  noite, 
assistem a aulas. Cada escola pertencente a Universidade Operria fica no centro de uma grande rea agrcola 
oade geralmente trabalham seus alunos e professores


63


~lJIIYERS!OAOf 1ff ~fi~I~S 00 SUI

















A SADE
















A SADE






















Na principal farmcia da Avenida 23, 
em Havana, decorada com posters em 
homenagem a Amilcar Cabral e Che Gue-
vara, peo  balconista gorducha um 
sabonete neutro e um envelope de aspirina. 
Ela pede a receita mdica. Sem entender 
bem, e sem vontade de andnr num 
domingo  noite, pergunto:

        Quero apenas um sabonete e 
aspirina. E sou estrangeiro, no sei 
como conseguir uma receita mdica.

        Compauiero, este  um pas 
muito pobre, que no pode se dar ao luxo 
de estar vendendo remdios a quem 
acha que precisa deles. Quem sabe se 
voc deve tomar aspirina  o mdico. E 
ser estrangeiro no muda nada: ali na 
esquina h um posto mdico aberto, l 
voc obter a receita.

Consegui em poucos minutos a 
receita (aps dizer ao mdico de 
planto, s onze horas da noite, o que 
eu sentia), os comprimidos e o sabonete. 
Estes so embalados em papel pardo, sem 
nenhum design especial, apenas com o 
nome e a composio qumica do 
produto impressos de um dos lados. 
Com a mesma facilidade com que 
obtive o remdio eu conseguina  disse-
me o mdico  submeter-me a um eletrocar-
diograma ou internar-me num hospital para 
receber at um rim transplantado. Em 
Havana ou em qualquer outro ponto

6
7






















Na principal farmcia da Avenida 23, 
em Havana, decorada com posters em 
homenagem a Amilcar Cabral e Che Gue-
vara, peo  balconista gorducha um 
sabonete neutro e um envelope de aspirina. 
Ela pede a receita mdica. Sem entender 
bem, e sem vontade de andnr num 
domingo  noite, pergunto:

        Quero apenas um sabonete e 
aspirina. E sou estrangeiro, no sei 
como conseguir uma receita mdica.

        Compauiero, este  um pas 
muito pobre, que no pode se dar ao luxo 
de estar vendendo remdios a quem 
acha que precisa deles. Quem sabe se 
voc deve tomar aspirina  o mdico. E 
ser estrangeiro no muda nada: ali na 
esquina h um posto mdico aberto, l 
voc obter a receita.

Consegui em poucos minutos a 
receita (aps dizer ao mdico de 
planto, s onze horas da noite, o que 
eu sentia), os comprimidos e o sabonete. 
Estes so embalados em papel pardo, sem 
nenhum design especial, apenas com o 
nome e a composio qumica do 
produto impressos de um dos lados. 
Com a mesma facilidade com que 
obtive o remdio eu conseguiria  disse-
me o mdico  submeter-me a um eletrocar-
diograma ou internar-me num hospital para 
receber at um rim transplantado. Em 
Havana ou em qualquer outro ponto

6
7

do interior do pas  assegurou  ~o tempo gasto por um pacicifle para ser atendido  o que ele levt de sua casa 
a um posto mdico ou hospital.
Quase 15 anos depois de ter iniciado a reforma dos servios de sade. Cuba investe hoje cerca de 3,6 
bilhes de cruzeiros anuais no setor. Alguns resultados da revoluao na ~ade: a taxa de mortalidade infantil 
foi reduzida a 27.4 por 1.000 nascimentos (a mais baixa da Amrica Latina e inferio at  de algumas regies 
dos Estados Unidos, conforme dados da ONU); nos ltimos sete a~os, houve apenas um caso de poliomielite 
no pas (depois constatou-se que o garoto vitimado no tinha sido vacinado por descuido dos pais); a 
tuberculose infantil, a malria, a difteria e o ttano foram errad~cados, nos partos, a mortalidade materna foi 
reduzida a 50 por 100 mil bebs nascidos vivos.
Quando Batista foi derrubado, havia seis mil mdicos no pas. Entre janeiro de 1959 e fins de 1960, a 
metade asilou-se nos Estados Unidos. O ndice mdico/habitante caiu a nveis jamais vistos em Cuba: um 
mdico para 2 mil pessoas. Para enfrentar uma situao vizinha da calamdade, a primeira medda tomada pelo 
governo foi declarar a sade como atividade de exclusiva responsabilidade do Estado  os servios mdicos, a 
indstria e o comrcio de medicamentos e instrumentos foram estatizados. Simultaneamente, o governo iniciou 
uma campanha nacional de estmulo ao ingresso nas escolas de Medicina, enquanto o Ministrio da Educao 
era incorporado ao esforo de reestruturao dos cursos mdicos.

Com o pas privado inesperadamente da metade de seus mdicos, estabeleceram-se duas metas: 
racionalizar o trabalho dos que ficaram, para reduzir os efeitos da situao, e incrementtmr os servios de 
medicina preventiva. Chegamos a um ponto, lembra um assessor do ministro da Sade, em que todo o 
esforo do pas foi dirigido num sentido: prevenir as molstias para evitar que o povo ficasse doente e viesse a 
precisar de mdicos.

Hoje Cuba tem 7.200 mdicos (um para cada 1.300
cubanos) e at 1980 esse ndice dever ser elevado para 1

mdico para mil habitantes. O conjunto de instalaes do
Ministrio da Sade atualmente  de cerca de 3.200 unidades:
250 hospitais, 330 policlnicas, 400 postos mdicos e 2.200
laboratrios de anlises e de produo de medicamentos. O


68
pas formou, de 1959 a 1973, 45 mil enfermeiras (especialistas em clnica geral, obstetrcia e 
pediatria), tcnicos em odontologia, em raios-x e em farmcia.

Em discurso pronunciado recentemente, Fidel Castro declarou que Cuba tinha excelentes mdicos no 
lugar dos que haviam fugido do pas. Ele se referia ao nvel de exigncia do curso de Medicina cubano: 
para chegar a formar-se, o mdico tem de passar onze anos trabalhando e estudando em nvel universitrio: o 
curso, em si, dura cinco anos; depois, o estudante passa um ano em regime de internato em clnicas e hospitais, 
dois no Servio Mdico Rural e mais trs em residncia hospitalar.

A1~xu~dessas estatsticas e nmeros,. Ci~ha~e~orgu1ha~espe-. cialmente de seus mtodos de tratamento 
para doentes mentais e, acima de tudo, do Hospital Psiquitrico de Havana. Construdo h dois sculos nos 
subrbios da capital, ele funcionava ao mesmo tempo como asilo de velhos, priso e hospital para loucos. 
Segundo seu diretor, o plcido e grisalho ~i~jiatra Sidney Orret, o hospital s servia, no tempo de 
Fulgncio Batista, para enriquecimento dos polticos. As verbas eram desviadas, enquanto os pacientes eram 
alugados pela direo a 50 centavos ao dia, para trabalhar nas chcaras vizinhas. A mdia de bitos era de 
14 pai te& por dia. Em 1947, num s dia morreram aopacientes. de desnutrio e disenteria.

Um ms depois de chegar ao poder. Fidel Castro convocou o comandante Eduardo Ordaz, mdico 
dos guerrilheiros na Sierra Maestra, e deu-lhe uma ordem: Transforme aquilo num hospital. rdaz, 
assessorado pelo psiquiatra Francisco Duarte, comeou a reforma pela parte mais elementar: a limpeza 
total dos 140 hectares ocupados pelo hospital. O asseio e a alimentao, conta Orret fizeram 
Qlndice de~nnrtalidad~ cair de 15 bitos dirios para 5 mensais, numa populao de 4 mil pacientes.

Partindo do princpio bsico, segundo o qual uma parte da conduta do doente mental no est 
perdida e, portanto, algumas capacidades de seu crebro, no processo de cura, podem ser 
aproveitadas, os mdicos optaram pela terapia ocupacional como soluo para o problema da 
recuperao dos pacientes. Todos foram incorporados a alguma atividade. Com o tempo, e depois de 
estudar todos os casos disponveis,


69
os mdicos desenvolveram metodologia prpria, dividida em quatro fases:

        O paciente j definido como crnico  estudado por uma equipe mdica, que decide o tipo de 
atividade a ser desempenhada por ele. O paciente participa da deciso, escolhendo uma das vrias atividades 
consideradas adequadas a seu estado mental.

2  No setor de terapia ocupacional, o paciente comea a desenvolver a atividade escolhida  trabalho ou 
esporte.

3  No prprio hospital, ou fora dele, o paciente passa efetivamente a desempenhar a atividade escolhida  
recebendo salrio mensal por ela, caso tenha optado por um trabalho produtivo.

4  Transferacia do paciente para os centros de reabilitao espalhados pelo pas, onde, de acordo com o 
grau da doena, ele se prepara para a reintegrao  sociedade, ou no caso de crnicos incurveis  passa a 
viver comunitariamente com outros na mesma situao.

O fundamental em tudo isso, diz Orret, _que_o trabalho exercido seja real, para que o paciente 
sinta que tem utjiade social, que pocfe produzir como pessoa~  esse  o coiiieo da cura. Pela terapia 
ocupacional os pacientes do Hospital Psiquitrico de Havana co iram um hospital com 200 leitos na provncia 
de Camaguey, e dezenas de pequenas lanchonetes no Parque Lnin, em Havana. Dentro do hospital, foi criada 
uma verdadeira linha de montagem de objetos feitos atravs do trabalho manual, como caixas de fsforos e de 
charutos, sapatos, brinquedos. Periodicamente saem de Havana grupos de trabalho para a colheita de cana e 
ctricos  o que, no principio, assustava um pouco os outros trabalhadores do campo. No eram todos os 
trabalhadores que aceitavam passar o dia ao lado de um louco armado de foice, comentou Orret.

Alm de recelxrjratamento ~ratu1to~ os do~ntes~mntais ganham salrios pelos trabalhos realizados  o 
mesmo sah~rio pago no pas aos trabalhadores normais. lEsse dinheiro  a que s o paciente tem acesso, sendo 
proibida a retirada por pessoas da famlia   depositado num banco instituido dentro do prprio hospital. 
Num dia do ms de maro de 1975, por exemplo, os depsitos do banco eram de cerca


7 O
de 1.8 milho de cruzeiros. Segundo os diretores do hospital, esse dinheiro acumulado com o prprio trabalho 
tem feito, freqiientemente. com que o paciente volte a ser respeitado quando regressa  sua casa, facilitando o 
processo de reintegrao familiar. Para Sidney Orret, a eficcia dos mtodos adotados pelo hospital pode ser 
medida pelo nmero incontvel de p a-cientes que retornaram s suas casas, curados: ~Quase 90% deles tinham 
no alto de sua ficha mdica um carimbo ~ermelho que assinalava uma verdadeira sentena de morte: irrecupe-
nvel.

Pude ver muitos dos antes considerados irrecuperveis jogando basebali no estdio do Hospital, criando 
frangos numa granja interna, construindo mveis de madeira.  sada, um coral formado pelos internos cantou 
para mim meia dzia de msicas populares cubanas: Siboney, Guananainera e outras. Quando j me 
preparava para ir embora, um jovem levantou-se do coro, tomou o microfone e me emocionou com a msica 
Amada, lmane, de Roberto Carlos, nico artista brasileiro que ele conhecia.


























71
r












JMP]







<1








































>UNIYFHS!DIDf
RENSA


























O! CIIMS DO SUL























Quando perguntei a um influente 
jornalista cubano se l existe liberdade de 
imprensa, ele deu uma gargalhada e 
respondeu: Claro que no. E completou, 
com naturalidade: Liberdade de imprensa 
 apenas um eufemismo burgus. S um 
idiota no  capaz de ver que a imprensa 
est sempre a servio de quem detm o 
poder. E aqui em Cuba quem detm o 
poder  o proletariado. Estamos todos os 
jornalistas cubanos, portanto, a servio do 
proletariado.

A imprensa foi o nico setor da 
vida cubana que no precisou de leis para 
ser estatizado depois que Fidel Castro 
chegou ao poder. Os jornais, o rdio e a 
televiso permaneceram nas mos de seus 
donos por 2 anos, depois de 1959. Durante 
toda a semana, a maior parte da imprensa 
fazia campanhas contra a comunizao do 
pas, contra as expropriaes, os fuzila-
mentos. s sextas-feiras, s oito da noite, 
Fidel solicitava um horrio no canal 
nacional de televiso (ainda no estatizado) 
para debater as crticas com um grupo de 
jornalistas que se

 revezavam  muitos deles inimigos declarados 
da nova ordem.
.        FreqUentemente o debate se prolongava at 
as quatro, cinco

horas da madrugada.

Os jornais, ainda nas mos de seus 
proprietrios, faziam
campanhas contra a reforma agrria e 
outras leis revolucionrias,
mas eram obrigados a publicar, na mesma 
pgina, um artigo


7
5






















Quando perguntei a um influente 
jornalista cubano se l existe liberdade de 
imprensa, ele deu uma gargalhada e 
respondeu: Claro que no. E completou, 
com naturalidade: Liberdade de imprensa 
 apenas um eufemismo burgus. S um 
idiota no  capaz de ver que a imprensa 
est sempre a servio de quem detm o 
poder. E aqui em Cuba quem detm o 
poder  o proletariado. Estamos todos os 
jornalistas cubanos, portanto, a servio do 
proletariado.

A imprensa foi o nico setor da 
vida cubana que no precisou de leis para 
ser estatizado depois que Fidel Castro 
chegou ao poder. Os jornais, o rdio e a 
televiso permaneceram nas mos de seus 
donos por 2 anos, depois de 1959. Durante 
toda a semana, a maior parte da imprensa 
fazia campanhas contra a comunizao do 
pas, contra as expropriaes, os fuzila-
mentos. s sextas-feiras, s oito da noite, 
Fidel solicitava um horrio no canal 
nacional de televiso (ainda no estatizado) 
para debater as crticas com um grupo de 
jornalistas que se

 revezavam  muitos deles inimigos declarados 
da nova ordem.
.        FreqUentemente o debate se prolongava at 
as quatro, cinco
horas da madrugada.

Os jornais, ainda nas mos de seus 
proprietrios, faziam
campanhas contra a reforma agrria e 
outras leis revolucionrias,
mas eram obrigados a publicar, na mesma 
pgina, um artigo


7
5

assinado pelos grficos da empresa, contrrios aos pontos de vista dos patres.

A proclamao do carter socialista da revoluo cubana foi o momento de ruptura. 7 Menos de urna 
semana depois, todos os jornais, estaes de rdio e de televiso tinham sido abandonados por seus 
proprietrios, que no eram tantos  os meios de comunicao em Cuba pertenciam a algumas poucas famlias 
ligadas  indstria aucareira/ Muitos dos donos de jornais chegaram a declarar, antes de partir, que pretendiam 
voltar logo ao pas, imaginando que os Estados tJmiidos quela altura j em choque total com Cuba  fossem 
derrubar Fidel Castro em pouco tempo.

A fuga dos proprietrios foi imediatamente seguida pela tomada dos meios de comunicao por 
jornalistas, grficos e radialistas, e pela estatizao das empresas. Os jornais considerados fascistas, como o 
Dirio da Marinha, foram fechados. Os outros apenas mudaram a linha editorial e continuaram com o mesmo 
nome, as mesmas caractersticas grficas.

Hoje existem em Cuba oito jornais dirios, sete estaes de televiso, cinqenta estaes de rdio, 
duas revistas semanais e um tablide semanal humorstico. O dirio Granma (nome dado em homenagem ao 
iate que trouxe do Mxico os guerrilheiros, liderados por Fidel, que subiram a Sierra Maestra), o mais 
importante do pas,  o rgo oficial do Comit Centrai do Partido Comunista. Vende 500 mil exemplares 
dirios, a cinco centavos de peso cubano (Cr$ 0,45)  e, para chegar s regies montanhosas do pas, tem de ser 
atirado de avies, em pacotes especiais. O Granma circula com seis pginas dirias, carregadas de noticirio  
no h espaos em branco, nem ttulos espaados. Na sua primeira pgina lem-se pequenas notas completas 
(sem chamadas para o interior do jornal) sobre a Confederao dos Trabalhadores de Cuba, a chegada de 
misses estrangeiras, atividades do Comite Central ou do Bureau Poltico do PC e discursos feitos por 
autoridades nacionais: Fidel, o presidente Dortics, Ral Castro, o chanceler Ral Roa.

A segunda pgina publica longos artigos como Histria das Relaes URSS-Cuba, ou A quem servem 
os crticos do princpio leninista do centralismo democrtico. Nas datas nacionais (tomada do poder por Fidel, 
Independncia, etc.), a pgina 2 do Granma reconta e analisa os fatos histricos. As


76
paginas 3 e 4 so de noticirio nacional, com pequenas notcias de todo o pas, assinadas p~r 
correspondentes voluntrios operrios e estudantes que se oferecem para trabalhar gratuitamente em suas 
cidades para o jornal. A maior parte das notcias refere-se  campanha nacional de emulao para o trabalho: 
so entrevistas com cortadores de cana que quebraram recordes nacionais de colheita, alunos ~que 
foram promovidos na escola com mdia 100 etc.
As duas ltimas pginas, a 5 e a 6, so dedicadas ao noticirio internacional. Ali a diagramao  
quase padronizada:
Amrica Latina est sempre no alto da pgina, Europa um K pouco mais abaixo. Metade da ltima pgina  
ocupada por
uma seo fixa, o Fio Direto, com dezenas de pequenas notcias vindas de todo o mundo e enviadas 
por agncias de pases socialistas, pela Prensa Latina e pela France Presse  a nica

~~~gncia no comunista que os cubanos utilizam.
Desde o reincio do bombardeio do Camboja pelos americanos, em 1970, o nome do ex-presidente 
Nixon  escrito por toda a imprensa cubana com uma sustica no lugar do x. O habito comeou por acaso: 
o editor do Juveiuud Rebelde, vespertino havanero, deu o nome de Nixon em manchete e usou a 
sustica. Fz sucesso, toda a imprensa passou a compor o nome assim, at hoje.
O j~y~ji~i,LRebeLde  rgo da Unio dos Jovens Corn~.~ta~--  mais noticioso e menos rgido 
que o
em termos grfic9s. Vend 200 mil exemplares dilrios e circula apenas na Capital. Nele tambm, o conceito 
de notcia  um pouco diferente do adotado por jornais de pases capitalistas. Por exemplo: para um jornal 
que dedica diariamente pelo menos meia pgina  represso chilena aos movimentos esquerdistas,  de se 
esperar destaque para a notcia da morte de um dirigente militar do Chile. Mas no dia da morte do general 
Oscar Bonilla, ministro do Interior chileno, no entanto, esta notcia ocupou cinco linhas num p de pgina. 
Naquela edao, o fato que recebeu maior destaque foi o desafio feito por estudantes de Las Vilas aos da 
Universidade de Camaguey
        propunham-se a disputar a medalha Primeiro Congresso do Partido numa competio de notas 
escolares. A universidade que tivesse o melhor ndice de aproveitamento, no fim do ano, ficaria com 
a medalha.

O        noticirio internacional do Juventud, entretanto,  normalmente extenso. Camboja, Vietn, 
Chile e demais pases


77
?        do Terceiro Mundo tm sempre destaque garantido. As notcias sobre a recesso econmica e a crise do 
desemprego nos Estados Unidos so publicadas com fotos e charges  sinnimo de importncia especial na 
imprensa cubana.

A revista Bohe,nia circula em Cuba h mais de 60 anos. Seu antigo proprietrio, Andrs Quevedo, 
exilou-se na Venezuela em 1961, onde, depois de lanar uma edio latino-americana com o mesmo nome 
da publicao que deixara em Cuba, acabou suicidando-se. A ampla sala que ocupava no prdio da revista 
pertence hoje a Angel Guerra, o jovem que h dois anos  o diretor de Bohemia.

Embora sendo urna revista semanal de atualidades, 70% 4~material editorial de Bohemia so definidos 
 e s vezes escritos  com trs meses de antecedncia. _ So artigos de pesquisa ou textos doutrinrios  
como os da pgina 2 do Granma. A contracapa, onde, no tempo de Batista, um anncio comercial cujo 
preo equivalia a 30 mil cruzeiros, agora  reservada para a seo chamada A Cuba de ontem; alm desse 
ttulo, apresenta apenas, e a cada nmero , uma foto de arquivo do tempo de Batista: urna prostituta na rua, 
meninos pedindo esmola, filas de Cadillacs  porta dos cassinos  cenas eliminadas da vida do cubano 
atualmente.

Antes de serem impressas, as matrias de cada edio da revista so julgadas por toda a redao. O 
autor geralmente l seu trabalho em voz alta para seus companheiros, e todos tm direito de propor 
mudanas, cortes, substituies. Mas qualquer alterao no texto s  feita se a proposta tem o acordo da 
maioria. Impressa em papel sovitico, com tintas fabricadas em Cuba (Boheinia  colorida), a revista tira 
cerca de 250 mil exemplares (o equivalente, por exemplo,  atual tiragem da revista Manchete). Chega s 
bancas na sexta-feira de manh e no sbado  tarde est esgotada. Alm dela, circulam no pas dois~ outros 
semanrios: a revista Verde Olho, editada pelas Foras Armadas Revolucionrias, e vendida em bancas, e 
Palante, o tablide humorstico  alm dos jornais dirios editados em cada capital de provncia.

Charuto na boca, precocemente calvo, Angel Guerra repete: Liberdade de imprensa para atacar 
um governo voltado para o proletariado? Isso ns no temos. E nos orgulhamos muito de no ter.


78
A MULHER




















Os esforos pessoais de Fidel Castro e 
do regime para libertar a mulher cubana 
tm encontrado um obstculo quase 
intransponvel: o machismo do cubano. 
Nos ltimos anos o primeiro-ministro 
aproveita quase toda oportunidade para 
dizer que a mulher cubana precisa 
participar mais ativamente da vida do pas.
No encerramento do Congresso da 
Feder ~Q4~ Mulheres Cubanas, no fim de 
1974, Fidel iniciou uma campanha contra 
o machismo e contra a discriminao 
sexual: H administradores que, sempre 
que podem dar emprego a um homem, no 
o do a uma mulher, disse ele, por uma 
srie de fatores: porque comeam a pensar 
nos problemas da maternidade, nas 
dificuldades que pode ter uma mulher para 
a freqilncia ao trabalho. i~ necessrio que 
os regulamentos e a poltica do Partido e 
das organizaes de massa velem pela 
preservao e por assegurar as 
possibilidades de que a mulher se incorpore 
ao trabalho. Primeiro por uma questo 
elementar de justia; segundo porque  uma 
necessidade imperiosa da revoluo,  uma 
exigncia de nosso desenvolvimento eco-
nmico, j que num momento determinado 
a fora de trabalho masculina no bastar. 
Por isso, h que manter uma luta con-
seqilente contra essa mentalidade de 
discriminar a mulher nas possibilidades 
de emprego.


8
1



















Os esforos pessoais de Fidel 
Castro e do regime para libertar a 
mulher cubana tm encontrado um 
obstculo quase intransponvel: o 
machismo do cubano. Nos ltimos anos o 
primeiro-ministro aproveita quase toda 
oportunidade para dizer que a mulher 
cubana precisa participar mais ativamente 
da vida do pas.

No encerramento do Congresso da 
Feder ~Q4~ Mulheres Cubanas, no fim de 
1974, Fidel iniciou uma campanha 
contra o machismo e contra a 
discriminao sexual: H administradores 
que, sempre que podem dar emprego a um 
homem, no o do a uma mulher, disse 
ele, por uma srie de fatores: porque 
comeam a pensar nos problemas da mater-
nidade, nas dificuldades que pode ter uma 
mulher para a freqilncia ao trabalho. i~ 
necessrio que os regulamentos e a poltica 
do Partido e das organizaes de massa 
velem pela preservao e por assegurar as 
possibilidades de que a mulher se incorpore 
ao trabalho. Primeiro por uma questo 
elementar de justia; segundo porque  uma 
necessidade imperiosa da revoluo,  uma 
exigncia de nosso desenvolvimento eco-
nmico, j que num momento determinado 
a fora de trabalho masculina no 
bastar. Por isso, h que manter uma luta 
conseqilente contra essa mentalidade de 
discriminar a mulher nas possibilidades 
de emprego.

8
1



1

Em 1959 havia em Cuba cerca de 190 mil mulheres trabalhando, 70% delas como domsticas  estas 
foram absorvidas como mo de obra semi-especializada e especializada, aps cursos de treinamento, nas 
diversas atividades do pas, depois que a profisso de domstica foi extinta. Atualmente, num total de 2,5 
milhes de trabalhadores, h 600 mil mulheres. Mas, como o prprio Fidel Castro ressaltou no Congresso, 
apenas 15% das pessoas que ocupam cargos de direo em Cuba so mulheres  e o nmero de mulheres no 
Partido Comunista Cubano no chega a atingir 13% do total de filiados. Nas eleies de 1974 em Matanzas  
onde as mulheres constituem 50% da populao  apenas 7,6% dos candidatos eram mulheres, e s 3% se 
elegeram.

Nos ltimos anos, o governo tem se esforado para liberar a mulher como mo de obra disponvel para o 
pais. Uma das medidas nesse sentido foi a criao dos Crculos Infantiles creches gratuitas onde a criana, a 
partir dos 45 dias de vida e at os seis anos, passa todo o dia com pedagogas e sob constante vigilncia mdica. 
H creches em que, se a me preferir, a criana passa a semana inteira, em regime de semi-internato. Para 
colocar uma criana nos Crculos Infantiles s se faz uma exigncia: que a me trabalhe.

As presses do governo para que os homens deixem de lado os preconceitos e dem trabalho s mulheres 
tm surtido efeito muito lento: a elas, em geral, so oferecidos os postos de menor importncia, como 
ascensoristas, garonetes e operadoras de bombas de gasolina.

Apesar dessa discriminao, a mulher cubana, entretanto, teve participao ativa na prpria luta 
revolucionria. Na tomada do quartel de Moncada, estavam entre os guerrilheiros presos Haide Santamaria e 
Clia Sanchez (Haide  hoje presidente da Casa de Las Amricas, organismo de cooperao cultural 
internacional, e Clia Sanchez  secretria de Fidel Castro). Depois, j na Sierra Maestra, pelotoes de mulheres 
lutaram, apesar do preconceito dos combatentes, ao lado de Vilma Espn, atual mulher de Ral Castro e 
presidente da Federao das Mulheres Cubanas.

Durante a luta guerrilheira, decidiu-se criar o peloto Mariana Grajales, composto apenas de mulheres. 
A idia de armar uma unidade sem homens criou problemas entre os combatentes: ningum acreditava que as 
mulheres fossem capa-


82
zes de lutar. O cert&. contou depois Fidel Castro.  que se organizou a unidade e as companheiras 
combateram excelente-mente, com tanto valor como o teria feito o mais valoroso de nossos soldados.

Mas o machismo cubano resiste at aos apelos de Fidel Castro. Ao terminar seu discurso no Congresso 
das Mulheres, o primeiro-ministro lembrou que os homens no podiam confundir igualdade com grosseria: 
Se na sociedade humana h de haver algum privilgio, alguma desigualdade, deve ser em
~N        favor da mulWer, fisicamente mais dbil, que tem de ser me, que acima de seu trabalho leva o peso da 
maternidade. E se ela suporta os sacrifcios fsicos e biolgicos que essas funes compreendem,  justo que 
tenha na sociedade todo o respeito e todas as consideraes que merece. E eu digo isso clara e francamente, 
porque h alguns homens que entendem que no tm nenhuma obrigao de dar o lugar a uma mulher 
grvida, a uma mulher de idade ou a qualquer mulher que v num nibus.

Poucos dias depois, a revista Bohemia resolveu fazer um teste com os cubanos. Um reprter saiu  rua 
e, nas filas de nibus, perguntou a alguns passa~eiros se tinham ouvido o discurso de Fidel Castro sobre as 
mulheres. Depois perguntou como eles se comportavam em relao s mulheres nos nibus. Todos 
responderam que eram cavalheiros, davam sempre o lugar s mulheres. Disfaradamente, um fotgrafo de 
Bohen2ia entrou no nibus e acompanhou os entrevistados at o ponto final. Apenas dois, em cada dez 
cavalheiros, ofereceram seus lugares s mulheres.
Alm de dirigir os Crculos Injatiles, a Federao das Mulheres Cubanas tem importante participao 
como organi- -zao de massa. A primeira grande prova da capacidade de mobilizao popular da FMC 
aconteceu no fim de 1974. Com o preo do acar subindo verti~inosamente no mercado internacional, a 
Federao props que cada cubano abrisse mo de uma libra de acar (pouco menos de 500 gramas) da 
quota a que tinha direito, pelo racionamento, mensalmente, para que o pas pudesse exportar mais. O 
governo recusou a proposta, mas a FMC resolveu coloc-la em discusso a nvel popular:
foram consultados os filiados dos Comits de Defesa da Revoluo, da Confederao de Trabalhadores de 
Cuba, da Unio de Jovens Comunistas  e o pais inteiro aprovou a campanha


83

>U~I~[BSIIJ~O[ fiE C~JI~S Ofi SUL
em favor da economia do acar. Ao agradecer as mulheres cubanas pela mobilizao. Fidel explicou o que 
significava uma libra a menos por pessoa na economia do pas: 50 milhes de dlares por ano. O bastante, 
segundo ele, para adquirir uma fbrica de tecidos capaz de produzir 60 milhes de metros quadrados 
anualmente; ou para pagar os componentes importados necessrios  construo de 400 escolas pr-fabricadas, 
cada uma com capacidade para 500 alunos.

Os jornais cubanos tm prestigiado a campanha feminista liderada por Fidel: o Granma freqentemente 
publica artigos como o que acusa Freud de antifeminista por sua tese sobre o complexo de castrao, que seria 
inerente a todas as mulheres. E o Ju1entud Rebelde chegou ao requinte de dar em manchete no dia 19 de 
maro, quando Kissinger tinha falado, na vspera, da reaproximao dos FUA com Cuba, a notcia da promoo 
de Luisa Garcia Perdomo a Herona Nacional do Trabalho  ela acabara de bater um recorde nacional, ao 
cortar 50 mil arrobas de cana at o meio da safra.



























84
ELEIO~ JUSTIA





















Quando a populao da provincia 
de Matanzas soube, no princpio de 
1974, que ali seriam realizadas as 
primeiras eleies em Cuba desde 
1959, a reao contrria chegou a 
surpreender:
as pessoas mais velhas lembravam-se 
da corrupo eleitoral do tempo de 
Batista, e os mais jovens no sabiam 
exatamente do que se tratava  nunca 
tinham visto uma eleio na vida.

A idia nascera quatro anos antes, 
em 1970. O pas
acabava de se livrar das crises 
econmica e poltica mais agudas

-        (provocadas, respectivamente, pelo 
bloqueio e pelos inimigos internos). O 
plano, porm, amadureceu trs anos nas 
mos do governo, at que, em 1974, 
decidiu-se pela provncia onde as 
eleies se realizariam.
Matanzas podia ser tomada como 
exemplo do que a_revolu~o pretende 
realizar em todas as provncias do pas, 
e por
isso foi a escolhida. Foi at agora a provncia 
mais beneficiada
                 pela revoluo, era a mais organizada 
economicamente, e poli-
                 ticamente tinha dado provas de fidelidade 
ao governo quando,
                 na invaso da Baa dos Porcos (que fica 
em territrio matan-
                 zero), o povo desceu em massa para o 
litoral para expulsar os
                 mercenrios contratados pela CIA.
        ?             Foi necessrio fazer uma campanha 
pblica de esclareci-
                 mento para explicar ao povo por que e 
para que as eleies
                ~ se riam realizadas ali. Depois comeou 
o trabalho de diviso
                 eleitoral. Com cerca de 500 mil 
habitantes, Matanzas era a
                 menor provncia do pas em populao, 
mas l se encontrava
        87




















Quando a populao da provincia 
de Matanzas soube, no princpio de 
1974, que ali seriam realizadas as 
primeiras eleies em Cuba desde 
1959, a reao contrria chegou a 
surpreender:
as pessoas mais velhas lembravam-se 
da corrupo eleitoral do tempo de 
Batista, e os mais jovens no sabiam 
exatamente do que se tratava  nunca 
tinham visto uma eleio na vida.
A idia nascera quatro anos antes, 
em 1970. O pas
acabava de se livrar das crises 
econmica e poltica mais agudas
-        (provocadas, respectivamente, pelo 
bloqueio e pelos inimigos internos). O 
plano, porm, amadureceu trs anos nas 
mos do governo, at que, em 1974, 
decidiu-se pela provncia onde as 
eleies se realizariam.
Matanzas podia ser tomada como 
exemplo do que a_revolu~o pretende 
realizar em todas as provncias do pais, 
e por
isso foi a escolhida. Foi at agora a provncia 
mais beneficiada
                 pela revoluo, era a mais organizada 
economicamente, e poli-
                 ticamente tinha dado provas de fidelidade 
ao governo quando,
                 na invaso da Baa dos Porcos (que fica 
em territrio matan-
                 zero), o povo desceu em massa para o 
litoral para expulsar os
                 mercenrios contratados pela CIA.
        ?             Foi necessrio fazer uma campanha 
pblica de esclareci-
                 mento para explicar ao povo por que e 
para que as eleies
                ~ se riam realizadas ali. Depois comeou 
o trabalho de diviso
                 eleitoral. Com cerca de 500 mil 
habitantes, Matanzas era a
                 menor provncia do pas em populao, 
mas l se encontrava
        87

a mais alta densidade demogrfica. Em cada municpio foram
criadas circunscries eleitorais, proporcionais ao nmero de
habitantes: entre 5 e 8 mil habitantes, 9 circunscries; entre
3 e 5 mil, 7 circunscries; menos de 3 mil, 5 circunscries.
Segudo as leis de antes da revoluo, a idade mnima para algum se tornar eleitor era de 21 anos, e os 
padres e militares estavam impedidos de votar e de serem votados. Reduziu-se o limite de idade para 16 anos, a 
proibio a militares e religiosos foi abolida e modificada: nas eleies de Matanzas, s no podiam votar os 
presos e os que tivessem ocupado algum posto no governo de Batista.

A escolha dos candidatos processou-se desta forma: os moradores de ada quadra se reuniram, 
organizados pelos Coiiii~s de Defesa da Revoluo, e escolheram um represen3~~p!e. Cada quadra 
da provncia tinha, assim, em poucos dias, o seu candidato. Em contraste com os mtodos de propaganda 
anteriores  revoluo  alto-falantes nas ruas, cartazes nas paredes e muros  criou-se um novo 
sistema: cada candidato entregava sua foto e um curriculo  grfica de Matanzas e depois recebia 
centenas de impressos, sem siogans. Neles constavam apenas o nome, o currculo e a foto. Todas as 
famlias de cada cidade receberam, das mos do CUR, curriculos de todos os candidatos locais. E alguns pontos 
de muito movimento nas cidades foram escolhidos para afixao desses folhetos: portas de bares, paradas de 
nibus, armazns, padarias, praas.

Na manh de 26 de julho de 1974, o primeiro eleitor a aparecer na capital da provncia para votar 
foi o bispo de Matanzas. Quando a votao terminou, no fim da tarde, 93,6% da populao com mais 
de 16 anos tinham participado das eleies. Mas, como havia um grande nmero de candidatos e a lei 
determinava que os eleitos de cada circunscrio deveriam ter 50% dos votos mais 1, foi necessrio 
organizar um segundo turno, uma semana depois, de que participaram apenas os dois candidatos mais 
votados do primeiro turno, em cada circunscrio.
Os resultados apresentaram nmeros interessantes. Por exemplo: 39% dos 7.079 delegados 
eleitos (um para cada circunscrio), no so sequer inscritos no Partido Comunista; 4% so militares; 
3% so mulheres; 15% so militantes da Unio de Jovens Comunistas e 46% so filiados ao Partido


88
Comunista Cubano. Os delegados eleitos em toda a provncia se reuniram posteriormente para 
escolher, entre si, os 76 delegados da Assemblia Provincial, que, por sua vez, escolheram sete membros 
para compor o Comit Executivo, um dos quais, o engenheiro Jos Araflaburo Garcia, de 35 anos, foi eleito 
o presidente do Poder Popular de Matanzas. O vice-presidente  o operrio Jos Luiz Rodriguez, a 
secretria  uma professora secundria, Mirta Hernandez, e os quatro vogais so trabalhadores de industrias 
locais.

O        Poder Popular, que desfruta de grande autonomia em relao ao poder central,  
praticamente calcado neste. Na provncia foram criados setores que funcionam como ministrios locais, 
a exemplo do que ocorre a nvel nacional: Educa, Sade, Trabalho, Transportes etc. Somente no 
foram criados ministrios provinciais para os setores que dependem diretamente do poder central, como 
Defesa, Economia, Relaes Exteriores, Comrcio Exterior.
Os resultados obtidos com as eleies ainda so pouco palpveis. Mas muitas pessoas ouvidas 
em Matanzas falam que a desburocratizao do poder  sensvel, com a criao do poder 
provincial. Os problemas locais so resolvidos, quase sempre, sem necessidade de consultas a 
Havana. Algumas decises consideradas importantes foram tomadas pelo Poder
~        Popular de Matanzas: criou-se um sistema de pagamento de horas extras para quem trabalhava 
voluntariamente em obras pblicas  o que praticamente elimina o trabalho voluntrio
(        gratuito, que ainda sobrevive em outras provncias; a administrao de todas as obras 
pblicas passou  responsabilidade do delegado local de cada cidade, que tem grande autonomia 
em relao a Havana. At a qualidade do po que ns comemos melhorou, comentou uma 
mulher numa fila de nibus da capital da provncia.

Os delegados esto obrigados, por lei, a comparecer a cada dois meses a reunies pblicas 
promovidas pelo Comit de Defesa da Revoluo para prestar contas de seu trabalho e isso se 
repete at o fim do mandato de dois anos estabelecido pela lei eleitoral. O mandato no d 
qualquer imunidade ao eleito e s os eleitores tm o poder de cassao, desde que por meio de 
votao e por maioria absoluta. Da posse at maro de 1975, foram cassados sete delegados, 
considerados inoperantes, e eleitos outros para substitui-los. Ainda este ano a


89
experincia de Matanzas ser estendida a todo o pas e, em 1977, Cuba dever eleger uma Assemblia Nacional.
Depois da experincia inatanzera, Cuba viveu, no incio de 1976. seu primeiro plebiscito nacional, 
desde 1959. A nova constituio foi votada por toda a populao de mais de 16 anos, e 97,7% se pronunciaram 
a favor da promulgaao da Carta. O altssimo ndice de aprovao no surpreende: na verdade ali se estava 
apenas ratificando um documento que j havia sido discutido, emendado, cortado e votado em todos os centros 
de trabalhos e organizaes de massa de todo o pas.

Assim como a Constituio, todos os cdigos cubanos so submetidos a votao popular antes de 
entrarem em vigor. Para um estrangeiro acostumado ao que os cubanos chamam de justia burguesa, o Cdigo 
de Defesa Social (equivalente ao nosso Cdigo Penal) parece ser o mais rgido deles. No ordenamento jurdico 
cubano, as penas para alguns tipos de crimes  assaltos e furtos, por exemplo  so rigorosssimas. Num pas 
onde todos trabalham, disse um juiz em Havana, onde o trabalho  obrigatrio por lei, onde o desemprego 
pode dar penas de at dois anos de priso, a Justia nao pode tolerar o roubo. No importa o qu ou quanto foi 
roubado  no se pode permitir que algum tenha algo que no seja produto do seu trabalho.

Noticias curtas, como estas, saem freqentemente nos cantos de pginas do Granina:

Maria Elena Noda Fernandez, administradora da Loja Apoio, de ferramentas industriais, deu um 
desfalque de 200 mil cruzeiros no caixa da empresa. O dinheiro, proveniente de vendas diversas, deveria ter 
ido depositado no Banco Nacional de Cuba, mas foi desviado por Maria Elena, de 37 anos. Descoberta, ela foi 
presa, processada e condenada a 10 anos de priso, com a obrigao de repor o dinheiro com o produto de seu 
trabalho na cadeia.

(...) Israel Mendez e Roberto Borrego furtaram dois mil cruzeiros em uma loja de roupas: 6 anos de priso 
para cada um; Alberto Garcia y Garcia da cidade de Matanzas, furtou um radinho de pilha de um homem que 
cochilava num banco de jardim: 6 anos de prisao

Este tambm  um comportamento recente na justia cubana. At que os revolucionrios chegassem 
ao poder, os


90
cdigos fundamentais do pas diferiam pouco dos do tempo da colnia. No perodo de trs anos (1906-
1909) em que Cuba esteve sob a interveno norte-americana, o status-quo foi mantido. S em 1938  
que o Cdigo Penal, que tinha sido originariamente redigido em Madri, capital da Metrpole, foi 
substitudo pelo Cdigo de Defesa Social.

Tomado o poder, o novo regime no teve tempo de redigir novos cdigos. Ditaram-se leis como 
a da Reforma Agrria, a da nacionalizao dos meios de produo e recolocou-se em vigor, com 
profundas modificaes, a Constituio liberal de 1940, que tinha sido abolida por Fulgncio Batista. 
Em 1969, Fidel Castro e seus companheiros concluram que era necessrio criar outra legislao 
bsica, compatvel com o novo regime.
No dia 8 de maro de 1975, por exemplo, Dia Internacional da Mulher, entrou em vigor o Cdigo 
da Famlia, que segundo a opinio generalizada das mulheres ouvidas, em Havana e no interior  
prev mudanas extremamente favorveis  condio feminina. Uma entrevistada chegou a 
declarar, num programa de televiso, que o Cdigo  a primeira manifestao legal do carter 
tambm feminista da revoluo. No que se refere ao casamento, o Cdigo d uma interpretao 
socialista, terminando com a concepo burguesa que considera o matrimnio uma sociedade de 
ganncias e com o predomnio dos aspectos materiais da instituio. Com o Cdigo, o nmero de 
divrcios em Cuba dever cair sensivelmente: pretende-se evitar o carter abusivo com que era 
usada a incompatibilidade de gnios  razo sufiiente para que se obtivesse o divrcio. Agora 
caber ao juiz apreciar a existncia real ou no da incompatibilidade, e no apenas tomar como certa a 
alegao.

Outro aspecto tratado e que, segundo seus autores, fortalece a instituio da famlia em sua 
concepo socialista,  a eliminao total e definitiva das diferenas entre filhos legtimos e 
ilegtimos que o velho Cdigo estabelecia. Da mesma forma, a lei agora facilitar amplamente o 
reconhecimento de filhos nascidos fora do casamento, estabelecendo-se os casos em que se 
presumir a paternidade; e o exerccio do ptrio poder passou a corresponder a ambos os 
cnjuges, conjuntamente, e um s poder exerc-lo sozinho quando o outro falecer ou tiver sido 
impedido por lei.
        91
Um dos pargrafos do Cdigo da Famlia que no constava do texto original, redigido por juristas, e que 
foi acrescentado aps um debate nacional. foi a elevao da idade mnima para o casamento para 14 anos, para 
as mulheres, e 16. para os homens  desde que autorizados pelos pais. Pela antiga legislao, a idade mnima era 
de 12 anos para as mulheres e 16 para os homens. Para o casamento sem autorizao paterna  e assim como 
para todos os atos da vida civil
        o Cdigo reduz de 21 para 18 anos a maioridade dos homens e mulheres.

Dos antigos tribunais pc?pulares criados aps a revoluo para julgar crimes _de_traio 
e_espionagem, Cuba evoluiu para os ~~QlegjadQ~PQpU1aIs onde, em todos os nveis, hjyz~~ 
gradu24~senO&aduadoS em Direito. Exceto o presid ente do Tribunal Supremo e dos juizes das quatro salas de 
apelao, todos os juizes so escolhidos pelo povo, em assemblias de moradores. Em nvel regional a escolha  
feita por intermdio de organizaes como a Confederao de Trabalhadores de Cuba, a Federao das 
Mulheres, a Unio dos Jovens Comunistas, a Associao Nacional dos Agricultores Pequenos (ANAP), os 
Comits de Defesa da Revoluao e a Federao de Estudantes Universitrios. Em nvel provincial, repete-se o 
processo. E quase sempre so escolhidos juizes que anteriormente fizeram parte dos tribunais populares.

Todos os juizes tm mandato com tempo limitado: dois anos nos tribunais de base (municipais), trs anos 
nos regionais, cinco anos nos provinciais e sete anos no Tribunal Supremo. Anualmente os tribunais  em todas 
as instancas so obrigados a prestar contas de suas atividades s pessoas que elegeram os juizes.

O Estado oferece ao acusado advogados de ofcio, mas q~iem quiser pode contratar seu defensor nas 
Bancas Coletivas
        advogados independentes, sem filiao ao Estado, cuja cobrana de honorrios  controlada por uma 
tabela de preos mximos estabelecida pelo Ministrio da Justia.

Os juizes leigos, no graduados, no recebem salrios extras pela funo, mas apenas o que ganhavam na 
profisso exercida antes de ocuparem o cargo. No Tribunal Supremo e nos tribunais provinciais, dois juizes 
so graduados e um, no; nos regionais, um  graduado e dois so leigos; nos tribunais de base, os trs 
juizes so leigos. H tribunais de base no


92
apenas nos municpios, mas espalhados por vrios pontos do pais. Por exemplo, h um tribunal de base 
de planto no Estdio Latino-Americano de Basebail. Quando ocorre uma briga mais grave entre 
torcedores, em vez de serem levados a uma delegacia de polcia, os envolvidos so colocados diante 
do Tribunal montado numa sala do prprio estdio. E tratando-se de uma briga sem leses corporais, o 
julgamento costuma ser to rpido que os envolvidos freqUentemente tm tempo de voltar  
arquibancada para ver a continuao do jogo.

Com o fim da figura do juiz unipersonal, Cuba extinguiu tambm o corpo de jurados. Na 
sala de um tribunal ficam o
        ru, as testemunhas, o promotor, o advogado, trs juizes e quem mais queira assistir ao julgamento. Os 
delitos comuns
?        so julgados segundo o velho cdigo de 1938, submetido a pequenas alteraes. Em cada provncia h 
uma sala especial para julgamento de crimes contra a segurana nacional e duas
para crimes comuns; no Tribunal Supremo h quatro salas:
-        para jtlgamento de crimes previstos nos cdigos penal e civil e na Lei de Segurana Nacional, e uma 
sala especial para
crimes militares. Nos tribunais regionais h salas apenas para julgamento de crimes previstos nos cdigos civil e 
penal.

O condenado  obrigado por lei a trabalhar, e na priso recebe o mesmo salrio pago em todo o 
pas  atividade escolhida. E em Cuba no existem mais prises comuns, fechadas. So todas abertas 
(granjas e colnias agrcolas, sem muros ou grades) ou semi-abertas: penitencirias dentro de colnias 
agrcolas, onde o condenado s se sente preso  noite, ao dormir, mas passa o dia trabalhando ao ar 
livre. Um funcionrio do governo chegou a insinuar um convite para que eu visitasse uma priso 
aberta, onde esto os presos polticos cubanos. O convite, depois, foi polidamente desfeito por 
um assessor do ministro da Justia.

Tanto o habeas-corpus como o sursis foram mantidos na legislao ps-revolucionria. E os 
promotores de justia tm ainda uma peculiar atribuio, alm das normalmente inerentes ao cargo: 
fiscalizar a legalidade socialista. Quando algum,
?        por exemplo, se sente injustiado em seu trabalho, pode fazer uma denncia ao promotor que, se for o 
caso, determina as aes necessrias  uma maneira, segundo dizem os cubanos, de se evitarem 
personalismos e perseguies pessoais no seio da revoluo.


93

~U~IY~RSII1~L1F ~[ ~ DO SUl
REFORMA AGR
~RIA, ECONOMIA






















No dia 10 de outubro de 1958, dois 
meses e meio antes de tomar o poder, 
Raul Castro, irmo de Fidel, organizou 
no p da Sierra Maestra o Primeiro 
Congresso Campons em Armas e 
proclamou, diante de uma multido de 
pequenos agricultores, a Lei n0 3 da 
Serra  a reforma agrria das zonas em 
poder dos combatentes. Cinco meses 
depois, a 17 de maio de 1959, Ral, j 
comandante das Foras Armadas 
Revolucionrias, via seu irmo, o 
primeiro-ministro, assinar a lei que 
estendia os efeitos da primeira a todo o 
pas: ningum poderia, a partir daquele 
dia, ter mais de 400 hectares de terra em 
Cuba. Para dar exemplo  contou-me 
Ramn, o ri-sonho irmo mais velho de 
Fidel e Ral  a primeira fazenda 
expropriada foi a do nosso pai, que era 
bem grande.

At ento, 64% das terras 
cultivveis do pas estavam nas mos 
de latifundirios e das multinacionais 
americanas que exploravam o cultivo e 
a industrializao de acar, de tabaco 
e de ctricos: a Bay Nipe Com pany tinha 
49.826 hectares, a Atlantic Sugar Co. 
250 mil hectares e a American Sugar, 
143 mil hectares. E um consrcio de 12 
empresas norte-americanas, lideradas 
pela Cuban Fruil Co. chegou a possuir 
1,2 milho de hectares de terras em 
Cuba  cifra que se torna especialmente 
significativa quando se sabe que o pas 
tem uma rea total de apenas 114 mil 
quilmetros quadrados, o equivalente, 
por exemplo,  rea do Estado do Piaui.


9
7





















No dia 10 de outubro de 1958, 
dois meses e meio antes de tomar o 
poder, Raul Castro, irmo de Fidel, 
organizou no p da Sierra Maestra o 
Primeiro Congresso Campons em 
Armas e proclamou, diante de uma 
multido de pequenos agricultores, a Lei 
n0 3 da Serra  a reforma agrria das 
zonas em poder dos combatentes. Cinco 
meses depois, a 17 de maio de 1959, Ral, 
j comandante das Foras Armadas 
Revolucionrias, via seu irmo, o 
primeiro-ministro, assinar a lei que 
estendia os efeitos da primeira a todo o 
pas: ningum poderia, a partir daquele 
dia, ter mais de 400 hectares de terra em 
Cuba. Para dar exemplo  contou-me 
Ramn, o ri-sonho irmo mais velho de 
Fidel e Ral  a primeira fazenda 
expropriada foi a do nosso pai, que era 
bem grande.

At ento, 64% das terras 
cultivveis do pas estavam nas mos 
de latifundirios e das multinacionais 
americanas que exploravam o cultivo e 
a industrializao de acar, de tabaco 
e de ctricos: a Bay Nipe Com pany tinha 
49.826 hectares, a Atlantic Sugar Co. 
250 mil hectares e a American Sugar, 
143 mil hectares. E um consrcio de 12 
empresas norte-americanas, lideradas 
pela Cuban Fruil Co. chegou a possuir 
1,2 milho de hectares de terras em 
Cuba  cifra que se torna especialmente 
significativa quando se sabe que o pas 
tem uma rea total de apenas 114 mil 
quilmetros quadrados, o equivalente, 
por exemplo,  rea do Estado do Piaui.


9
7

No dia 6 de agosto dc 1960, respondendo ao corte da
cota dc acar cubano, decretado na vspera pelo governo dos
Estados Unidos. Fidel Castro expropriou sem indenizao e
nacionalizou toda a indstria aucareira do pas Apoiando a
medida do governo, 50 mil camponeses beneficiados pela reforma agrria se reuniram em uma associao, a 
ANAP Associao Nacional de Agricultores Pequenos, e passaram a
exigir que o governo revisse e tornasse mais rigorosa a lei de
17 de maio de 1959.

A resposta ao apelo s veio trs anos depois, com a promulgao da segunda lei de reforma agrria, que 
estatizou todas as propriedades com mais de 67 hectares. Como na lei da reforma urbana, aplicou-se um 
princpio bsico: todo mundo  dono da terra onde vive, at o limite mximo estabelecido por lei. As grande 
extenses exploradas por latifundirios ou por empresas estrangeiras passaram  propriedade do Estado, que se 
tornou o dono de 70% das terras agricultveis do pas, ficando os 30% restantes em poder dos camponeses, 
Com  nova lei, a ANAP ganhou mais 140 mil famlias de scios  ao todo, at aquela data, cerca de 190 mil 
camponeses tinham recebido terras do Estado atravs das duas reformas agrrias. Mas a experincia ainda no 
comeara a dar bons resultados: a segunda lei havia permitido reagrupar, em parte, as terras pertencentes ao 
Estado, mas estas nem sempre se estendiam de forma contnua. Qs camponeses tinham Q direito de escolher 
seus cultivos,~ o que produzia com freqj~n~. cia, a seguinte situao: no meio de dezenas de milhares_de 
hectares dc acar ou de arroz, surgiam pequenas ilhas planladas com legumes, tabaco, frutas.

Alm de dificultar o trabalho das colhedeiras estatais, que tinham de se desviar de reas de at 67 
hectares, a produ-?tividade nem sempre era satisfatria nessas pequenas faixas de terra. O governo resolveu esse 
problema atravs de uma ~~troca com o campons: o Estado construiria para ele uma casa com gua e luz, um 
estbulo, um chiqueiro e um galinheiro, de graa, desde que ele se dispusesse a plantar em suas terras o que 
fosse determinado pelo Instituto Nacional da Reforma Agrria. Alm dessas vantagens, o campons se 
beneficiava com o aproveitamento da infra-estrutura montada pelo governo para atender  rea que se 
encontrava em volta de suas terras. Recebia um salrio mensal de 150 pesos, at que ob98
tivesse lucro com a primeira colheita do novo produto. E podia manter uma pequena cultura, 
escolhida por ele, para seu consumo familiar.
Houve casos em que o Estado se interessou pela compra das terras que a guns camponeses 
receberam atravs da reforma agrria. A area era adquirida atravs de um plano em que o campons 
recebia o pagamento em prestaes mensais variveis  conforme a qualidade da terra  de 900 a 
1.350 cruzeiros, vitaliciamente E recebia garantia de emprego e casa prpria no plano agropecurio 
a ser instalado em suas terras pelo Estado.

Um desses exemplos  o plano agropecurio de Vale de Picadura, situado a 60 quilmetros 
de Havana. Dirigido por Ramn Castro, o primognito da famlia Castro (50 anos, dois a mais 
que Fidel), o plano foi instalado numa rea anteriormente pertencente a vrios camponeses, hoje 
empregados que vivem
la.        As terras, situadas no sop de uma serra, eram ideais para a criao de gado holands, 
leiteiro, que se adapta mais facilmente aos climas frios.

Fisicamenre muito parecido com o irmo famoso, Ramn s se converteu ao marxismo depois 
da revoluo. Antes, ele hoje confessa entre gargalhadas, eu era um latifundirio reacionrio, O 
Cndido, que hoje  meu assessor aqui, era comunista e eu, por vrias vezes, pedi sua cabea  
polcia da provncia de Oriente. Ramn reconhece que foi duro dar o bom exemplo e expropriar 
a fazenda dos pais:
f
        Se papai ressuscitasse e visse que seus trs filhos so
militnntes do Partido Comunista, pediria para morrer de novo.
1
O        pIano dirigido por Ramn , numericamente, insignificante perto do rebanho cubano, de 
dez milhes de cabeas. A Repblica Socialista Popular de Picadura, como ele chama 
carinhosamente a fazenda estatal, tem apenas duas mil cabeas de gado holands preto-e-
branco. Pretende-se, nos laboratrios existentes ali, desenvolver, atravs de inseminao artificial, 
um plantel to refinado como o canadense.

Hoje a ANAP, embora detendo apenas 30% das terras agricultveis, tem uma participao 
significativa na produo agrcola nacional. Das pequenas fazendas de seus 190 mil 
associados (cada um tem, em mdia, 33 hectares de terras) saem e so comprados pelo Estado 21% 
da produo nacional
        1        99
de cana de acar; 82% do tabaco; 47% das frutas; 74% do caf e 27% da apicultura. Na pecuria a 
ANAP participa com 43% do rebanho nacional de corte e leite.

Paralelamente  implantao da Reforma Agrria, o governo iiou uma Administrao Geral de 
Crditos, ligada ao Banco Nacional de Cuba, para financiar a produao, vender fertilizantes, 
herbicidas e equipamentos.. Um funcionrio do banco est em permanente contato com a associao, 
que trata dos interesses dos scios. Os crditos s so aprovados contra uma previso da produo  no ato 
do fechamento do negcio, o Estado lhe garante preo fixo para a compra da colheita.

Ter terra prpria em Cuba parece ser um bom negcio. Embora a ANAP informe que seus 
associados ganham, em mdia, anualmente, cerca de 18 mil cruzeiros (mais que o campons 
empregado do Estado, ou que o trabalhador urbano), Salustio Florez, plantador de tabaco nas vizinhanas 
de Havana, garante estar recebendo, h seis anos, cerca de 90 mil cruzeiros anuais com a venda de sua 
produo  Cubatabaco, empresa estatal que administra a industrializao de cigarros e charutos. Para os 
camponeses privados que se decidiram pelo cultivo de acar, Fidel Castro aceitou reduzir o preo do alu-
guel dos engenhos estatais onde a cana  moda. O aluguel das centrais aucareiras, que antes custava ao 
pequeno produtor 55% do total modo, foi reduzido pelo governo para 45%.

Em 1963, quando a libra de acar estava cotada no mercado internacional a 1,2 centavos de dlar 
(e a URSS pagava a Cuba 6 centavos, conforme acordo de ajuda assinado entre os dois pases em 1960), Fidel 
fz uma proposta aos pequenos produtores da ANAP: o Estado lhes pagaria 5 centavos a libra, qualquer 
que fosse o preo internacional, por um prazo de 20 anos, e lhes garantiria fertilizantes igualmente a 
preo fixo. Todos aceitaram. E, se durante alguns anos o Estado teve prejuzo no negcio, s os preos 
alcanados nos dois ltimos anos permitiram que as perdas fossem recuperadas. Hoje j se pensa em subir o 
preo pago aos scios da ANAP, caso a cotao se mantenha estvel no mercado internacional.

Mas o grande problema dos agricultures e do Estado, com relao  cana de acar ainda  a 
mecanizao da colheita um probleiina que no existia h vinte anos. Naquela poca, segundo dados 
oficiais, havia cerca de~O mil desocupados


100
no pas, que passavam cem dias por ano na safra e os meses restantes  procura de trabalhos 
eventuais. As primeiras tentativas de mecanizar a colheita, ocorridas no incio dos anos 60 (embora 
Cuba j utilizasse, em pequena escala, cortadeiras mecnicas desde 1910) foram 
violentamente repudiadas pelos mnacheteros  os cortadores braais  que temiam perder a nica 
fonte de renda garantida.
A mecanizao da lavoura de cana obriga o agricultor a mudar quase tudo: a preparao do 
campo tem que ser especial,  necessrio alterar os mtodos de plantio, redividir a plantao com 
pequenas estradas para a passagem das mquinas. O governo decidiu, a princpio, apenas semi-
mecanizar a colheita com aladeiras  mquinas que pegam a cana cortada, colocando-a no caminho. 
Com a introduo das aladeiras, reduziu-se em 40% o trabalho braal nos canaviais. Em 1967 
toda a cana cubana era alada mecanicamente. ~

O        relevo cubano  adequado  mecanizao: s 20% dos canaviais esto em regies 
montanhosas, inacessveis s cortadeiras mecnicas. Nos ltimos anos, procurando cada vez


mais aproveitar-se dessa facilidade naturalo MVistff~da 1n dstria Aucareira experimentou todas 
as mquinas cortadeiras
disponveis no mercado,_ procurando a ciye melhor se ade1
4~~? kindioes locais. ~DepoiTs de muitas selees, chegou-se s duas mquinas 
consideradas ideais: a Massey-Ferguson, australiana, e a KTP, sovitica.

Apesar de todos esses esforos, em 1970 apenas 11% da produo total de cana cubana 
era cortada mecanicamente. Hoje, com cerca de mil mquinas operando em todo o pas KTP, 
Massey-Ferguson e algumas inventadas e montadas em Cuba  corta-se 30% da produo 
mecanicamente. Em 1977 dever comear a funcionar uma fbrica de cortadeiras no pas  j 
em construo, com tecnologia sovitica  que
produzir 700 unidades anuais, o suficiente para que sejam mecanizadas 80% das terras planas onde 
h canaviais em Cuba.
A preocupao do governo com a manuteno de altos nvei~dWprodutividade da cana 
de acar  bvia: alm de representar quase 50% do Produto Nacional Bruto do pas, nenhum 
cubano se esquece de que essa cultura foi um dos principais fatores que permitiram que o pas 
sobrevivesse ao
~        bloqueio econmico decretado em 1962.


101
O bloqueio comeou a agonizar em 1974, quando o presidente iuan Domingo Pern, da Argentina, depois 
de uma longa discusso com o governo dos Estados Unidos, decidiu vender 45 mil automveis a Cuba. Os 
carros eram produzidos por subsidirias norte-americanas e, para forar o governo dos EUA a autorizar as 
vendas. Pern chegou ao extremo de ameaar nacionalizar as fbricas caso as exportaoes fossem vetadas. Os 
veculos seriam pagos com parte de um crdito de 1,2 bilho de dlares aberto a Cuba pela Argentina. O ne-
gcio foi feito.
Poucos meses depois, Cuba recebia outra injeo de capital: em dezembro de 1974, a Espanha, que nunca 
deixou de ter relaes diplomticas com o governo revolucionrio, concedia a Cuba crditos de 900 milhes 
de dlares para a compra de barcos pesqueiros, fbricas de cimento e equipamentos de transporte.

Antes da revoluo, Cuba tinha dois grandes parceiros comerciais, os Estados Unidos e o Canad, 
que absorviam cerca de 70% das exportaes do pas e abasteciam suas importaes na mesma proporo. A 
Europa Ocidental respondia com cerca de 15% de exportaes e importaoes, e o restante se distribua entre 
vrios pases da Amrica Latina. Em 1960, os Estados Unidos interromperam o fornecimento de petrleo e 
cortaram a quota de acar que compravam dos cubanos. Imediatamente depois do bloqueio total, a Unio 
Sovitica veio em socorro dos cubanos, garantindo o fornecimento de petrleo e assumindo a 
responsabilidade pela compra dos 3 milhes de toneladas de acar at ento destinados aos EUA. De l 
para c, o Japo passou a superar a Espanha como o primeiro cliente no comunista de Cuba, com um 
volume de importaes que subiu de 40,7 milhes de dlares, em 1968, para 145,3 milhes, em 1972.

Mais de 17 anos depois que Fidel derrubou Fulgencio Batista e iniciou a revoluo que levaria o pais a um 
regime socialista, a economia cubana continua dependendo fundamentalmente do acar. A 
irregularidade do preo do produto no mercado internacional, que havia deixado a economia cubana em 
situaes difceis, como em 1964 (quando o preo da libra caiu de 5,7 para 2,1 centavos de dlar), 
acabou transformando-se no motivo principal da bonana que o pas vive hoje. O preo da libra de acar, 
em 1974, foi, em mdia,


102
de 29 centavos de dlar  chegou, nas maiores altas, a ser cotada em 65,50 centavos. Para se ter uma 
noo do que isso significa para Cuba, basta observar que em 1970, o ~~Ano dos 10 milhes de 
toneladas (cifra que no chegou a ser alcanada  a produo foi de 8,3 milhes de toneladas) a 
cotao mdia era de 3,7 centavos de dlar a libra. Ao preo mdio de 29,9 centavos a libra, Cuba 
teria acumulado em 1974, 5,5 bilhes de dlares em divisas (dados contestados por estatsticas 
norte-americanas que calculam esse total em torno de 3 bilhes de dlares). Essa cifra permite que o 
pas possa pensar na realizao do sonho que vem sendo acalentado desde o tempo em que Che 
Guevara era o Ministro da Indstria e Comrcio: a industrializao.

Atravs da estatizao da indstria privada o governo passou a controlar toda a produo 
industrial do pas. O programa de desenvolvimento industrial foi iniciado em 1963, e
a partir de ento foram instaladas no pas fbricas de vidro, de papel de imprensa, de pneus, produtos 
qumicos, fios e arames de cobre e acetato, produtos de ao, fertilizantes e txteis
        mas nenhuma delas capaz sequer de abastecer o mercado interno.

Com o acesso s estatsticas econmicas restrito a muito poucas pessoas  quase nunca a 
estrangeiros  torna-se difcil avaliar a real situao cubana. Sempre extra-oficialmente, informa-se 
muito pouca coisa, e quase nada em dados atualizados: o valor da produo industrial de 1972 
aumentou 10% em relao ao ano anterior; no setor de indstrias bsicas o aumento foi de 15%, no 
mesmo perodo, com uma produo no valor de 3,3 bilhes de cruzeiros; a indstria leve
        roupas, calados, plsticos  alcanou 4,9 bilhes de cruzeiros no perodo de 1971/72, e cresceu 
10,5% em 1972/73.

Em 1969 o consumo de ao bruto teria sido de crca de 400 mil toneladas; entre 1959 e 1966 a 
produo mdia anual de fertilizantes foi de 450 mil toneladas, nmero que cresceu para 860 
mil em 1968 e caiu para 700 mil toneladas em 1971. Neste ano, a produo nacional de cido 
sulfrico (duas fbricas) foi de 400 mil toneladas. As duas fbricas cubanas
                de pneus produziram 300 mil unidades em 1971 e uma so
                fbrica produziu 100 mil baterias para automveis. As cinco
        ?~        fbricas de papel produziram 100 mil toneladas em 1971. A
                indstria de bens de consumo  pequena: em 1973 produziu
                103
        ~U11VE~SW~Uf ~E        DO Sul
A        nim nuri
65 mil geladeiras e 50 mil foges  no h dados precisos sobre a produo total de aparelhos de rdio. 
Uma fbrica de aparelhos de televiso, de tecnologia sovitica, est sendo instalada no pas, com
capacidade de produo de 100 mil televisores anuais.

A partir de 1972, Cuba passou a receber ajuda tcnica e fundos do Comecon  o mercado comum 
do bloco socialista  organismo ao qual o pas se agregou naquele ano. E a Unio Sovitica investiu em 
Cuba, entre 1973/75, 300 milhes de rublos  ai no esto includas as despesas militares, de valor 
nunca divulgado pelos dois pases.

A prevalecerem estveis os atuais preos do acar,  de se esperar que Cuba possa ensaiar os primeiros 
passos de seu processo de industrializao. Segundo comentou em Havana um diplomata europeu 
ocidental, a viagem do vice-primeiro-ministro Carlos Rafael Rodriguez  Europa, em fevereiro de 
1975 reflete o interesse dos pases do bloco ocidenta] em comerciar com Cuba: Carlos Rafael, disse 
ele, foi recebido como um sheik rabe em todos os pases por onde passou. Na crise atual, quem tem
dinheiro e paga  vista merece esse tratamento.






















104
A REVOLUO ONIPRESENTE

Em Cuba, todo mundo, homens e
mulheres,  compaiiero. Nos envelopes das
reparties pblicas, nas4 cartas, nas con-
versas, nos discursos oficiais, ningum 
senhor ou senhora. Todo mundo 
co;npaiiero  menos,  claro, os considerados
contra-revolucionrios. Estes so os gusanos,
os vermes. Pude ver isso ao conhecer de 
perto uma das ltimas propriedades da 
iniciativa privada no pas: os velhos txis-
lotao que circu~am em Havana. O Dodge 
1953, caindo aos pedaos, ia pegando e 
deixando passageiros pela cidade (a nove 
cruzeiros por cabea) ao som da conversa de 
seu proprietrio, o motorista Francisco 
Herrera. Aos 60 anos de idade, e h 40 
trabalhando como motorista de txi, ele j 
recebeu  e recusou  varias propostas para 
trabalhar nos txis estatais, novos, 
importados da Argentina, da Itlia e da 
Unio Sovitica:
-         No tenho nada contra o comunismo, 
mas estou velho o mal acostumado para 
mudar minha vida. Esse negcio de acordar 
s sete da manh e trabalhar at de noite no 
 para mim,  para a garotada. Meu carro est 
desmanchando de velho, come a metade do 
que eu ganho. Mas se me der vontade de 
brecar aqui, mandar todo mundo descer, ir 
para casa e ficar uma semana sem fazer nada, 
ningum pode me impedir. Comunismo  
bom para essa juventude que est a nas


1
0
7






















Em Cuba, todo mundo, homens e 
mulheres,  com paiiero. Nos envelopes das 
reparties pblicas, na~ cartas, nas con-
versas, nos discursos oficiais, ningum  
senhor ou senhora. Todo mundo  
co;npaiiero  menos,  claro, os considerados 
contra-revolucionrios. Estes so os gusanos, 
os vermes. Pude ver isso ao conhecer de 
perto uma das ltimas propriedades da 
iniciativa privada no pas: os velhos txis-
lotao que circu~am em Havana. O Dodge 
1953, caindo aos pedaos, ia pegando e 
deixando passageiros pela cidade (a nove 
cruzeiros por cabea) ao som da conversa de 
seu proprietrio, o motorista Francisco 
Herrera. Aos 60 anos de idade, e h 40 
trabalhando como motorista de txi, ele j 
recebeu  e recusou  varias propostas para 
trabalhar nos txis estatais, novos, 
importados da Argentina, da Itlia e da 
Unio Sovitica:
-         No tenho nada contra o comunismo, 
mas estou velho o mal acostumado para 
mudar minha vida. Esse negcio de acordar 
s sete da manh e trabalhar at de noite no 
 para mim,  para a garotada. Meu carro est 
desmanchando de velho, come a metade do 
que eu ganho. Mas se me der vontade de 
brecar aqui, mandar todo mundo descer, ir 
para casa e ficar uma semana sem fazer nada, 
ningum pode me impedir. Comunismo  
bom para essa juventude que est a nas


1
0
7

ruas. Quem passou a vida inteira vivendo por sua prpria conta no se acostuma.
Alguns quarteires depois, desci e notei que logo atrs de mim caminhava uma senhora idosa que ouvira a 
conversa, sentada no banco de trs do txi. Apertou o passo, chegou-se a mim e disse:
 Voc  estrangeiro, no? Eu vi voc chamando aquele homem, o chofer do txi, de com patiero, ao se 
despedir. Ele no  um compaizero,  um contra-revolucionrio, um vagabundo. Claro que no poderia gostar 
do sistema atual. Aqui todo mundo tem de trabalhar muito. Quem pensa que pode passar uma semana sem fazer 
nada neste pas est enganado.
A velhinha, que no tempo de Batista tinha sido empregada domstica  profisso extinta por lei depois de 
Fidel hoje  funcionria de um berrio pblico. E, como outros 4,8 milhes de cubanos,  filiada ao CDR - 
Comit de Defesa da Revoluo, que congrega 80% da populao com mais de 14 anos de idade. O CDR 
nasceu em setembro de 1960, quando ainda no havia sido proclamado o carter marxista da revoluo. Fidel 
Castro acabava de chegar dos Estados Unidos, onde fizera um longo discurso na ONU, e uma multido esperava 
em frente ao palcio para ouvi-lo sobre a viagem. Minutos depois que Fidel comeou a falar, uma bomba 
explodiu. Ele interrompe o discurso, faz uma piadinha sobre o imperialismo ianque e recomea. Alguns anos 
depois, ele mesmo contou esse episdio a um grupo de jornalistas: Enquanto ns falvamos, explodiram cinco 
bombas. Cinco bombas! Voc ia falando e de repente, pam! uma bomba. Tinha de esperar o eco terminar para 
continuar falando. Poucos minutos depois, outra bomba. E na quinta bomba, a quinta bomba gerou os Comits 
de J~fesa1~~voluO. Porque ns dissemos: mas se temos o povo, se o povo apia a revoluo, se o povo 
est em toda parte, como podem esses mercenrios mover-se? Vamos organizar o povo! E lanou-se o lema de 
organizar o povo nas fbricas, nas quadras, quarteiro por quarteiro, quadra por quadra, rua por rua.

Um ano depois o CDR  que naquele tempo se chamava Comit de Defesa e Vigilncia  teve sua primeira 
prova de fogo. Em 1961 aconteceu a fracassada invaso da Baa de Porcos. Temia-se que, paralelamente  luta 
no litoral, os


108
inimigos da revoluo ainda residentes no pais preparassem demonstraes de fora e de apoio aos mercenrios 
treinados nos Estados Unidos e na Nicargua. Em cada quadra do pas o CDR fechou as esquinas e manteve 
presos em suas prprias casas os considerados suspeitos, impedindo uma eventual sada para reforo  luta no 
litoral.

Inspirado na Frente da Ptria, criada na Bulgria por George Dimitrov logo aps a Segunda Guerra 
Mundial, o CDR tinha o objetivo declarado de unir as massas em torno da revoluo, do Partido Comunista 
Cubano e de Fidel Castro. Mas, com o tempo, os inimigos do regime foram desaparecendo: a maioria fugiu, ou 
embarcou na ponte area criada entre Cuba e os Estados Unidos, e os que restaram no pais ou mudaram de 
opinio, beneficiados pelas transformaes ocortidas, ou simplesmente decidiram viver calados.

O        CDR, cujas ramificaes se estendem por todo o pas, a nvel de quadra, passou a assumir tambm 
outras fun~es. como, por exemplo, auxiliar o Estado na soluo de problemas sociais. Com o controle total que 
o organismo exerce sobre o pas  com um morador controlando cada quadra  foi possvel, h alguns meses, 
vacinar um milho de crianas contra a poliomielite em apenas trs dias de trabalho. Os CDRistas contam 
tambm que, s no ano passado, recolheram o equivalente a 45 milhes de dlares apenas em sucata e papelo 
conseguidos de casa em casa e que seriam jogados no lixo. Em 1974 a organizao realizou provas citolgicas 
para a preveno de cncer no colo do tero em cerca de meio milho de mulheres; no mesmo perodo, uma 
campanha do CDR para economia de vidro permitiu que fossem recolhidas para reutilizao 99 milhes de 
garrafas (Vocs instalaram uma verdadeira fbrica de garrafas, disse Fidel aos lderes CDRistas).

Depois de visitar Cuba, o senador americano Jacob Javits (republicano de Nova York) declarou  imprensa 
que se surpreendera com a absoluta ausncia de policiamento ostensivo nas ruas. Realmente s se vem os 
guardas de trnsito, circulando pelas cidades montados em possantes motos italianas Guzzi-8S0. Acontece que 
nada ocorre no pas, nem na mais remota aldeia, sem que um membro do CDR tome conhecimento. 
Funcionando como uma espcie de sndico da quadra, o presidente do CDR (normalmente um aposentado ou


109
uma dona de casa) passa o dia atento para algum eventual desocupado da vizinhana (em Cuba h uma lei 
contra a vadiagem que  efetivamente aplicada e que pode condenar o acusado at a dois anos de priso) ou 
mesmo cuidando para que as crianas no faltem  aula. Sem nunca desviar os olhos dos possveis contra-
revolucionrios  cada vez mais raros. Em Trinidad, uma cidadezinha histrica perdida no interior de Cuba, vi o 
chefe do CDR municipal tentando impedir que um motorista de caminho cruzasse a cidade com o veculo 
carregado  para evitar, segundo ele, o desmoronamento de edifcios tombados pelo patrimnio histrico. O ho-
mem, muito mais forte que o CDRista, insistia em passar por ali. Bastou que o outro se identificasse como chefe 
do CDR local para que a ordem fosse acatada.

Em cada quadra o presidente  eleito por todos os moradores de mais de 14 anos, e passa a ser o 
responsvel pela vigilncia de cem metros de rua, nas duas caladas. Cada grupo de 20 quadras constitui uma 
zona, chefiada por um coordenador. Na regio rural do pas, o limite de cada CDR determinado por 
agrupamentos de casas, j que no existem quadras.

Alguns exemplos de mobilizao feitos pelo CDR so repetidos ao visitante em todo o pas. O mais 
conhecido ocorreu em 1971, quando os Estados Unidos colocaram em liberdade um grupo de pescadores 
cubanos presos em suas guas territoriais. O Departamento de Estado s informou o governo de Fidel Castro 
que os pescadores estavam livres quando faltavam duas horas para que chegassem a Havana. Foi o tempo 
bastante para que o CDR mobilizasse dois milhes de pessoas para receb-los no Malecn, a avenida  beira-
mar da capital cubana. Um ano antes, em 1970, durante o terremoto que matou 50 mil pessoas no Peru, Fidel foi 
 televiso e pediu ao povo que doasse sangue para enviar a Lima. Em poucas horas mais de 100 mil pessoas j 
haviam passado pelos postos de doao, e em frente ao Palcio da Revoluo se postou. uma fila de mdicos, de 
malas prontas, que se ofereciam como voluntrios para ir ao Peru (e naquele tempo os dois pases ainda no 
tinham relaes diplomticas). Uni fato idntico deu-se depois, durante o terremoto que destruiu Mangua. Toda 
vez que um cubano conta isso, lembra que tudo foi feito apesar de a Nicargua ser o pas de onde partiram os 
grupos


110
de mercenrios para a invaso da Baa dos Porcos  e provavelmente o ltimo pas com o qual Cuba voltar a ter 
relaes.

O que os cubanos denominam ~~internacionaismo proletrio no se manifestou apenas a. Em Hani, 
por exemplo, grupos de cubanos de todos os nveis (estudantes, operrios, tun.honarios pblicos, professores, 
diplomatas), que se revezuni a cada seis meses, participam da construo de um hotel de 24 andares. Quando 
estiver pronto, o Hotel Vitria ser (~ferecido ao governo da Repblica Democrtica do Vietn.

O CDR tem, tambm, uma inacreditvel capacidade de moblzaao armada dos quase cinco milhes de 
adultos (maiores de 1 7 anos), para formar contingentes auxiliares das Foras Armadas, se for o caso (as 
estatsticas divulgadas por organisfios internacionais ou revistas especializadas em armamentos dizem que o 
efetivo militar permanente do pas  de entre 110 e 1 50 mil soldados. Os dados oficiais sobre Defesa so abso-
lutamente secretos em Cuba). Os adultos vlidos recebem treinamento militar peridico, de vrios nveis, e a 
maioria deles pode operar armamentos, inclusive os de alto poder de fogo.

Esses soldados do povo, como so chamados, podem ser rapidamente mobilizados numa emergncia. 
Foi o que ocorreu quando da invaso da Baa dos Porcos, em 1961. Estella Menendez, funcionria pblica, hoje 
com 45 anos, conta como se incorporou s milcias populares que foram  Baa:

 Eu era recm-casada, tinha um beb de poucos meses. Entreguei meu filho  me de meu marido  ele j 
lutava na Paa Gron , peguei uma metralhadora e fui para a luta. Como eu, milhares de mulheres fizeram o 
mesmo. E tudo sem histeria, sem choro. Estvamos todos muito emocionados, claro, mas ao mesmo tempo 
muito tranqUilos. A prova disso que em 72 horas o ataque mercenrio foi dominado por ns
        o Exrcito e o povo.

Esse esprito, de certa forma, parece permanecer at hoje. Num ensoarado domingo, a porta do Ministrio 
da Indstria Aucareira, em Havana, est guardada por uma mulata muito bonita, de uns 20 anos. Blue-jeans 
desbotados, camisa amarrada na barriga, quase sensual, cabelo armado de laqu e, na mo direita, um fuzil-
metralhadora.

Todos os locais de trabalho esto sempre guardados por trabalhadores Em cada seo e cada departamento 
h uma



111
escala mensal de plantes (que inclui at os funcionrios mais graduados), em que se determina quem vai tomar 
conta dos prdios aos domingos e durante a noite, todos os dias. Perguntei contra quem se dirige esse esquema 
defensivo, e uni funcionrio do Instituto Cubano de Radiodifuso respondeu:

 O pior talvez j tenha passado, mas s quem sofreu tantas agresses como ns sabe que a vigilncia  
indispensvel. E o grande inimigo no mudou de endereo. Continua morando a 90 milhas de Cuba.

 presena da revoluo no interior, entretanto,  ainda mais intensa e perceptvel que em Havana. Na 
cidadezinha de Ciego de vila, por exemplo, situada na provncia de Camaguey, cartazes, folhetos e out-doors 
tomam conta das ruas. Em cada quadra, uma plaquinha do CDR. As ruas, escolas, praas tm nomes dos heris 
cubanos mortos desde a luta contra os espanhis at as guerrilhas da Sierra Maestra. Num barzinho, enquanto 
serve um refresco, o garon explica por que s os mortos tm seu nome em monumentos e lugares pblicos:

 Quem est vivo  passvel de erro. Seria muito ruim ter de tirar o nome de algum de uma rua.

(Salvador Allende, por quem chega a haver venerao em Cuba, e de quem os cubanos eram amigos desde 
1959, s virou nome de avenida em Havana depois de morto). Na sada do bar, um soldado se aproxima e 
oferece quatro charutos criolios, feitos a mo, em homenagem ao Brasil, e com uma recomendao: Pode 
dizer l que voc fumou o melhor charuto do mundo, feito na Provncia de Camaguey. Cada provncia advoga 
para si o privilgio de fazer o melhor charuto do mundo.

A caminho da cidade de Camaguey, capital da provncia,  beira da estrada, um out-door de trinta metros 
de comprimento lembra a luta para derrubar Fulgncio Batista. Ao lado de um retrato do guerrilheiro Camilo 
Cienfuegos, de corpo inteiro, est a frase: Camilo cruzou esta estrada aqui, chefiando a Coluna Antonio Maceo 
em 28.9.1959.

A revoluo continua sempre presente, pas a dentro. Numa sexta-feira  noite, no bar do hotel em 
Camaguey, um professor de Matemtica e seu aluno conversam em torno de clices de vodca norte-vietnamita. 
Falam de poltica internacional. Per112
gtnto como o povo reagiu  invaso da Checoslovquia pela URSS. em 1968. O jovem responde:

 Apoiamos  claro. A imprensa burguesa deturpou muito aqueles fatos. A verdade  que a revoluo checa 
uma revoluo para o povo, feita pelo povo. Se as coisas continuassem andando como iam, logo a burguesia 
tomaria o poder. No fim, um grupo de intelectuais, num gesto de verdadeiro diversionismo ideolgico, pintou 
um retrato monstruoso dos acontecimentos. Os soviticos terminaram pintados como monstros invasores, como 
assassinos. Cuba no apoiou a Unio Sovitica por dever de ofcio. Apoiou porque concordava com a invaso.
O professor lembra que ~o imperialismo tentou fazer o mesmo depois do golpe no Chile, espalhando 
notcias que diziam que Allende caiu porque pediu dinheiro  Unio Sovitica e voltou de mos abanando, sem 
meios de conter a crise econmica . Argumenta: isso  de um primarismo incrvel. Quem derrubou o regime foi 
o clima que se deixou criar dentro do pas. Esteja certo: um povo que no consegue defender sua revoluo no 
merece ajuda externa. Mataram Aliende p raticamente sozinho. Onde estava o povo? Aqui em Cuba, para tocar 
um dedo em Fidel, os fascistas tero que matar antes nove milhes de pessoas.

Os dois se entusiasmam: Matar Fidel? Essa seria a ltima coisa a acontecer em nosso pais. O CDR est 
a, em toda parte. Est aqui nesta mesa, conversando com voc. A menor manifestao da reao  esmagada no 
bero. Um reacionario nao anda cem metros em Cuba sem ser apanhado. E sabe quem vai peg-lo? Eu, ele ali, 
aquele garon, o motorista que est na porta, sentado  direo do carro. Quer dizer, o povo.
Duzentos quilmetros depois, chega-se  provncia de Oriente, considerada ~a mais revolucionria de 
Cuba. Ali Fide) Castro tentou tomar o quartel de Moncada, em 1953, ali aportou o iate Granrna, em 1956. E 
dali, da Sierra Maestra, ele comandou a luta que derrubaria o governo de Batista. Pergunto ao motorista se a 
fama de Oriente j existia antes disso. Ele fica bravo: Isso no existe. Oizer que os orientais so melhores ou 
piores que qualquer outro cubano  criar um regionalismo pouco revolucionrio. Quando  preciso lutar h 
orientais, pinarenhos, havaneros juntos. Cuba  integralmente revolucionaria.


113

~IJIlYfRSW~Df IJ~ CA~I~S 00 SUt
Na entrada de Santiago de Cuba, entretanto, duas evidncias pareciam querer justificar a faina da 
provncia: um cartaz com os dizeres ~~Santiago: ontem rebelde, hoje hospitaleira, herica sempre~ logo 
depois, outro cartaz gigantesco, de mais de 50 metros de altura, em cores, mostra Fidel Castro em roupa 
de campanha. mochila nas costas, fuzil na mo. Na cidade, de 400 mil habitantes, tem-se a impresso 
de ver dois ou trs, e no apenas um CDR em cada quadra.
Na estrada que liga o quartel de Moncada (hoje Escola 26 de Julho) a uma antiga granja, Sibo,wy, onde 
Fidel e seus companheiros planejaram a invaso, h 26 monumentos de mrmore e concreto, homenageando os 
70 guerrilheiros mortos por Batista aps a frustrada tentativa de tomar o quartel. Em cada monumento, os 
prenomes de trs ou quatro combatentes, e suas profisses: Juan, albaiil; Ramn, sastre; Carlos, 
abogado; ~Frank, estudiante. Nas portas de muitas casas, pintada mo, apenas uma palavra: 
Vigilncia!

A extrema belicosidade que o cubano manifesta quando trata daquilo que chama de nuestro patrirnonio  a 
revoluo
        contrasta com seu comportamento cordial, quase carinhoso do dia a dia.  vspera de meu embarque de 
volta, pude ver isso mais uma vez no saguo do Hotel Nacional, quando,  tardezinha, esperava mais um 
entrevistado  o ltimo da reportagem. Aproximou-se de mim um jovem, negro, e perguntou, meio timidamente:

        Estrangeiro?

        Sim.

        Ah, venezuelano?

        No, brasileiro.

        Brasileiro! Que bom! Ento podemos falar um pouco do Brasil?

Ele me levou para um lado, dizendo que era mecnico em Santa Clara, a 300 quilmetros de Havana; 
caminhamos at um banco no jardim de inverno do hotel e o rapaz  com alguns livros debaixo do brao  
comeou a me entrevistar sobre o

Brasil:
 Como  seu pas?
Disse que  muito parecido com Cuba: sol, praias. povo fisicamente semelhante ao cubano. E ele:


114
        H muitos negros no Brasil?
 Sim, bastante. Como aqui, em Cuba.

Ele parou um momento, tomou coragem e perguntou de uma vez:
 Roberto Carlos  negro?

Ele ficou um pouco decepcionado com a resposta. Imediatamente mudou de assunto e 
continuou:

 Voc conhece o conpaiiero Fidel?

Respondi que no, que j tinha cruzado com o primeiro-ministro algumas vezes em Havana, mas 
que nunca o tinha entrevistado. Ele tirou de baixo do brao o livro A Histria me Absolver, a 
autodefesa feita por Fidel em 1953, e me estendeu:

        Leve para o Brasil,  uma lembrana de Cuba.

No dia seguinte, na fila de embarque do Aeroporto Jos Marti, pronto para voltar, recebo outros 
recuerdos dos cubanos que ficaram um ms e meio comigo: uma caixa de charutos, de Ricardo, o jovem 
diplomata, e um bon da seleo cubana de basebali, oferecido por Gilberto, o motorista. O Ilyushin-62 
levanta vo e, por cima da sua asa prateada, vejo de novo Ho Chi Minh sorrindo no grande out-door: 
Construiremos um Vietn dez vezes mais bonito. O avio sobrevoa Havana e da janela em que 
estou s vejo um lado da capital. A ltima imagem, antes de entrar nas nuvens: dois velhos canhes 
espanhis, colocados na praia no tempo da colnia. Apontados para Miami.
















115
















APNDICE















APNDICE



















UMA ENTREVISTA COM CARLOS 
RAFAEL 
RODRIGUEZ


Em Cuba diz-se que Fidel Castro 
tem duas mos direitas:
uma para Defesa, que  seu irmo 
RaL, comandante das Foras Armadas 
Revolucionrias, e outra para Comrcio 
e Poltica Exteriores, que  Carlos 
Rafael Rodriguez. Doseduzido grupo de 
homens que h 17 anos dirigem os 
destinos de Cuba, o sessento Carlos 
Rafael, vice-primeiro-ministro, , 
juntamente com o presidente da 
Repblica, Oswaldo Dortics, um dos 
poucos que no lutaram na Sierra 
Maestra. Enquanto Fidel, Ral, Che 
Guevara e Camilo Cienfuegos 
comandavam a luta guerrilheira, Carlos 
Rafael trabalhava na clandestinidade, 
dirigindo o Partido Socialista Popular, 
de orientao marxista, que depois do 
triunfo da revoluo daria lugar ao 
Partido Comunista Cubano.

Nesta entrevista concedida com 
exclusividade ao autor, e at hoje 
mantida quase totalmente indita, 
Carlos Rafael Rodriguez faz uma 
anlise da poltica externa da Cuba ps-
revolucionria, interpreta um discurso 
de Kissinger, fala da crise do petrleo, 
das alternativas polticas e econmicas 
para os pases latino-americanos, das 
ligaes de Cuba com o bloco 
socialista. E comenta as possibilidades 
de uma reaproximao de seu pas com 
os Estados Unidos e com o Brasil.


1
1
9



















UMA ENTREVISTA COM CARLOS 
RAFAEL 
RODRIGUEZ


Em Cuba diz-se que Fidel Castro 
tem duas mos direitas:
uma para Defesa, que  seu irmo 
RaL, comandante das Foras Armadas 
Revolucionrias, e outra para Comrcio 
e Poltica Exteriores, que  Carlos 
Rafael Rodriguez. Doseduzido grupo de 
homens que h 17 anos dirigem os 
destinos de Cuba, o sessento Carlos 
Rafael, vice-primeiro-ministro, , 
juntamente com o presidente da 
Repblica, Oswaldo Dortics, um dos 
poucos que no lutaram na Sierra 
Maestra. Enquanto Fidel, Ral, Che 
Guevara e Camilo Cienfuegos 
comandavam a luta guerrilheira, Carlos 
Rafael trabalhava na clandestinidade, 
dirigindo o Partido Socialista Popular, 
de orientao marxista, que depois do 
triunfo da revoluo daria lugar ao 
Partido Comunista Cubano.

Nesta entrevista concedida com 
exclusividade ao autor, e
at hoje mantida quase totalmente 
indita, Carlos Rafael Rodriguez faz 
uma anlise da poltica externa da Cuba 
ps-revolucionria, interpreta um 
discurso de Kissinger, fala da crise do 
petrleo, das alternativas polticas e 
econmicas para os pases latino-
americanos, das ligaes de Cuba com 
o bloco socialista. E comenta as 
possibilidades de uma reaproximao 
de seu pas com os Estados Unidos e 
com o Brasil.


1
1
9

Perunta  Co;na se dcs;olera;n as grandes reforma laes da polirca exterior cubana, durante o 
proce?so revo 1wo~unio?

- Carlos Rafael Rodriguez  ~ poltica exterior de qualquer pais depende. a nosso ver, de dois elementos 
bsicos. Em primeiro lugar. os objetivos do pas, e em segundo lugar as condies externas. E nossa poltica 
exterior tem sido uma combinao necessaria de objetivos e reaes frente s condies externas. Q primeiro 
elemento, fundamental, foi dado pelo fato de que a tentativa de Fidel Castro,  frente do povo, de realizar uma 
verdadeira independncia nacional, foi respondida pelos Estados Unidos com uma violenta ofensiva para 
cancelar o projeto revolucionrio. Isso foi tentado de diversas maneiras. Primeiro, como se sabe, pela 
eliminao_daq9ota aucareira, pela via do comrcio exterior. E nos encontramos de repente com trs milhes 
de toneladas de acar em um mundo que no era o de hoje  onde trs milhes de toneladas de acar teriam 
sido um tesouro. Tivemos que colocar no mercado esses trs milhes. E a ui veio, pela primeira vez, em nossa 
ajuda, a Unio SQvitica,junto conQgrupoid pases socialistas que absorveram, a preos convenientes~ todo 
esse acar. O segundo momento da ofensiva norte-americana foi a supresso do combustvel, uma medid mif 
d~fka, muito mais cruel, que podia ter trazido  nossa economia_um colapso total. E pela segunda vez, j num 
plano de relaes mais polticas, veio em nossa ajuda a Unio Sovitica, que forncccu o petrleo. E, por ltimo, 
veio a ruptura total de relaes, que os Estados Unidos dizem provocadas por ns
        mas nossa provocao consistiu em querer ser livres, independentes e ter direito a recuperar nossas riquezas 
naturais. Eles romperam unilateralmente as relaes. E por ltidio prepararam, organizaram e executaram o 
ataque armado contra Cuba. Nem falo de sabotagens, de ataques de menor escala, de uma poltica de 
assassinatos, de atentados aos dirigentes. Agora, aqui, imediatamente, h duas projees da poltica exterior: 
comeamos a determinar uma poltica dirigida a nossos inimigos e a delinear uma poltica para nossos novos 
arhigos. O povo cubano naquele momento estava completamente confundido. Se perguntssemos a 80 cubanos, 
sobre 100, em 1959: ~~Uno Sovitica e Estados Unidos  qual  o amigo e qual  o inimigo?. Oitenta 
cubanos diriam: O amigo? Os Estados Unidos. O inimigo, a Unio Sovitica. A vida


120
nos demonstrou, a realidade, a situao internacional, tudo, onde estavam os amigos, onde estavam os inimigos. 
Comeamos a viver ento em condies de guerra declarada pelos Estados Unidos com todas as armas: as 
econmicas, as poliucas e as diplomticas. E, a partir desse momento, tambm o centro de amizade, a nivel de 
Estado, esteve nos pases socialistas e parucularmente na Unio Sovitica. Contamos, naturalmente com o 
apoio, a ateno dos povos, e isso nos dava satisfao. Contamos tambm em?~ alguns Estados, com 
relaes_diplomticas, e na America Latina nosso sistema de -relaes se mantinha. A veio a etapa da presso 
norte- americana, que se exerceu singularmente sobre a Amrica Latina. Agora que todo mundo sabe que no 
pedimos nada, Porque nao necessItamos de nada, eu queria dizer que o princpio da poltica revolucionria de 
Cuba em relao a outros pases tem sido o princpio da resposta. Noh nenhum pas da Amrica Latina que 
possa dizer que Cuba participou, em escala maior ou menor, de algo que possa ser considerado como subverso 
ou interveno  ainda que no seja formal, mas informal sem que Cuba tenha recebido, previamente, desses 
governos, um ataque. Se eu dissesse isso antes poderia parecer uma defesd um pedido de perdo. Agora 
podemos dizer, porque  parte de nossa poltica. Os pases que nos respeitaram foram respeitados  e nisso ns 
temos sido muito escrupulosos. Ningum poderia dizer, por exemplo, em nenhum momento, que Cuba tenha 
participado na organizao ou no apoio de foras que tenham estado fazendo aes subversivas de alguma 
indole no Mxico. Ou que Cuba pensasse, sequer remota-mente, que algum lhe viesse pedir ajuda para 
derrubar, nem digo a Goulart, mas a seus antecessor. De maneira que isso deve ficar bem claro. Veio todo esse 
processo, e como conseqiincia da mudana na poltica dos pases, fomos perdendo amigos e aliados na 
Amrica Latina. Eu me recordo, nas primeiras - discusses em Punta deI Este, que o Brasil ainda votava com 
Cuba e trabalhava para que os demais votassem com Cuba. Recordo-me de que o chanceler de vocs naquele 
tempo era Santiago Dantas, com quem o presidente Dortics, o chanceler Roa e eu tivemos conversaes 
conjuntas. Com ele, com a delegao brasileira e at com o prprio presidente da Repblica, com quem nos 
encontramos em So Paulo. De modo que o caso do Brasil  o mesmo caso do Chile. Na primeira etapa, um 
governo no revolucionrio, no esquerdista, manteve uma posio correta e coerente. Depois, com as


121
mudanas, vieram novas posies e ns vimos que o bloqueio ditado pelos americanos foi aceito, pouco a 
pouco, pela quase totalidade dos pases da Amrica Latina  menos o Mxico. Isso tambm ditou uma segunda 
condio da nossa poltica externa. Estvamos atuando como pas bloqueado e desenvolvemos, evidentemente, 
uma certa agressividade  prpria dos que se defendem que lanam golpes, e que s vezes lanam doioipes 
para cada um que recebem. Somos revolucionrios, nada mais. Em relao  Europa e outras reas, 
nossa poltica tem sido sempre uma poltica coerente, de princpios. Ns no somos partidrios da 
manuteno do capitalismo, mas acreditamos no princpio da coexistncia pacfica, do ponto de vista das 
relaes normais entre os Estados. Isto quer dizer que no associamos o fato de ter relaes 
diplomticas  identificao com situaes polticas, nem sequer  amizade. Em minhas conversaes 
com os companheiros do Ministrio de Relaes Exteriores de nosso pas, eu sempre digo que ns 
temos relaes diplomticas com pases muito amigos, amigos, algo amigos, um pouco inimigos, 
inimigos e muito inimigos. E ~-demos manter relaes diplomticas dentro de toda essa gama. Com a 
Europa e com os grandes pases capitalistas da sia Japo, por exemplo  ns temos tido relaes sujeitas 
s variaes dos governos. Um exemplo da nossa poltica internacional est dado pelo fato de que 
com o govemo da Espanha (ideologicamente nossas distncias tm sido sempre  e so
 muito grandes), sem dvidas temos tido relaes diplomticas normais, mutuamente respeitosas. E uma 
intensidad~a~ relaes econmicas que culminou agora com esse crdito de 900 milhes de dlares 
que acabam de nos conceder. De modo que poderamos definir, nesse marco, nossa poltica inter-
nacional. Agora somos parte de uma comunidade socialista
        no temos com ela compromissos militares, e isso nos permite formalmente ser parte dos no-
alinhados. Estamos comprometidos com o socialismo como idia, como sistema e como comunidade  
e no o ocultamos. Nesse sentido, trata-se de um no-alinhamento de outro carter. Mas o fato de 
fazer parte da comunidade socialista intemacional no nos separa, mas permite um tipo tambm de 
unidade muito estreita em relao  America Latina. Quando ingresamos no Came o Comecon  em 
nome de Cuba, e eu sou o representante cubano no organismo, declarei que ns acreditvamos que 
nosso cenrio histrico natural de integrao econmica era a Amrica Latina. Ainda que nesse 
momento a integrao seja maior


122
em relao  Europa socialista, por razes polticas e sociais. Mas ns ternos confiana no futuro da Amrica 
Latina e no renunciamos  nossa condio de latino-americanos e  nossa idia de uma unio, uma 
coordenao e uma integrao latino-americana, a longo prazo. Hoje temos um sistema de relaes muito 
amplo, vamos aumentando o marco de nossas relaes, e nossa poltica exterior se baseia naturalmente em 
critrios de uma coexistncia pacfica, no no ideolgico, com os grandes sistemas__sociais que so 
incompativeis historicamente com o socialismo. E tambm uma poltica de aproximao a tudo aquilo que na 
Amrica Latina signifique defesa da independncia e da economia nacional. Por conseguinte, a se inclui a 
disposio de participar de associaes como o SELA  Sistema Econmico LatinoAmericano, e de manter uma 
identidade de critrios dentro da diferena de sistemas, com as posies internacionais da Venezuela, do 
Peru, do Mxico e dos pases anglfonos do Caribe.
Pergunta  O primeiro-ministro Fidel Castra disse h algum tempo que Cuba estaria disposta a manter 
relaes com pases que tivessem uma poltica externa independente  no me lembro se as palavras foram 
exatamente essas, mas este parece ter sido o sentido.

Caros Rafael Rodriguez  Sim. Independentes, foi a palavra.
Pergunta  O senhor acredita, ento, que as mudanas vividas nos ltimos dois anos pela poltica externa 
brasileira possam contribuir para uma reaproximao entre os dois pases?

Carlos Rafael Rodriguez  Ns vemos isso como um processo. E certamente, j que minha 
ocupao fundamenta]  no campo das relaes exteriores, tenho que dizer-lhe que temos podido 
perceber essas mudanas. E, naturalmente, partindo daquela poltica expressada pelo primeiro-
ministro Fidel Castro, se esse caminho conduz at onde alguns brasileiros esto dizendo que vai 
conduzir, a situao ser diferente da que tivemos at agora. Em todo esse processo de relaes diplo-
mticas com a Amrica Latina, ns dissemos com muita clareza
        foram palavras do prprio Fidel que definiram mais precisamente nossa linha  que a ns no nos 
importa tanto a relao diplomtica em si mesma, mas o sentido dessa relao diplomtica. No se 
trata de que Cuba esteja ansiosa por ter relaes com todos os pases da Amrica Latina. Evidente-


123


0101 flT(PI PCIITD~I
mente, no estamos ansiosos. No  necessrio dizer que com
o        Chile, um Chile  la Pinochei, um Chile fascistizante. no estabeleceramos relaes sob nenhum pretexto. 
Outras ditaduras, como a Nicargua de Somoza. tampouco nos interessam. O caminho do entendimento, por 
conseguinte, est dado pelos fatores objetivos da situao. Eu no posso negar-lhe que at agora a situao que o 
Brasil projetou  um problema dos brasileiros e o fato de que essa imagem nos agrade ou no tem pouco que ver 
com a poltica internacional. Mas a projeo exterior do Brasil, o papel que alguns governantes atribuiram ao 
Brasil algumas vezes o fizeram governantes brasileiros, outras vezes foram governantes de outros pases, 
governantes norte-americanos  isso naturalmente suscitou em ns contradies que tm sido muito visveis nas 
conferncias internacionais. E se isso muda, e se esses sinais dos quais nos tm falado conduzem ao caminho em 
que se est situando esse processo, ser melhor para o Brasil, ser meihor para a Amrica Latina. E, 
naturalmente, o que fr bom para a Amrica Latina ser tambm aceitvel para Cuba. De forma que aqui no se 
trata de imobilizarmo-nos nas situaes, mas olh-las tal e qual so. E, com toda a franqueza, eu o digo como as 
vejo hoje e como possivelmente a vida nos leve a v-las em outra oportunidade,

Pergunta  A imprensa cubana recebeu com certa indiferena o recente pronunciamento de Henry 
Kissinger que tratava de um tema aparentemente importante para Cuba: as relaes entre os Estados Unidos e 
Cuba. E o governo cubano, coino recebeu o discurso do secretrio de Estado norte-americano?

Carlos Rafael Rodriguez  Como  que se diz no Brasil? Amigo da ona, no ? r.. . voc est bancando 
o amigo da ona... Bem, aqui tambm h um processo. H poucos dias o compaiiero Fidel Castro, falando a um 
grupo de jornalistas estrangeiros, ressaltava uma vez mais que tudo indicava que os Estados Unidos, os 
governantes, se convenciam cada dia mais de que o bloqueio era um caminho sem soluo, um caminho 
inaceitvel. Historicamente caduco, anacrnico e inoperante, diramos. E naturalmente o discurso de Kissinger 
reflete esse convencimento,  uma resposta inteligente a uma situao real. Foi tambm o conpaiiero Fidel 
Castro quem ressaltou em outra entrevista o carter inteligente das solues e dos enfoques de Kissinger. 
Ns temos dito que se no h mudanas quanto ao bloqueio de Cuba, o dilogo no ser possvel. A posio 
do secretrio de Estado define claramente


124
as- bases dc uma nova relao. ~ importante que no se imponham condies. Ns consideramos que h, 
evidentemente, uni elemento novo nessa situao. Mas para ns, negociar sob condies no  possvel. 
Poderia dizer-se. mas o senhor est colocando a condio do bloqueio. Mas  que quando se tem uma 
arma apontada para o peito do adversrio, ainda que na se possa dispar-la, a condio  a arma. Esta-
inos tratando tambm de que, quando houver disposio para conversar, no haja a condio negativa 
que  o bloqueio. Porque se o bloqueio no atingiu todos seus objetivos, ou s atingiu parte deles, isso 
no o faz menos lesivo ao pas atacado. Ns nos sentimos vtimas  e na posio de vtima no se pode 
negociar. Mas h uma parte do discurso de Kissinger que foi interpretada no por ns, mas por 
legisladores dos prprios Estados Unidos. Imediatamente depois do discurso, os senadores PelI e Javits, 
de um lado, e o senador Kennedy, de outro, apresentaram proposies no sentido de conseguir
desbloquear Cuba. Mas a possibilidade de conversar no ~ig~ nifica naturalmente nenhum arranjo, nenhum 
acercamiento da situao. Haver muitas coisas que gr~ qi~c ser defaidaL
Pergunta  Como o governo cubano acompanhou a reunio de outubro de 1974 em Quito, no 
Equador, quando se tentou, em vo, colocar fim ao bloqueio da OFA a Cuba?

Carlos Rafael Rodriguez  Veja: para lhe ser franco, ns consideramos o final da reunio de Quito 
como algo que tem um sentido histrico, positivo. E claro, ali havia pases como a Venezuela, a Costa 
Rica, a Colmbia, que tiveram uma posao muito galharda. No posso dizer que ns tenhamos nos 
alegrado porque essa no fsse a posio dos demais. Mas Quito demonstrou, primeiro, que o bloqueio  
um fracasso. A maioria dos pases estava contra. Segundo: Quito serviu para definir as caractersticas de 
alguns governos da Amrica Latina, que esto dispostos a fazer o que se diga em Washington  e 
inclusive nem sabem mais interpretar os sinais. Segundo se confessou, a delegao norte-americana ficou 
consternada quando comprovou que alguns de seus seguidores a interpretaram mal: votaram contra, 
quando a delegao norte-americana queria quc votassem a favor. Porque  evidente  e isso foi con-
fessado  que o Departamento de Estado esperava que se tomasse uma soluo de liquidao do bloqueio, 
para seguir adiante com a poltica. E qual foi o resultado? A Venezuela


125
estabeleceu relaes com Cuba, a Colmbia tambm e outros pases esto sofrendo grande presso no s 
popular, mas institucional, para o estabelecimento de relaes. E o Departamento de Estado esclareceu sua 
posio. Alguns pensaram que Quito adiaria o problema de Cuba at as calendas gregas. Mas o que se v  que 
nesta Grcia, sim, h calendas, s que chegaram antes do tempo.
__ Pergunta  Que passos Cuba gostaria dc dar para criar um novo sistema interamericano?

Carlos Rafael Rodriguez  ~Ns temos repetido  e j o disse o coinpaiiero Fidel no primeiro discurso 
em que falou dessas coisas  que ns consideramos que o primeiro, e essencial, organizar a Amrica Latina 
como uma unidade  incluindo naturalmente os pases anglfonos do Caribe, que comeam a se sentir cada vez 
mais como uma parte da Amrica Latina. Bem entendido que unidade na diversidade. No se trata, ainda que o 
desejssemos, de uma Amrica Latinalihiformizada qu~into as suas concepes econmicas e sociais. 
Aspiramos aJsso~e temos a certeza de que a Amrica Latina um dia ser socialista no h dvidas. Mas no se 
trata disso  trata-se da unidade dentro da diversidade. Ns nunca dissemos  ao contrrio, pode-se ver 
declaraes em contrrio feitas pelo compafiero Fidel  que esta Amrica Latina nunca vai conversar com os 
Estados Unidos, porque isso  absurdo. Mas a nica possibilidade de dilogo  atravs da unidade. Porque a di-
ferena  to grande. . . Marx  e somos marxistas  dizia que a igualdade consiste em tratar desigualmente as 
coisas desiguais. Naturalmente, para equiparar-se aos Estados Unidos, no  suficiente uma Amrica Latina 
disseminada,  necessrio uma Amrica Latina compacta. Compacta no fundamental:
na defesa de sua independncia, na defesa de seus interesses, na capacidade de negociao. E, como chegar a 
isso? Ns acreditamos que a OEA j acabou. H quem no pense assim, e que tenta injetar vida nova  OFA, 
reviver o cadver, fazer-lhe massagens no corao, mas nenhum dos mtodos funciona.  margem da OEA 
vo surgindo instituies, como o SELA, que pretende ser um organismo de carter econmico, mas que ter 
que se transformar numa unidade de contedo poltico. O importante . que a Amrica Latina se organize.
Pergunta  Como Cuba v, dentro desse ponto de vista, a criao de um organismo dos produtores de 
acar semelhante  OPEP?


126
Carlos Rafael Rodriguez  ~Ns estamos participando no grupo de pases latino-americanos que est 
organizando a Associao de Produtores de Acar. Acreditamos que esse pode ser o inicio de uma organizao 
mais ampla, que inclua produtores de outros continentes. Claro, a Amrica Latina, com Cuba e o Brasil como 
parte dessa entidade, representa uma posao exportadora muito forte. Consideramos isso parte de uma luta que 
se est realizando agora e que tem condies para liquidar o intercmbio comercial desigual. Ns acreditamos 
que essa  uma batalha comum, e para isso temos que unificar nossas foras. Para isso  necessrio que os pases 
produtores de petrleo, ligados aos no-alinhados, dem passos mais decididos quanto  ajuda a seus amigos e 
irmos no-produtores subdesenvolvidos. Porque a h a obrigao histrica e moral por parte dos produtores de 
aplicar uma decisiva poltica de ajuda. Uma vez unificadas nossas foras e defendendo o petrleo, o cobre, o 
acar, a bauxita e outras matrias-primas, criaramos um equilbrio nas relaes econmicas internacionais, 
uma nova ordem econmica. Diramos tambm que se as grandes potncias capitalistas analisam isso a fundo, 
seria conveniente at para elas. Porque o que se prev agora  uma crise catastrfica. Se o mundo 
subdesenvolvido no se desenvolve, e o petrleo continua caro e os grandes exportadores capitalistas no tm a 
quem vender e continuam vendendo s entre eles  ento a bancarrota do sistema capitalista  inevitvel. 
Como comunista, me agradaria muito ver isso. Mas no deixo de compreender  e tenho dito isso em foruns 
internacionais  que seria uma catstrofe para mlhoes de homens tambm.  preciso buscar uma via menos 
catastrfica  e a se insere esta valorizao das matrias-primas dos nossos pases.

 r Pergunta  H uma corrente no Brasil, liderada por empresrios mais pragmticos, que defende a 
reaproximao comercial com Cuba. Como o governo cubano v essa possibilidade, ainda que no venham a 
existir, simultaneamente, relaoes diplomaticas entre os dois pases?

Carlos Rafael Rodrigues  Ns acreditamos que essa possibilidade existe. E temos tido notcias de 
que alguns grandes empresrios brasileiros tm feito inclusive formu]aes ao governo quanto s relaes, tm 
falado do atraso em relao  Argentina e outros tpicos desse tipo. Naturalmente, no cremos que 
necessariamente as relaes comerciais entre nossos



127
dois pases tenham que estar subordinadas s relaes diplomticas  isso j acontece com Cuba e outros pases. 
At temos dito que se os Estados Unidos querem comprar nosso acar e vender muitas coisas que ns 
poderamos comprar. antes que haja relaes diplomticas, tambm aceitaramos. Quer dizer, no vemos 
impedimento.
Pergunta  Como o senhor v o futuro da economia cubana diante da crise econmica e energtica que 
hoje afeta o mundo e, em especial, os pases industrializad os?

Carlos Rafael Rodriguez  Eu vejo isso com uma grande confiana e com muita segurana. Em 
primeiro lugar, por um dos problemas que voc mencionou e que no nos afetar:
o        problema energtico. Ns temos resolvido  e de uma maneira favorvel  o fornecimento de 
petrleo para Cuba at 1980, atravs de acordos com a Unio Sovitica. De modo que esse fator 
inquietante, que ocasiona distrbios profundos na balana de pagamento de pases no produtores de 
petrleo, no tem para Cuba maior significao. No posso deixar de lhe dizer que no creio que uma 
crise do sistema capitalista, dos pases ocidentais, deixe de afetar os projetos de desenvolvimento de Cuba. 
Porque naturalmente no se pode pensar, em meio a uma bancarrota econmica como a de 1929, em 
possibilidades de preos do acar como os que temos hoje, de crditos a longo prazo como os que nos esto 
oferecendo. De modo que nosso desenvolvimento seria naturalmente atrasado por essa crise. ~ claro que o 
centro de nosso desenvolvimento est na colaborao com os pases socialistas. Mas tambm eles se vero 
afetados, porque a economia tem-se internacionalizado tanto que muitos projetos tecnolgicos dos pases 
socialistas esto vinculados a projetos em que a tecnologia capitalista tem um papel importante. De modo que, 
ainda que 70 por cento dos nossos projetos estejam ligados aos pases socialistas, os outros 30 por cento 
referem-se sobretudo a fbricas e equipamentos de tecnologia de que o campo socialista ainda no dispe. 
De maneira que ns seramos uma espcie de privilegiados num mundo onde os demais se afogam e tambm 
nos arrastam um pouco ao fundo, ao afogar-se. Subsistiramos, nos desenvolveramos, avanaramos, 
mas no ao ritmo que estvamos prevendo,  evidente. Esse  um diagnstico de um velho 
apaixonado por Economia.~~




128





129
*IIWI
Logo aps o triunfo da Revoluo, em 1959, Fidel Castro mantinha multides de p por at nove horas ininterruptas, ouvindo 
seus discursos polticos. Hoje, o presidente cubano  menos torrencial, mas o interesse das massas  o mesmo.
























Cuba ps-revolucionria: acima, a capital vista das varandas do Restaurante La Torre.  direita, acima, os asspticos dor-
mitrios do hospital psiquitrico de Havana, e, embaixo, o antigo palcio de Fulgncio Batista, guardado pelo tanque com 
que Fidel Castro afundou o navio americano Houston, na frustrada tentativa da invaso da baia de Porcos, em 1961.










130


j







1


131












Acima,  esquerda, um inacreditvel monumento  submisso de Fulgncio Batista colonizao americana: 
uma rplica do Capitlio, mandada construir pelo ditador para instalar a Assemblia Nacional (onde, hoje, 
funciona a Academia de Cincias).  direita, acima, cartazes de filmes e shows espalhados por toda Havana. 
Ao lado, um dos orgulhos da Revoluo: a Escola Vocacional Lnin, que possui uma capacidade para 4 500 
estudantes  de onde saem desde bolas e tacos de beisebo at computadores eletrnicos.















132
Desenvolver a cria~o artstica, uma preocupaao permanente:  
esquerda, pacientes do hospital psiquitrico transformam caixas de 
charutos usadas em estojos. Abaixo, o muralista Ren Portocarrero
que, como qualquer artista, recebe
salrios do governo para pintar quadros. Aos domingos ( direita), as 
praas s~o transformadas em feiras de
arte, onde o Estado
vende as inmeras obras e,postas.
134

















4

o

2
z
4
z
w

1/,
o
1-







135































136
Uma das, testas mais populares em Cuba: o Dia do TrabuIho. A parada e aberta por exilados carregando bandeiras
de seus paises (6rasil, inclusive). Um reflexo do socialismo tropical (embaixo): a participao popular lembra 
mais um grupo de sambistas do que propriamente uma parada militar.














1 ii 1
1:
fryJ
?1
a





Tcnicas publicifrias a ser ou personalidades ilustres enormes Out-doors Como chegada a Playa Girn, c























vio da Revo~uo. grandes eventos so saudados em Cuba atravs de o da fofo abaixo, que indica a orao da famosa 
baa de Porcos.













139
r
Cuba tem aparecido como uma qn~ rda curpresa das ltimas Olimpadas e Jogos Pan~Americancs, ao disputar os primeiros 
lugares com as grandes potncias. O desenvolvimento do esporte amador, no pas, surge aos olhos do visitante como uma 
verdadeira obsesso nacional: at os pacientes do hospital psiquitrico (fotos acima,  esquerda, e abaixo  direita)

recebem treinamento peridico de basouate, vlei e futebol.

1
140







p

o






o











1















A responsabilidade do Estado pela educao do cidado comea aos 42 dias de vida  idade em que uma criana pode ser 
colocada num berrio, durante o dia (desde que a me trabalhe). E s vai terminar ao final da ps-graduao. Abaixo,  
direita, cubanos recebem turistas no porto de Havana.











142
y .~.





o
2

g
z ~
        w        -


o
1 1

UNIYFRSiD~11f DE ~~MS flO S!J~
        r~ TD 1
        LI ai..~        ~
L











144
o

-        - -
z        -
z
                        -
        1        -
o
Fidel circula pela cidade, ele prprio pilotando seu jipe, levando apenas um soldado como acompanhante. s vezes ele some 
por dois, trs dias do palcio, para aparecer de surpresa numa fbrica do interior  ou num campo de beisebol
ENTREVISTA


Ele s no sabe danar e cantar, dizem de Fidel Castro, quase invariavelmente, os cubanos. E  com 
orgulho que revelam, com insistncia, que o presidente cubano, aos SO anos,  capaz de nadar como um 
rapaz de 20 anos, ou jogar basebail como os melhores astros do pas. H mais: poucas vezes Fidel teria 
perdido um primeiro lugar em concursos de caa submarina  mesmo depois de sua subida ao poder, com a 
conseqUente escassez de horas livres para treinos. E, com um bom fuzil na mo, continuam, sabe 
despedaar um abutre em pleno vo, at a 300 metros de altura. Como se tudo isso no bastasse, garantem 
que Fif o  como o chamam os amigos mais chegados   um excelente cozinheiro, capaz de preparar um 
prato de mariscos de vinte maneiras diferentes.

Diante da figura de Fidel Castro, pode-se constatar que suas decantadas proezas atlticas talvez no 
sejam exageradas. Beirando os 2 metros de 
altura e com 100 quilos de peso, os primeiros 
fios brancos na barba so alguns dos poucos 
sinais de que ele j no  mais o jovem 
guerrilheiro da dcada de 50 na Sierra 
Maestra. Mas a indispensvel participao 
cubana na guerra de Angola comprovou que 
seus dotes de estrategista militar ainda so os 
mesmos da memorvel campanha que 
derrubou Fulgncio Batista do poder em 
Cuba, em 1959. Durante o final de 1975 e os 
primeiros meses de 1976, Fidel dirigiu, de seu 
gabinete em Havana, debruado sobre um 
mo145
numental mapa de Angola, os movimentos militares de seus milhares de soldados (dez mil? quinze mil?) que 
ajudaram o Movimento Popular de Libertao de Angola a expulsar as tropas da Unita, da FNLA, do Zaire e 
da frica do Sul e levar Agostinho Neto ao poder.
De sua vida pessoal, sabe-se muito pouco em Cuba. No h no pas uma nica biografia oficial de Fidel 
Castro, e seus amigos insistem em manter o assunto envolto em mistrio aparentemente a pedido do prprio 
presidente( *) cubano, que manini wna invencvel oleriza - pelo - culto  personalidade. Fidel no sees4uece 
do exemplo de Mao, dizem sempre seus assessores. Para que saber quem era sua mulher, como se chama seu 
filho?, indagava um homem de sua confiana. Por que voc no leva informaes sobre como ele dirigiu 
daqui, de Havana, os combates dos cubanos em Angola? Isso  mais importante.

No passado mais remoto  possvel encontrar aiguns pou~ cos dados_seguros. Filho de ricos taze,izdeiros 
dqprovncia de Oriente, Fidel mudou-se para Havana_aos 17 anos, para estudar Direito. E aos 20 anos casou-
se com Mirta. cgm quem teve u,ukzico4llha~?Fideliro~,. nascido em 1947. Como viveria hoje o filho do 
presidente cubano? A recomea omistrio. Segundo 2vensomais-corrent~. o rqpqzi teria se formado em 
engenharia qumica na A I~manha Oriental  eJzoj vv& -ria em Havana com nome falso, por razes de 
segurana e para evitar que a sombra do pai acabe criando facilidades constrangedoras  sua vida.

Outro dado mais ou menos conhecido  o de que o casamento de Mirta e Fidel_terminou em 1953. E, 
depois dissoL no se sabe de nenhuma mulher que, oficia1m~.nte, lenha passado pela vida de Fidel. A 
jornalista Brbara Walters, da Televiso ABC, dos Estados Unidos, a propsito, durante uma entrevista 
realizada em maio, chegou a perguntar-lhe se era verdade que ele mantinha relaes ntimas com Clia 
Sanchez, de 40 anos, sua ex-companheira de guerrilha e hoje membro

(*)        Com as mudanas institucionais ocorridas em Cuba, em dezembro de 1975, por ocasio do 1.0 Congresso do PCC, 
Castro passou a ocupar os cargos de presidente do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros, e manteve seu 
posto anterior de comandante-chefe das Foras Armadas Revolucionrias. No existe mais o cargo de presidente da 
Repblica, at ento ocupado por Osvaldo Dortics.


146
do Secretariado Geral do Partido Comunista Cubano. Em quatro horas de entrevista com Brbara, esse foi o 
nico momento em que Fidel pareceu perder o bom humor.  surpreendente que uma jornalista importante 
como a senhora d ouvidos a esse tipo de futricas, respondeu com ar srio. Pergunta e resposta foram 
cuidadosamente retiradas de ambas as cpias do vdeo-tape  a exibida em Cuba e a que Brbara Walters 
mostrou para os telespectadores americanos.

A amizade de Fidel com Gina Lollobrigida  que esteve em Cuba vrias vezes, realizando trabalhos 
fotogrficos para publicaes europias  tambm chegou a acender a imaginao dos caadores de gossips da 
imprensa americana, h alguns anos. Mas as insinuaes de que teria havido um romance entre os dois so at 
hoje desmen tidas com veemncia e mau humor em Cuba. De Lollobrigida, aparentemente, Fidel guarda 
apenas uma lembrana identificvel: um pesado relgio de pulso, digital, de quartzo, que ela lhe deu de 
presente e que veio substituir os dois velhos Omega que ele usava simultaneamente, no mesmo brao, durante a 
guerrilha e nos primeiros anos de governo.

Quanto a esse velho e inslito hbito de usar dois relgios, os amigos de Fidel dizem que ele era 
obsessivo com a pontualidade e que tinha medo de que um dos dois parasse. Por isso, usava dois. Mas a 
verso no  de todo convincente. Pelo menos os jornalistas estrangeiros que conseguiram entrevist-lo no 
sero a melhor testemunha da pontualidade do presidente cubano. Saul Landau e Frank Mankievsy, por exem-
po, dois americanos que estiveram em Cuba h poucos anos, passaram trs meses enfurnados num quarto do 
Hotel Habana Livre,  espera de que Fidel os recebesse. Simon Malley, diretor da revista Afrique-Asie, que o 
entrevistou no primeiro semestre deste ano, teve mais sorte: esperou apenas um ms. Destino igual teve Andr 
Fort, correspondente em Cuba do dirio francs LHumanit, rgo oficial do Partido Comunista Francs  
couberam-lhe trinta dias de espera. Eu prprio passei sessenta dias num apartamento do Hotel Nacional at 
que pudesse finalmente falar com Fidel Castro. A seguir, o resultado dessa entrevista, feita com exclusividade 
para a revista VEJA em junho de 1977:




147
PERGUNTA  Altos funcionrios do Departamento de Estado, em Washington, disseram a VEJA que 
Cuba estaria disposta at a retirar suas tropas de Angola, depois do fim do bloqueio econmico. O senhor 
confirma essa informao?

CASTRO  Na realidade eu no li nenhuma declarao desse tipo, talvez porque no nos cheguem todas 
as publicaes. Mas, em todos os pronunciamentos pblicos que temos feito, deixamos bem definido que a 
questo da nossa solidariedade com Angola, ou com outros pases da frica, no pode ser objeto de 
negociao. A verdade  que no seria moral, no seria digno, da nossa parte, renunciar  nossa solidariedade 
em troca de benefcios para Cuba. Uma troca de princpios? Isso no faremos nunca. Cuba nunca 
renunciar a um princpio de solidariedade por uma questo de interesses nacionais.

~        PERGUNTA  Toda uma gerao de cubanos vem ouvindo, de seu prprio governo, que o grande 
inimigo de Cuba est a 90 milhas de distncia  isto , o inimigo so os Estados Unidos. Como o senhor cr que 
essa gente interpretar um possvel reatamento de relaes de Cuba com os Estados Unidos?

CASTRO  Veja uma coisa: voc est aqui h vrios dias e certamente pde perceber que, 
durante todo esse tempo, saram vrias notcias a respeito da mudana de atitude dos Estados Unidos 
em relao a ns, e de certos passos que foram dados no sentido do melhoramento das relaes. Do nosso 
ponto de vista, no se trata de uma reaproximao com os Estados Unidos, mas de um princpio. No 
somos inimigos da paz nem somos inimigos da distenso. Acreditamos sincera-mente que o mundo de hoje no 
 o mundo do arco e da flecha, da armadura e do arcabuz. O mundo de hoje  um mundo de armas de 
destruio macia, das armas nucleares, onde a tecnologia militar se desenvolveu tanto que 
transformou a guerra em algo praticamente impossvel. Acreditamos que a histria do mundo tem que 
ser dividida em duas partes: antes e depois da era nuclear. Me parece que quem no compreende a 
realidade desse mundo de hoje  um indivduo inteiramente incapacitado para qualquer 
responsabilidade poltica. De modo que isto est na base de nossas atitudes. O mundo de hoje tem 
muitos problemas, grandes problemas, e se no se pode resolv-los pela guerra, ser preciso resolv-
los atravs da paz.


148
~- PERGUNTA  Mas e as relaes com os Estados Unidos?
CASTRO  Desse ponto de vista, se ns pudermos colocar um grozinho de areia a favor da paz, 
ns o faremos. De maneira que, se num determinado momento, as relaes entre Cuba e os Estados 
Unidos melhoram, no campo econmico e no campo diplomtico, creio que estaremos colocando o gro-
zinho de areia em favor da paz e da distenso no mundo. Isso no significa que ns, nem de longe, vamos 
renunciar aos nossos princpios marxistas-leninistas, aos nossos princpios socialistas. Como 
tambm presumo que os Estados Unidos no vo renunciar a seus princpios capitalistas pelo 
fato de que venham a ter relaes conosco. Dentro de uma poltica de normalizao de relaes, 
seguramente eles conseguiro exercer alguma influncia sobre ns  mas  certo que ns tambm 
exerceremos alguma influncia sobre eles. Ai ns veremos qual das duas sociedades est mais 
preparada politicamente e, em sntese, qual delas est mais preparada para viver em paz.

PERGUNTA  Mas e os jovens? Como o senhor pensa
que eles reagiro?

CASTRO  Ns temos um povo que recebeu uma grande educao poltica. Nosso povo 
compreende que no h absolutamente nenhuma contradio entre seus princpios e a poltica 
de paz. Talvez os Estados Unidos, sim, tenham problemas, porque l a gente no entende 
perfeitamente bem essas questes do mundo de hoje.

~        PERGUNTA  Por que o senhor diz que s haver relaes entre Cuba e os Estados Unidos no 
segundo mandato de Jinuny Carter?

CASTRO  Quando digo que a reaproximao ainda vai levar tempo,  porque quero ser 
realista. Para que melhorem
as relaes com os Estados Unidos eles tm que comear por entender que ns temos nossos princpios e 
que no podemos ser desleais a nenhum deles. Quando se fala dos cubanos na frica, ningum se 
lembra da crescente ajuda civil que Cuba oferece aos pases do Terceiro Mundo. Sempre se coloca 
nfase na ajuda militar  uma ajuda que esses pases nos pedem. Pedem assessores, tcnicos, instrutores, 
e  um direito do nosso pas oferecer essa ajuda a povos que querem ter uma vida independente. 
Seria absurdo, por exemplo, que ns co-


149
locssemos, como pr-requisito para ter relaes com os Estados Unidos, que eles retirassem suas tropas da 
Turquia, da Europa Ocidental, de Okinawa, da Coria, de Taiwan, das Filipinas e das dezenas de pases 
onde eles tm instrutores militares  e tropas. Eu me pergunto: por que eles tm que exigir que retiremos 
nossos tcnicos ou instrutores ou at mesmo unidades militares que tenhamos em qualquer pas? Foi dentro de 
um contexto do Direito Internacional que esses pases nos pediram esse apoio militar. ~ engraado: pedem-nos 
para retirar nossas tropas da frica, como pr-condio, enquanto em nosso prprio territrio, na base de 
Guantnamo, temos milhares de soldados americanos, que esto aqui contra nossa vontade.

PERGUNTA  E se todos se retirassem de todos os lugares?

CASTRO  Veja bem: eu no estou fazendo uma proposta a eles, algo do tipo retirem-se daqui e ns 
nos retiraremos de tais lugares. Nada disso. O pessoal militar que temos em alguns pases est ali em 
virtude de acordos com aqueles governos  e para ns esses acordos so sagrados. Isso depende apenas da 
vontade de Cuba e desses pases, no algo que se possa discutir com terceiros. Agora eu vou lhe dizer 
sinceramente: ns preferiios mandar mdicos que mandar soldados. Porque entendemos que o 
mdico  muito mais construtivo  no que o soldado no o seja. Em determinadas circunstncias, por 
exemplo,  o soldado que salva a independncia. Mas, se prevalecesse o princpio de respeito  soberania dos 
pases, os soldados no fariam falta. No precisaramos sequer de exrcWos! Os Estados Unidos no entendem 
muito bem essas coisas, porque tm uma viso unilateral dos prob]emas, no entendem corretamente a 
igualdade entre as naes, os governos e os povos. De modo que as dificuldades partem deles, no de 
ns.

PERGUNTA  E quando houver relaes, no importa em que ano ser, como ficar a situao dos 
cubanos residentes nos Estados Unidos que queiram, por exemplo, visitar seus Iamiliares em Cuba? isso ser 
permitido?

CASTRO  Bem, eu entendo que essa gerao de cuba-nos que nasceu l, ou que foi para l 
muito jovem, eu imagino que eles no pensem exatamente igual a seus pais. Claro que receberam a 
influncia da sociedade em que vivem  e


150
alguns pais tiveram que lamentar certamente que seus filhos tenham sido criados nessa sociedade. 
Muitos j devem estar pensando como americanos e talvez nem se lembrem de Cuba. E h muitos que 
tm um pensamento mais progressista do que o de seus pais. De modo que, enquanto as relaes no 
se tenham normalizado,  difcil que existam as condies para abrir as portas de Cuba a esse intercmbio 
de visitas. Penso que, quando houver relaes, se criaro as condies para que se possa viabilizar 
alguma forma de intercmbio dessa ndole. Disso ns no temos medo: nem de visitas nem de turistas. 
No criaremos obstculos a quem, de boa f, queira visitar Cuba, visitar sua famlia, ver a Cuba de hoje. 
Mas a, sim, voc compreender que existem pr-requisitos: que existam relaes normais, que no existam 
mais campanhas de terrorismo, de contra-revoluo, de sabotagem, agentes da CIA. Agentes da CIA 
no estamos dispostos a receber nunca. Invasores? No queremos receber nunca.

PERGUNTA  O recente acordo pesqueiro assinado entre Cuba e os Estados Unidos parece ser muito 
benfico a seu pais e, portanto, um gesto de boa vontade do governo americano para com os cubanos. Nesse 
lento logo de xadrez, qual ser a prxima pea a ser movida por Cuba?

CASTRO  No h dvida de que o atual governo dos Estados Unidos tem uma posio diferente da 
dos governos anteriores. Eisenhower e seu vice Nixon, Kennedy, Johnson, Nixon como presidente e 
Ford estavam comprometidos com uma poltica de hostilidade a Cuba. Este  o primeiro governo dos 
Estados Unidos, nos ltimos dezoito anos, que no est comprometido com aquela poltica. E efetivamente 
este governo tem tido gestos que ns apreciamos. Imediatamente depois da posse de Carter, foram 
suspensos os vos de espionagem sobre nosso pas, um fato que se produzia com muita freqilncia  
um negcio sumamente irritante. O governo dos Estados Unidos, alm disso, suspendeu a proibio que 
impedia os cidados de seu pas de viajarem a Cuba. Com isso se restitutiu ao cidado americano um 
direito, o de ir aonde quiser. Por outro lado, h manifestaes expressando a disposio de trabalhar, de 
buscar, de estudar as possibilidade de melhoria nas relaes com Cuba. Para dizer a verdade, nenhum dos 
governos anteriores dos Estados Unidos tinha falado nesses termos.


151
PERGUNTA  Isso foi uma surpresa para o senhor?

CASTRO  Mesmo antes da posse de Carter, ns j havamos apreciado algumas declaraes de 
membros da equipe do novo presidente, ou dele prprio, como a disposio para discutir com o 
governo do Panam e encontrar uma soluo para o problema do canal. E h, tambm, matizes que 
diferem este governo dos anteriores com relao ao apartheid e sobre os problemas da frica Austral. 
Sinceramente, segundo nosso julgamento, os governos de Ford e Nixon eram aliados desses governos 
racistas  e eu nunca poderia dizer o mesmo do governo de Carter. Mas  preciso esclarecer que as posi-
es do atual governo no so radicalmente opostas s dos anteriores, apenas matizadamente opostas. 
Voc fala concretamente da questo da pesca, como se fosse um acordo benfico a Cuba. Veja, nosso pas 
vem pescando historicamente nesses mares a que se refere o acordo. E extraia desses mares
        que eram internacionais  alimento para nosso povo. Num determinado momento os Estados 
Unidos, unilateralmente, ampliaram suas guas de preferncia econmica, e no as jurisdicionais, e 
as transformaram em zona econmica exclusiva dos americanos. Ns acatamos essa determinao, 
mas mostrando sempre a disposio para discutir. Porque tnhamos duas atitudes a tomar: seguir 
pescando ali ou discutir. E ns tivemos uma atitude construtiva. Agora, se o acordo  benfico, isso ns 
ainda no sabemos. Simplesmente porque no sabemos que quantidade de peixe poderemos capturar 
nessas guas. Eu diria que mais benfica para ns era a situao anterior, quando aquelas guas eram 
internacionais.

PERGUNTA  Mas, mesmo que o acordo no seja tecnicamente benfico a Cuba, parece evidente que 
ele reflete um gesto poltico dos Estados Unidos. Cuba retribuir isso de agwna maneira?

CASTRO  Estou de acordo com voc. Reflete um gesto dos Estados Unidos. Eles so um pas grande, 
poderoso, e se declaram essas guas como preferenciais, tm a possibilidade, com sua frota e suas armas, 
de impedir que qualquer outro pas pesque ali. Os governos anteriores nos trataram de maneira 
discriminatria, com um esprito de fora imperial e prepotente. O fato de o atual governo ter levado 
em conta nossos direitos histricos nos parece um gesto positivo.


152
PERGUNTA  Sim, mas a partir da Cuba dar algum passo rumo  distenso?

CASTRO  A cad gesto deles, ns temos retribudo com outro gesto. Para responder  
suspenso dos vos de espionagem no podamos fazer nada, j que nossos avies no violavam o 
espao areo americano. Mas  autorizao para que americanos visitassem Cuba respondemos dando 
permisso para que os turistas entrem aqui. Ao acordo pesqueiro respondemos discutindo com eles e 
aceitando o princpio estabelecido. A partir do acordo pesqueiro e das visitas de turistas, foi proposta 
a criao de um escritrio de interesses americano em Cuba e um semelhante, cubano nos Estados 
Unidos. Foram eles que propuseram essa idia, e ns concordamos.

PERGUNTA  E os presos americanos que Cuba libertou  isso pode ser interpretado como parte dessa 
poltica de aproximao?

CASTRO  Sim. Ns colocamos em liberdade um certo nmero de cidados americanos que 
estavam presos aqui por diversos delitos. Voc me pergunta pelos prximos passos e eu lhe digo: me 
parece que os prximos passos agora correspondem a eles. Porque a entra uma situao muito especial. Ns 
passamos quinze anos sob um frreo bloqueio econmico, que ns consideramos como um ato agressivo e 
hostil ao nosso pas. Esta poltica, eu sei, no provm da atual administrao dos Estados Unidos, mas 
de anteriores. De toda forma, penso que  um dever elementar, uma obrigao moral dos Estados 
Unidos suprimir o bloqueio econmico contra nosso pais  gesto com o qual indiscutivelmente 
melhorariam sua imagem no mundo. No podemos fazer gestos de boa vontade a, porque no temos 
um bloqueio econmico contra os Estados Unidos. Mas que no venham com suspenso parcial do 
bloqueio, porque isso no significa nada para ns.
~- PERGUNTA  O fim do bloqueio seria pr-condio para o reatamento?

CASTRO  O bloqueio  um fato injusto, arbitrrio, que viola a liberdade do comrcio to 
defendida pelos prprios americanos. Eu 
me lembro de quando os pases rabes 
estabeleceram um embargo petrolfero 
contra os Estados Unidos. Eles 
protestaram e se queixaram amargamente 
ante a opinio pblica mundial. Eu me 
pergunto: com que moral eles po153

>YNIVfISf~LIf DE U~1fiS 110 SUL
~WU~K.; CURaM


dem condenar o embargo petrolfero, se h mais de quinze
anos eles mantiveram Cuba sob um bloqueio no parcial, como
o        do petrleo, mas total? Ento eu insisto: o prximo passo
 deles. E repito uma vez mais: o fim do embargo tem que
ser total.
PERGUNTA  Mas por qu? A supresso parcial no

seria um avano?

CASTRO  No. Se suprimem o embargo apenas para poderem 
vender e ns s podermos comprar, no compraremos absolutamente 
nada dos Estados Unidos. Isso criaria uma situao irritante, que a 
nosso povo soaria como algo indigno e discriminatrio. S a 
supresso total do embargo criaria condies para que se pudesse falar 
de uma melhoria das relaes entre Estados Unidos e Cuba.

PERGUNTA  O senhor fala da nova administrao americana, 
mas nunca se refere ao presidente Carter, que quem a inspira. E o senhor 
disse h poucos dias que no se pode comparar Carter a Nixon. O que 
significa isso?

CASTRO  Eu penso que Nixon era um farsante, um indivduo 
sem tica de qualquer natureza. E no penso o mesmo de Carter. 
Acredito que ele tenha uma etca baseada essencialmente em sua 
formao religiosa. E por seus pronunciamentos, ele me d a impresso 
de ser um homem sincero. Isso no significa que eu no possa estar 
equivocado. Por exemplo: no estou seguro de que compreenda os 
problemas do mundo atual, especialmente os do mundo 
subdesenvolvido. No estou seguro de que ele compreenda que h 
milhes e milhes de pessoas que esto passando fome no mundo 
atual, em consequncia do subdesenvolvimento e do intercmbio de-
sigual. Tambm no estou seguro de que ele compreenda que a 
questo mais importante no que se refere aos direitos humanos  o 
estado de misria, de fome, de desnutrio e de enfermidades de que 
padecem milhes e milhes de pessoas no mundo subdesenvolvido. E 
no estou absolutamente seguro de que Carter compreenda a 
importncia que existe no fato de se reduzir os gastos militares, evitar 
a corrida armamentista e avanar por um caminho de paz. Isso  vital 
para todos os pases, porque enquanto as grandes potncias se sentam 
sobre montanhas de armas, o mundo se transforma numa montanha de 
problemas. No estou certo, assim, de que Carter compreenda todos 
esses problemas. Mas isso, sim, estou conven154
cido de que ele no  um Nixon, de que no  um farsante, de que tem uma tica pessoal.

PERGUNTA  E do embaixador americano na ONU, A ndrew Young, que pensa o senhor? Como 
interpretou suas declaraes no sentido de que a presena cubana na frica um fator de estabilidade 
poltica?

CASTRO  Eu penso que Young quis dizer que a poltica de Cuba na frica no  uma poltica 
negativa. E creio que ele tem razo. Um homem como Young pode entender perfeitamente que ns 
no fomos  frica lutar pelo apartheid, mas contra o apartheid. No fomos lutar a favor, mas contra a 
discriminao racial. Nossos soldados foram os primeiros soldados de um pas no africano a 
enfrentar os soldados racistas e fascistas da frica do Sul, como fizeram na guerra de Angola. Andrew 
Young pode compreender perfeitamente que ns no vamos  frica defender, mas combater o colo-
nialismo. E que no fomos nem vamos  frica em busca de fontes de matrias-primas, ou mercados, ou 
inverses. O que eu entendo, portanto, dessas declaraes,  que ele percebe, de certo modo, que nossa poltica 
africana no est inspirada em egosmos nacionais nem em interesses econmicos, mas em princpios de 
solidariedade. Por outro lado, com todos os governos com os quais temos relaes, temos sido muito escru-
pulosos, muito respeitosos e muito leais. Nenhum dos governos amigos da frica poder dizer jamais que ns 
deixamos de cumprir algo com que nos houvramos comprometido, ou que tenhamos violado um s princpio 
de sua soberania. Voltando a Young, eu digo que sua declarao  justa. E ele disse umas tantas outras coisas 
com as quais simpatizo e estou de acordo  e eu sei que essas declaraes j lhe criaram algumas 
dificuldades internas nos Estados Unidos. Mas quan.do ele diz que o regime da frica do Sul  
ilegtimo, do meu ponto de vista disse uma grande verdade. E quando disse tambm que a Inglaterra 
havia sido a me do racismo, do meu ponto de vista  e com todo o meu respeito pelo povo ingls
        digo que  verdade. No estou de acordo com todos os pronunciamentos de Young, mas 
simpatizo com alguns deles. E sobretudo simpatizo com sua valentia para tornar pblicas suas idias.

PERGUNTA  O senhor tem notcias de como o desempenho de Young tem repercutido entre os 
africanos?


155
CASTRO  Eu creio que ele  um homem que, na ONU, no tira prestgio, mas d prestgio aos 
Estados Unidos. Seu pas no perde com isso. Os Estados Unidos j tiveram outros homens nesse cargo que 
nem de longe puderam significar um avano para a poltica internacional. Eu sei, por exemplo, que 
Young  observado com muito interesse pelo africanos. Claro, no vamos querer que Young pense 
como ns, ou como o governo de Angola, ou como os homens dos movimentos de libertao de 
Zimbabwe, da Namibia e da frica do Sul. Mas ele fez pronunciamentos que mereceram o 
reconhecimento e o respeito da gente honesta do mundo. Ainda que essa gente no esteja de acordo com 
tudo o que ele diz.
PERGUNTA  Que pensa o senhor da poltica de direitos hwnanos defendida pelo presidente Jimmy 
Carter?

CASTRO  Bem, eu j lhe disse: ningum pode estar contra o conceito de direitos humanos. Mas 
responda-me:
qual  a situao mais trgica e mais dramtica do mundo atual? a fome, a misria, as doenas, a 
desnutrio, o subdesenvolvimento. E quem so os culpados por essa situao? O colonialismo, o 
capitalismo  inverta a ordem, o capitalismo vem em primeiro lugar  e o imperialismo. Dentro de suas 
prprias fronteiras, o capitalismo aqui significou o vcio, o jogo, a prostituio, a discriminao do 
negro, o extermnio do ndio, como ocorreu nos Estados Unidos, a conquista de territrios, como 
tambm ocorreu com os Estados Unidos em relao ao Mxico. Restou ainda esse esprito de raa 
superior, que uma das mais repugnantes violaes dos direitos humanos. Repito: voc pode conceber algo 
mais degradante que a prostituio? Alm disso, h o desemprego e, essencialmente, a explorao do 
homem pelo homem. Penso, portanto, que ningum, de um pas capitalista, tem autoridade para falar de di-
reitos humanos.

PERGUNTA  Mas isso significa que o senhor, ento, no concorda com a poltica do presidente 
Carter?

CASTRO  Uma poltica consequente de defesa dos direitos humanos teria que colocar em 
primeiro lugar o fim da corrida armamentista, o estabelecimento de um clima de paz no mundo, a 
resoluo dos problemas de milhes e milhes de pessoas que vivem no subdesenvolvimento. Essa 
seria a questo nmero um. Se o presidente Carter, quando fala


156
de direitos humanos, quer dizer que os Estados Unidos no vo continuar promovendo regimes 
fascistas no mundo, ao estilo do Chile, ento nos alegramos. Porque os Estados Unidos, nos ltimos 
trinta anos, foram o padrinho e o pai de quantos regimes reacionrios, corrompidos, sangrentos, 
fascistas e repressivos existam no mundo.

PERGUNTA  O subsecretrio de Estado, Terence Todman, depois de passar alguns dias em Cuba, 
declarou, em visita ao Brasil, que h 15 000 presos polticos aqui. O que o senhor tem a dizer a esse respeito?

CASTRO  Olhe, em Cuba h presos polticos. Inclusive h alguns milhares. No vou lhe dizer 
que h trs presos. Deve haver uns 2 000 ou 3 000 presos polticos. Em certo momento houve em Cuba 
uns 15 000 presos polticos. Ou mais  posso lhe dizer que houve um pouco mais de 15 000. Isso foi nos 
dias da invaso de Girn ( *) Que amos fazer? Bom, tivemos que met-los na cadeia. A cada ms ocorriam 
dezenas de desembarques clandestinos de armas em Cuba. Os Estados Unidos, com todo o seu poder 
militar e seu poder econmico, a CIA, com todo o seu poder tcnico e cientfico, lutavam abertamente 
contra ns. Organizaram ataques piratas, organizaram dezenas de movimentos contra-revoucion rios 
em nosso pas, apoiando-se na influncia que tinham tido antes e nos contatos que tinham tido com os 
dominadores da nossa ptria. Foi nessa poca que tivemos 15 000 presos polticos. Tivemos que prend-los, 
e tivemos que submeter alguns a penas severas, longas. Isso  verdade, sim. Agora, o que nunca 
ocorreu em nosso pas foram as torturas. Voc nunca soube de algum que tivesse denunciado torturas 
aqui. Nunca houve um s caso de tortura aqui. Por qu? Porque desde nossa luta nas montanhas contra 
Fulgncio Batista inculcamos em nossos combatentes uma conscincia de dio  tortura.

PERGUNTA  E que diz o senhor do tratamento dado aos inimigos depois que os rebeldes chegaram ao 
poder?

CASTRO  Quando triunfou nossa revoluo, aqueles que haviam assassinado milhares de nossos 
compatriotas, e os que haviam torturado dezenas de milhares de cubanos, esses

(*)        Praia Girn  o ponto da baa de Porcos onde se deu a fracassada Invaso anticastrista de abril de 1961



157
ns julgamos segundo as leis revolucionrias, em tribunais revolucionrios. E os maiores criminosos, 
os responsveis pelos casos mais graves de torturas e maus-tratos, foram condenados e fuzilados. Nunca 
negamos isso. Dissemos ao povo que no queramos vingana, que no queramos gente arrastada pelas 
ruas nem edifcios saqueados. Queramos ordem. Mas tinha que haver Justia. Depois surgiram os presos 
orginrios da luta aberta entre Estados Unidos e Cuba. Bom, e por que esto presos? Voc quer prova 
melhor que o caso da praia Girn? Voc quer caso de crime maior do que invadir seu prprio pas enviado por 
uma potncia estrangeira? Que fizemos? Bom, entre eles havia velhos criminosos que haviam escapado das 
primeiras refregas. Esses receberam o peso das leis revolucionrias. Mas que fizemos com a grande maioria dos 
presos em Girn? Ns os colocamos em liberdade. Imaginamos uma frmula  isso fomos ns que 
inventamos, no foram os Estados Unidos  para dar um destino a toda essa gente. No queramos deix-
los indefinidamente presos. Estabelecemos, ento, que estvamos dispostos a coloc-los em liberdade 
se os Estados Unidos pagassem uma indenizao, coisa que acabaram aceitando. (*) O que eu posso 
assegurar que em nosso pas nunca, em dezoito anos, nunca um preso foi torturado. No h exceo 
a essa regra. Neste pas no h um nico caso de preso poltico que tenha desaparecido. No importa o que 
diga a comisso de uma instituio to pestilenta, corrompida e anacrnica como a OEA  so 
mentiras repugnantes, prprias e lgicas desse escritrio de colnia americana que  a OEA.

PERGUNTA  Quais so as perspectivus de se libertar os americanos presos em Cuba por crimes 
polticos?(*)

CASTRO  Por que isso teria de ser de uma forma unilateral? Coisas da nossa soberania somos ns que 
decidimos.

(*)        Foram presos, na invaso da praia Girn, 1.200 homens. Para coloc-los em liberdade, Cuba cobrou uma 
indenizao de 15 milhes de dlares aos Estados Unidos, pagos em roma de tratores, remdios e alimentos 
para crianas.

(*)        Cuba mantinha presos 24 americanos. Em junho de 1977, Fidel Castro colocou em liberdade onze deles, condenados 
por trfico de drogas. Permanecem em prises cubanas treze americanos, estes acusados de crimes de espionagem 
ou sabotagem.


158
Mas se os americanos quiserem, posso propor-lhes um acordo:
se soltarem um nmero de negros americanos, que tiveram que delinqilir por desemprego, por fome, 
por falta de escolas, ns colocaremos em liberdade um nmero igual de presos contra-revolucionrios

.~ PERGUNTA  At o final dos anos 60, Cuba participava dos movimentos revolucionrios do mundo. Hoje 
Cuba ajuda com tropas, governos constitudos. Como foi que se deu essa mudana?

CASTRO  Ns sempre tivemos um princpio, desde o triunfo da revoluo at agora: este  um pas 
que est disposto a viver de acordo com as normas internacionais. Voc deve saber que ao bloqueio 
imperialista contra Cuba se somaram praticamente todos os governos da Amrica Latina  com a 
nica e bo~rosa exceo do Mxico. Essa gente se sentia no direito de promover o bloqueio e a 
contra-revoluo em Cuba. Ns nos considervamos com inteira liberdade, portanto, para apoiar os 
movimentos revolucionrios nesses pases. Nossa poltica  a seguinte: aos Estados que estejam 
dispostos a respeitar as eis internacionais e a soberania de nosso pas, aplicaremos os mesmos 
princpios  o Mxico  uma demonstrao disso. Apesar de termos governos diferentes, o Mxico no 
pode dizer que estivemos a apoiar movimentos revolucionrios dentro de seu territrio.
PERGUNTA  E nos demais pases?

CASTRO  Bem, aqueles que se associaram aos Estados Unidos nas agresses, no bloqueio e na 
contra-revoluo a Cuba nos deram a liberdade de apoiar movimentos revolucionrios.
PERGUNTA  E essa norma ainda est em vigor?

CASTRO  Todos os pases que abandonaram a poltica de bloqueio, de subverso e de promoo de 
contra-revoluo contra Cuba, e inclusive os que restabeleceram relaes normais e respeitosas com Cuba, 
receberam de ns a mesma poltica de respeito, independentemente do sistema poltico e social. 
Quanto aos outros pases da Amrica Latina que no respeitam as leis internacionais e a nossa 
sobrania, e continuam aliados ao bloqueio imperialista e s agresses a Cuba, no nos sentimos com 
nenhuma obrigao especial em relao a eles.



159
-u


PERGUNTA  Mas, enfim, houve uma mudana nessa poltica?

CASTRO  No  que no simpatizemos com os movimentos revolucionrios. Simpatizamos, 
sim. Agora, se surge um movimento revolucionrio num pas que tem relaes conosco, ou que 
respeite nossa soberania e nosso pas, por maior que seja nossa simpatia pelos movimentos revolucionarios, 
nos nos absteremos de qualquer apoio a esse movimento. Essa foi,  e continua sendo a nossa poltica. No 
mudamos nada.

PERGUNTA  E a tese da exportao da revoluo? Que fim levou?

CASTRO  Creio que em todas as relaes internacionais  preciso haver normas recprocas. 
Somos partidrios do respeito e da coexistncia pacfica entre Estados de diferentes regimes sociais. E todos 
os pases que estejam dispostos a viver de acordo com essas normas sero respeitados por ns. Falou-se 
muito da tal exportao da revoluo. Na realidade, as revolues no podem ser exportadas. Uma 
coisa a solidariedade internacional, e outra  a exportao de revolues. S o povo de cada pas pode 
fazer a revoluao. ~ como se voc comprasse um avio e depois no soubesse manej-lo. Para fazer uma 
revoluo  preciso ser revolucionrio,  preciso ter experincia  e isso no se pode importar.

PERGUNTA  Bem, e a ajuda a governos de esquerda? O que diz o senhor, por exemplo, a respeito das 
tropas cubanas na Etipia?

CASTRO  A verdade  que ns concordamos em dar uma importante ajuda civil  Etipia. 
Decidimos mandar para l mais de 140 mdicos e um total de 300 pessoas para trabalhos sanitrios. A Etipia 
 um pas que tem mais de 35 milhes de habitantes e apenas 125 mdicos. E, por essa via, estamos 
dispostos a continuar ajudando a revoluo etope. No sei se no Brasil o povo sabe qual  o estado 
sanitrio da Etipia: por um lado, apenas 125 mdicos, e, por outro, 150 000 leprosos, 450 000 
tuberculosos, 7 milhes de paldicos e 14 milhes de pessoas com diferentes graus de doenas na 
vista, provocadas pelo tracoma. Uma entre cada trs crianas morre antes dos 5 anos, e uma entre cada 
cinco morre no primeiro ano de vida. Ora, se foi isso o que deixaram o colonialismo e o feudalismo 
ali, a Etipia ento tem pleno e absoluto direito de fazer sua revoluo.


160
PERGUNTA  Mas e a ajuda militar? E as tropas cubanas?

CASTRO  Ns temos dado apoio poltico  Etipia tambm. Temos divulgado internacionalmente 
a justeza da revoluo etope e o direito do povo etope de mudar essa situao feudal. Temos tambm 
relaes diplomticas estreitas com eles. Quanto a essa outra questo, o que posso lhe dizer  que ns temos 
o direito de oferecer-lhes tambm ajuda militar. Tem gente que nos pergunta como voc: Cuba tem tropas 
l? Como no temos, respondemos sempre: No temos tropa. E nos perguntam se temos instrutores 
militares. E como no temos instrutores militares como tais  como tais , tambm negamos. Temos ali 
apenas pessoal diplomtico. O que eu posso lhe assegurar  que nossos diplomatas so politicamente 
muito bem preparados e, em algumas ocasies, bem preparados militarmente tambm. Agora se o 
governo etope nos pedir, temos possibilidade e liberdade para mandar tropas para l. E, para fazer isso, no 
temos que dar satisfao a ningum.

PERGUNTA  O senhor j desmentiu a participao cubana no movimento dos rebeldes de Shaba, no 
Zaire. Mas o general Nathanael NBumba, chefe dos rebeldes, no pediu ajuda a Cuba? E se pedisse, Cuba 
daria?

CASTRO  Durante a guerra de Angola ns tivemos oportunidade de conhecer os zairenses de 
origem katanguesa, que estavam imigrados em territrio angolano. Quando o Zaire, apoiando a 
FNLA, invadiu Angola, isso contribuiu para aproximar os katangueses do MPLA. Eles trabalharam, 
lutaram, algumas vezes batalharam junto com nossas tropas. Mas, quando acabou a guerra, 
praticamente terminaram tambm os nossos contatos com os katangueses, por duas razes. Em 
primeiro lugar porque ns no somos donos de Angola no podamos usar o territrio angolano para 
treinar, armar ou ajudar os katangueses. Em segundo lugar, ns acreditvamos que, uma vez terminada a 
guerra, Angola necessitava de paz  sobretudo com seus vizinhos da Africa negra, independentemente dos 
regimes vigentes. Paz com Zmbia e paz com Zaire.
PERGUNTA  Paz com o Zaire?

CASTRO  O governo do Zaire eu conheo bem. ~ um governo colonialista, sanguinrio, ladro. 
Um dos homens


161
mais ricos do mundo  Mobutu. So incalculveis as contas que ele tem em bancos da Sua e da Europa. So 
centenas de milhes de dlares que esse homem roubou do Zaire, hoje um instrumento do imperialismo e do 
neocolonialismo na Africa. A meu juzo, o governo de Mobutu  um dos mais desprestigiados e dos mais 
corrompidos do mundo inteiro. Mas, apesar desse meu juzo, ns acreditvamos que o que mais convinha a 
Angola era a paz com o Zaire. Para reconstruir o pas. Se esse era o nosso critrio, ns no podamos apoiar 
ou estimular aes que comprometessem a paz angolana. Essa era, portanto, nossa posio poltica em relao 
ao problema do Zaire. Agora, os katangueses esto l, na fronteira, e querem regressar  sua ptria. Durante 
uma poca eles foram secessionistas, hoje no so mais. Hoje eles tm uma posio nacional, preocupam-se 
por uma mudana dentro de todo o Zaire, tm uma proposta de unidade nacional. E lutam no para 
tomar Katanga, ou Shaba, mas para derrubar o governo de Mobutu.

PERGUNTA  Mas eles chegaram a pedir ajuda a Cuba?

CASTRO  Eu imagino  e isto  apenas uma suposio  que eles devem ter pedido ajuda a todo 
mundo a que tiveram acesso. Mas dar ou no dar ajuda em armas e em treinamento  algo que se 
determina pela posio poltica, que, por sua vez,  determinada pela situao internacional concreta em um 
dado momento. Se ns, considerando justa e revolucionria a proposta dos katangueses, estivssemos 
dando-lhes armas e treinamento, isso teria entrado em choque com nossa premissa de que Angola 
precisava de paz. E se num certo momento voc se encontra diante de duas opes justas, uma delas 
tem que prevalecer. Nesse caso, a necessidade de paz em Angola prevaleceu. No nego os direitos dos 
katangueses de voltar a seu pas e fazer a revoluo nem ignoro a justeza de sua causa, mas a paz 
angolana era mais importante. Ento a est a resposta  sua pergunta: por isso  que ns no poderamos 
atender a nenhum pedido que tivesse sido feitos pelos katangueses. Est claro?
PERGUNTA  Quantos homens Cuba perdeu em Angola?

CASTRO  Olhe, ns estamos lutando na frica h muito tempo. Ajudamos o movimento de 
libertao da Guin-


162
Bissau, de Angola e muitos outros no continente. Mas, por norma, ns no damos informao sobre 
o nmero de baixas. Isso  um segredo nosso que, creio, a Histria um dia se encarregar de divulgar. O 
que eu posso lhe dizer  que, em termos gerais, as baixas no foram muitas. Dada a magnitude da luta 
e os resultados obtidos, as perdas foram mnimas.

PERGUNTA  Por que a imprensa cubana informou to pouco sobre a participao de Cuba na 
guerra de Angola? Por exemplo. Gabriel Garcia Mrquez, que  seu amigo e velho amigo de Cuba, 
escreveu a Operao Carlota, contando a campanha cubana em Angola  e nem isso foi publicado 
aqui.

CASTRO  Qualquer dia a gente publica a reportagem de Garcia Mrquez. Mas a h 
muitos fatores determinantes. Primeiro que isso foi uma operao militar, que tinha que ser 
preservada. Especialmente sendo, como foi, uma operao difcil, a 10000 quilmetros de 
distncia. Ns no temos frotas areas. Tivemos que utilizar o mar como rota principal, tivemos 
uma luta durante muitos meses. Tivemos que enfrentar tropas regulares do Zaire e da frica do Sul e 
as foras tteres organizadas pela CIA. Ns, c do outro lado do Atlntico, tivemos que organizar 
uma operao de transporte de armas, de tropas e de equipamentos muito complicada. Essa 
operao tinha que ser preservada ao mximo, por elementares razes de ordem militar.
PERGUNTA  Mas foi s o segredo militar que limitou a dtvulgaao da guerra na imprensa 
cubana?

CASTRO  No, havia fatores, digamos, polticos. Ns no queramos ressaltar o esforo 
cubano, no queramos magnific-lo, entende? No poderia parecer que aquela era
        uma luta nossa, simplesmente porque era fundamentalmente
?        uma luta dos angolanos. Por considerao com os angolanos
        e por modstia revolucionria, no queramos que pudesse
        parecer que estvamos ressaltando o nosso papel. Ns temos
        o cuidado, em nossas relaes com o povo angolano e com
        o povo da frica em geral, de evitar esse tipo de coisa. Pri-
?        meiro,  importante que saibam que nossa colaborao  desin-
        teressada. E segundo, que sempre vejam que nossa posio
         modesta. E, de mais a mais, no ramos ns que tnhamos
        que ficar a a dar informaes sobre a guerra  esse era um
        papel dos angolanos. Mesmo hoje ns no nos sentimos no
        direito de ficar a fazendo anlises daquela luta. Claro, depois
        163

~MJYRSv~r1f Dtj c~l~s 1111 SU

vo surgir dados, papis e documentos que a Histria se encarregar 
de divulgar, mas esses fatos ainda esto muito frescos, so muito 
recentes, e no seria correto da parte de Cuba estar fazendo anlises 
histricas.

~        PERGUNTA  O senhor disse ha poucos dias que os chineses 
estariam boicotando a reaproximnao Cuba-Estados Unidos. Mas, logo 
depois, um telegrama da Agncia Nova China dizia que a distenso cubano-
americana era positiva, porque afastaria Cuba da esfera da Unio 
Sovitica. Como o senhor interpreta essa viso do problema?

CASTRO  Eu j falei demais disso, no queria me aborrecer ainda 
mais falando de novo  e nem aborrecer seus leitores, que j devem estar 
cansados de toda essa histria. Mas vamos l. A China vem seguindo 
uma poltica de traio ao movimento revolucionrio mundial e de 
total colaborao com o imperialismo. Ns sabemos que os chineses 
aconselharam aos americanos no devolver-nos a base naval de 
Guantnamo, e da mesma forma eles se opem ao fim do bloqueio 
econmico. Isto  muito lgico para quem acompanha as posies 
chinesas internacionais. Eles no se cansam de caluniar Cuba, dizendo 
que somos uma base sovitica no Caribe. Como voc sabe, eles tm 
magnficas relaes com o governo do general Augusto Pinochet, no 
Chile, e com regimes similares na Amrica Latina. Ento no temos que 
nos surpreender quando, em suas conversaes secretas com o governo 
americano, os chineses os aconselham a nunca devolver Guantnamo a 
Cuba. Ns sabemos disso como sabemos tambm de algumas outras 
coisinhas. Os chineses acreditam que a revoluo cubana, seguindo o 
exemplo chins, possa romper seus vnculos com o campo socialista e com o 
movimento revolucionrio mundial para aliar-se ao imperialismo. 
Pensam que ns somos capazes de fazer as piruetas que eles fazem, que 
somos capazes de incorrer em uma traio semelhante  deles. Eles 
no entendem que se as relaes entre os Estados Unidos e Cuba se 
desenvolvem de um momento para outro, tm que ser feitas sobre 
princpios. E isso no significar, em nenhum sentido, que ns vamos 
nos converter em aliados dos Estados Unidos em poltica 
internacional, que  o que tm feito os chineses. ~ porque tm 
esperana de fortalecer o campo imperialista que eles dizem que vem 
com bons olhos a melhoria das relaes com os Estados Unidos. Se


164


A
Cuba se vendesse aos Estados Unidos, os chineses estariam de acordo com a devoluo da base de 
Guantnamo, esteja certo disso.

PERGUNTA  Como o senhor v o chamado eurocomunismo?

CASTRO  Eu prefiro no comentar esse tema. Acho melhor deixar aos europeus a 
responsabilidade de desenvolver seus pontos de vista e resolver seus problemas. Eu tambm no posso falar 
de tudo, no ?

~, PERGUNTA - O senhor acredita que a atual crise de preos do acar no mercado internacional poderia 
ser um fator de reaproximao dos dois maiores exportadores  isto , Brasil e Cuba?

CASTRO  Bom, Cuba e Brasil tm interesses comuns em outros terrenos, como pases do Terceiro 
Mundo. Eu j lhe dei, h pouco, minha 
opinio sobre a necessidade de paz para o 
mundo. A necessidade de um esforo de 
toda a humanidade na luta contra o 
subdesenvolvimento, a fome, a misria. Quer 
dizer: h terrenos em que, apesar das 
diferenas entre os regimes sociais, ns 
todos temos obrigaes e tarefas comuns. Mas 
isso no depende s de ns. Durante muitos 
anos, o Brasil foi um aliado dos Estados 
Unidos em sua poltica de bloqueio contra 
Cuba. E, de fato, o Brasil ainda mantm 
uma poltica semelhante  dos Estados 
Unidos com relao a Cuba, no mantm 
nenhum tipo de relao econmica e 
comercial conosco... Ento ns podemos 
dizer que estamos bloqueados pelos 
Estados Unidos e pelo Brasil, no? Bem... Que 
cesse o bloqueio econmico do Brasil a 
nosso pas e esta poder ser a base de uma 
melhoria das relaes estatais. Eu disse 
estatais. Isso pode acontecer 
independentemente do regime social. 
Claro que temos coisas comuns. Eu acho que 
os pases produtores tm que fazer alguma 
coisa para defender o preo do acar, 
nisso estamos de acordo. Os preos atuais no 
cobrem nem os custos de produo. E no 
caso dos pases aucareiros no pe-
trolferos, o acar  a conta de pagar seus 
gastos com petrleo. H quem esteja pior 
do que ns, porque Cuba tem magnficas 
relaes de intercmbio com a Unio 
Sovitica, que nos paga pelo acar um 
preo excelente, que hoje  vrias vezes 
superior ao mercado mundial. Alm disso, nos 
abastecem de combustvel, de equipamentos, 
de matrias-primas, alimentos, mquinas; E 
eu creio que  sbio,  correto,  til ao 
povo bra165
sileiro, ao povo cubano, dominicano, filipino, peruano, enfim, aos pases subdesenvolvidos produtores de 
acar, pensar seriamente em que tipo de esforo se poder fazer com vistas a coordenar uma poltica que 
defenda uma fonte de divisas to importante como essa.

~< PERGUNTA  Os jornais brasileiros tm publicado, nos ltimos meses, manifestaes de empresrios 
interessados em negociar com Cuba, ainda que no haja relaes diplomticas. Como dirigente cubano, como 
o senhor v essa perspectiva?

CASTRO  Me parece uma atitude positiva. E, ademais, me parece a nica sada inteligente que 
podem adotar industriais de um pais como o Brasil, que aspira a converter-se em uma potncia industrial, que 
aspira a um desenvolvimento adequado de sua economia. Eu posso lhe repetir a posio que adoto para com 
os Estados Unidos. Ns no bloqueamos o Brasil nem temos aqui nenhuma proibio de vender ou de 
comprar do Brasil. Portanto, nesse sentido corresponde tambm ao Brasil dar os passos pertinentes.

F PERGUNTA  Que diria o senhor de algumas mudanas ocorridas na poltica externa do Brasil nos ltimos 
anos?

CASTRO  Eu entendo perfeitamente a poltica brasileira de desenvolver relaes comerciais com o 
campo socialista. ~3i uma poltica inteligente, pois sabemos que os pases socialistas constituem um imenso 
mercado. E penso que todas as burguesias industriais inteligentes, em vez de desenvolver uma poltica de 
bloqueio e isolacionismo, tratam de conquistar esses mercados. Simplesmente os industriais brasileiros 
fazem o que tm que fazer. Creio que so motivos semelhantes que levam o Brasil a desenvolver suas 
relaes com a Africa, igualmente em busca de mercados  isso do ponto de vista dos interesses dos 
industriais. Pode ser tambm que existam alguns elementos sentimentais nisso. Como antiga colnia portuguesa, 
pode ser que o Brasil tenha querido desenvolver boas relaes com outras tambm ex-colnias de Portugal. 
Pode ser at que se tenha pensado que o Brasil poderia se tornar um bom substituto de Portugal nessas 
antigas colnias. Bom, mas a eu j estou entrando no campo das especulaes. Do ponto de vista objetivo, nos 
pareceu um fato positivo o reconhecimento de Angola por parte do governo brasileiro. Eu soube tambm 
que o Brasil est desenvolvendo boas relaes comerciais com Angola, est exportando alguns produtos 
da indstria mecnica,


166
transportes. Quando eu estive em Luanda me recordo de que passei junto a um supermercado, Po de 
Acar, que  propriedade de uma empresa brasileira. Esse foi um passo positivo tanto para o Brasil 
como para Angola. E ns, que nos sacrificamos com nosso sangue na luta, pela libertao de Angola, 
ficamos felizes com tudo o que possa representar um benefcio para o povo angolano.
PERGUNTA  H mais de vinte anos o senhor, em sua autodefesa intitulada A Histria me 
Absolver, j falava em utilizao de energia nuclear para resolver os problemas energticos de Cuba. Hoje, 
quando esse passou a ser um problema universal, como o senhor v a poltica de no proliferao nuclear 
defendida pelo presidente Jimmy Carter?

CASTRO  Voc agora est me colocando um tema meio complexo... Bem,  sabido, por 
clculos matemticos e cientficos, que o 
petrleo est se esgotando num ritmo 
acelerado. Um dos problemas mais srios 
que o mundo enfrentar no futuro  o 
energtico. Inclusive eu penso que as tec-
nologias substitutivas da gerao de 
energia eltrica atravs do carvo e do 
petrleo esto atrasadas com relao ao 
esgotamento, sobretudo do petrleo. O 
carvo ainda vai durar um pouco mais, O 
mundo se v, portanto, diante de um dos 
mais srios desafios que se poder 
imaginar, porque sem energia no h 
desenvolvimento. Tenho meditado, tenho 
pensado sobre as diferentes e possveis 
fontes de energia e me parece que a energia 
que, no essencial, vai substituir o petrleo 
ser a energia nuclear. No vejo 
possibilidades em nenhuma das outras 
fontes de que se tem falado. Mas a 
tecnologia da energia nuclear ainda no 
est suficientemente desenvolvida, e o 
custo alto das inverses e os perigos da 
contaminao ainda no foram 
resolvidos. Nessa questo, o grande 
fantasma que atemoriza a humanidade  o 
fato de a energia nuclear, embora 
importante fonte de soluo de problemas 
econmicos, ser tambm matria-prima 
para a produo de armas de destruio 
macia. ~ crescente o nmero de pases 
que j possuem tecnologia para a 
produo de armas nucleares. Eu li 
inclusive que alguns cientistas, por mero 
prazer, ou tentando advertir para o perigo 
que representa a abundncia dessa 
matria-prima, j elaboraram o desenho 
de armas nucleares artesanais caseiras. E 
h quem se preocupe, com razo, com o 
risco de que algum dia as armas nucleares 
possam estar nas mos de indivduos. 
Qualquer um que tenha uma idia do que 
isso signi167
fica teria razes de sobra para preocupar-se com os problemas polticos que derivariam de uma 
situao dessa natureza. Eu no gostaria de estender-me muito, mas penso que o homem, nem social 
nem intemacionalmente, no que se refere s suas relaes e  sua capacidade de resolver seus 
problemas internacionais, ficou muito atrs desse incrvel frankenstein que ele mesmo criou. H uma 
infinidade de focos de tenso no mundo, no mbito internacional. E que implicaes pode ter nesses 
problemas a proliferao das armas nucleares? Eu creio, ento, que toda a preocupao de qualquer 
homem com esse problema  justa. Agora encontrar um critrio, como chegar a um consenso 
internacional sobre esse problema? Penso que a base de tudo isso  que se consiga um clima de 
distenso e de paz no mundo  essa seria a primeira tarefa. Uma vez conseguido tal clima de paz,  
indispensvel, primeiro, que se suprimam as provas nucleares, no espao, no fundo dos mares, e as 
subterrneas. E, como objetivo final, o desaparecimento de todas as armas nucleares. Porque enquanto 
um grupo de pases possuir o monoplio dessas armas, no vejo como impedir que outros pases 
aspirem a possuir as mesmas armas. No vejo, portanto, nenhuma soluo lgica para esse problema 
que no seja a eliminao de todas as armas nucleares.

PERGUNTA  Isso significa que o senhor apia a poltica de Jimmy Carter?

CASTRO  Essas so as minhas opinies sobre a questo. E se Carter est disposto a lutar por 
esse clima de paz e pela eliminao de todas as armas nucleares, e que no reste nenhum pas com o 
monoplio das armas nucleares, eu estou de acordo com essa poltica.

* PERGUNTA  A propsito, como vo os planos de instalao de usinas nucleares em Cuba?

CASTRO  Ah, os nossos so planos modestos, no so ambiciosos como os de vocs, 
brasileiros... Eu sempre achei que era um coisa inteligente o desenvolvimento da energia hidrulica. 
Eu creio que essa tem sido uma poltica sbia, que o Brasil historicamente tem seguido. Pas no 
petrolfero
        at agora, pelo menos , o Brasil tem desenvolvido ao mximo sua energia hidrulica. Mas 
tambm me parece correto que o Brasil se preocupe pelo desenvolvimento de outras formas de 
energia, que lhe permitam satisfazer as necessidades e o nvel de vida, no futuro, de uma populao 
crescente.


168
Como estamos aqui nesta entrevista falando do ponto de vista terico, no vou incluir os aspectos 
sociais e polticos da questo. Penso que qualquer comunidade humana, para seu desenvolvimento e 
seu bem-estar, necessita dispor de importantes fontes de energia. Ns temos aqui uma situao 
similar, mas com algumas desvantagens. No possumos fontes importantes de energia hidrulica, 
nossos rios so pequenos, nossa ilha estreita e comprida. Tambm no temos petrleo nem temos 
carvo, e por isso ns vamos depender, no futuro, fundamentalmente, da energia nuclear. 
Anteriormente no poderamos nem sequer pensar em uma unidade de energia nuclear nosso sistema 
eltrico era muito pequeno. Mas para 1980 teremos ao redor de 3 000 megawatts. Com isso poderemos 
comear a introduzir as primeiras unidades movidas a energia nuclear de 500 megawatts. Entre 1983 e 
1984 dever entrar em funcionamento nossa primeira unidade, e a segunda por volta de 1985. E, no 
futuro, todas as novas unidades de energia eltrica tero como fonte a energia nuclear. ~ a notcia que 
eu lhe posso dar. At agora no pensamos em fabricar nenhuma bomba atmica.

PERGUNTA  Se o senhor pudesse voltar ao dia 1.0 de janeiro de 1959, quando triunfou a revoluo 
cubana, que coisas faria de novo? E o que deixaria de fazer?

CASTRO  Cometi erros que no voltaria a cometer. No vou enumer-los porque seria muito 
extenso. Trataria de repetir os acertos, claro. Outro dia, num discurso, eu dizia que se tivesse o 
privilgio de viver de novo minha vida, talvez fizesse muitas coisas diferentes das que fiz. Mas lutaria 
com a mesma paixo pelas mesmas coisas por que lutei at hoje. Quer dizer, o objetivo seria o 
mesmo, a estratgia, na essncia, seria a mesma, e os erros eu deixaria de lado. Mas os erros foram 
fundamentalmente tticos, no estratgicos.











1169


















A GUERRA EM ANGOLA SEGUNDO
FIDEL CASTRO


A participao de Cuba na libertao 
da Africa tem praticamente a mesma idade 
da Revoluo cubana. Mal refeito da 
guerrilha na Sierra Maestra, o comandante 
Almeijeiras Iria perder a vida a milhares 
de quilmetros de seu pais, em 1961, 
chefiando uma coluna de soldados 
cubanos, como ele, que lutavam na Guerra 
da Arglia. Poucos anos depois, Ernesto 
Ch Guevara abandonava o posto de 
ministro em Havana para juntar-se 
discretamente s tropas que combatiam 
pela independncia do Congo. Mais 
recentemente, na Guerra dos Seis Dias, 
em 1967, e na Guerra do Yom Kippur, 
em 1973, soldados cubanos pilotavam 
tanques e jatos que partiam da Sria na 
luta contra Israel. E h mais de dez anos 
Cuba

vinha treinando, em seu prprio territrio ou em 
plena selva africana, tropas regulares do 
PAIGC  Partido da Independncia da 
Guin e Cabo Verde, e guerrilheiros do 
MPLA Movimento Popular de Libertao 
de Angola. A partir desses dados, torna-se 
mais fcil entender a mais recente 
participao de Cuba na agitada histria 
da independncia dos povos af ri-canos  a 
guerra de Angola. Quando quis saber 
como se tomara, na prtica, a deciso 
cubana de lutar ao lado das tropas de 
Agostinho Neto, o presidente Fidel Castro 
fez-me o relato seguinte, dado igualmente 
com exclusividade para a revista VEJA:

171

















A GUERRA EM ANGOLA SEGUNDO
FIDEL CASTRO


A participao de Cuba na libertao 
da Africa tem praticamente a mesma idade 
da Revoluo cubana. Mal refeito da 
guerrilha na Sierra Maestra, o comandante 
Almeijeiras Iria perder a vida a milhares 
de quilmetros de seu pas, em 1961, 
chefiando uma coluna de soldados 
cubanos, como ele, que lutavam na Guerra 
da Arglia. Poucos anos depois, Ernesto 
Ch Guevara abandonava o posto de 
ministro em Havana para juntar-se 
discretamente s tropas que combatiam 
pela independncia do Congo. Mais 
recentemente, na Guerra dos Seis Dias, 
em 1967, e na Guerra do Yom Kippur, 
em 1973, soldados cubanos pilotavam 
tanques e jatos que partiam da Sria na 
luta contra Israel. E h mais de dez anos 
Cuba

vinha treinando, em seu prprio territrio ou em 
plena selva africana, tropas regulares do 
PAIGC  Partido da Independncia da 
Guin e Cabo Verde, e guerrilheiros do 
MPLA Movimento Popular de Libertao 
de Angola. A partir desses dados, torna-se 
mais fcil entender a mais recente 
participao de Cuba na agitada histria 
da independncia dos povos af ri-canos  a 
guerra de Angola. Quando quis saber 
como se tomara, na prtica, a deciso 
cubana de lutar ao lado das tropas de 
Agostinho Neto, o presidente Fidel Castro 
fez-me o relato seguinte, dado igualmente 
com exclusividade para a revista VEJA:

171



Ns vnhamos ajudando o MPLA havia muito tempo, havia mais 
de dez anos  desde o ano de 1963 ou 1964, por a. Mas no foi nada 
fcil: Angola tem a fronteira do Zaire por um lado, por outro Zmbia, 
que  uni pas mediterrneo, e, ao sul, frica do Sul. Quer dizer, no 
era muito fcil a Cuba ajudar ao MPLA diretamente. Por isso, tivemos 
que faz-lo a partir de outros pases, e a ajuda passou a ser dada 
utilizando
o        territrio do Congo Brazzaville  esta  que  a verdade. Ns 
tnhamos boas relaes com eles: havamos dado apoio poltico e 
ajuda militar (em armas e instrutores) durante sua guerra de libertao.

Os fatos que se seguiram so bem conhecidos. O mundo inteiro 
ps os olhos em cima de Angola: era um pas muito rico, com grandes 
recursos naturais. Desde a poca de Kennedy, assim, o imperialismo 
estava preparando um plano para controlar Angola. E foi a CIA quem 
fundou a FNLA, e transformou Holden Roberto em um lder  atravs 
do presidente Mobutu, do Zaire, e com muitas armas e muito dinheiro. 
Os portugueses, por sua vez, criaram a Unita, no sul de Angola, que 
fundamentalmente lutou contra o MPLA, e no contra os portugueses. 
Resultado: s vsperas da independncia, em 11 de novembro de 1975, 
o verdadeiro representante do povo angolano, que era o MPLA, se viu 
diante de uma situao difcil.

Por um lado havia a CIA, por outro o Zaire, ambos querendo 
desintegrar Angola. Uns queriam ficar com Cabinda, outros queriam 
tomar o centro-sul de Angola  era uma situao realmente difcil, a 
por volta de 25 de novembro de 1975. Pelo norte j tinha ocorrido a 
interveno aberta do Zaire, apoiando a FNLA, no comecinho de julho 
de 1975. Por volta de julho ou agosto desse ano, a frica do Sul se 
apoderou de um peda de Angola, na zona de Cunene, usando tropas 
regulares. Nessa poca no havia um nico instrutor cubano em 
Angola. Em setembro o territrio estava dividido em trs partes: o 
norte ocupado pelo Zaire e pela FNLA, o centro, incluindo a capital, 
nas mos do MPLA, e o sul tomado pela Unita e pela frica do Sul.

CURIOSO  Foi a que o governo do MPLA nos pediu uma 
ajuda. Uma nova ajuda, digamos. Nos pediram uma certa quantidade 
de armas e alguns instrutores para preparar suas tropas. Em setembro 
mesmo ns concordamos em enviar


172
a Angola armas suficientes para equipar uns 15 mil homens, alm de instrutores que dirigiriam quatro 
escolas militares do MPLA: uma nas proximidades de Luanda, uma no leste, em Saurimo, outro no 
sul, em Benguela e a quarta em Cabinda. Mas no foi fcil fazer chegar aquele armamento todo ali. 
Por qu? Porque os portugueses abandonaram o norte e deixaram a antiga Carmona, com sua base 
area, nas mos da CIA, da FNLA, e do Zaire. No sul, deixaram a antiga Nova Lisboa, hoje Huambo, 
entregue  Unita e  frica do Sul. Alm disso, os portugueses deixaram Cunene de presente para os 
sul-africanos. ~ curioso: o governo de Portugal sequer protestou quando, no ms de julho de 1975, os 
sul-africanos se apoderaram da hidreltrica de Cunene.

No territrio do MPLA, que ainda estava ocupado pelos portugueses, chegaram, em princpio de 
outubro de 1975, dois barcos nossos, carregados de armas e levando os primeiros instrutores cubanos. 
Embora Porto Amboim e Benguela ainda estivessem nas mos dos portugueses, o MPLA mandou ho-
mens a para receberem as armas desembarcadas. Simultaneamente, haviam chegado ao territrio do 
MPLA alguns avies cubanos, ao passo que o reforo de Cabinda era feito por Brazzaville  isto foi 
entre o dia 15 e o dia 20 de outubro de 1975. E entre 1.0 e 12 de outubro o abastecimento das reas do 
MPLA no sul j havia sido feito: as armas foram levadas para l em caminhes, que por sua vez ns 
tnhamos mandado a Angola por mar, e chegaram a Benguela, Saurimo e Dalatando.

 ESPERA  Passamos ento a ter um grupo de instrutores que variava de 50 a 70 por escola, 
armas para alguns milhares de angolanos e um reforo especial para Cabinda, que estava meio ilhada. 
Bem, e a, o que ocorreu? Os portugueses criaram uma situao muito perigosa para ns, ao abando-
nar Cabinda no dia 11 de outubro. O MPLA controlava Cabinda, mas no Zaire havia um exrcito 
regular pronto para atacar o enclave. Se essa fora tivesse avanado imediatamente depois da retirada 
dos portugueses, teria se apoderado facilmente de Cabinda.

Entre os dias 15 e 20 de outubro, como disse, chegaram as armas que mandamos de Cuba, e j no 
dia 24 foram organizadas as escolas militares. No dia 8 de novembro o Zaire atacou Cabinda, mas a 
j estavam  espera dos invasores dois


173


?~IY~RSIOABf ~E C1U~S 00 SUI~
nIoIIflT~rI r~IJTDflI
batalhes angolanos, dirigidos por cubanos e armados por ns
 e o ataque foi rechaado. Os zairenses, nessa ofensiva, usarm mais de 1 500 homens, tanques, artilharia. 
Antes, no dia 23 de outubro, as tropas regulares da frica do Sul haviam iniciado a invaso pelo sul de 
Angola, atravs de uma guerra blitzkrieg, avanando 70 quilmetros por dia  velocidade altssima para 
uma guerra. Era um plano perfeitamente coordenado para apoderar-se de Luanda e de Cabinda ao redor 
do dia 11 de novembro.

~ preciso dizer que a CIA e o Zaire respeitaram essa data, quando legalmente terminaria a 
soberania portuguesa sobre Angola. Porque, por exemplo, os sul-africanos j tinham Cunene ocupado 
desde julho de 1975, e no avanaram mais at outubro, novembro. Estava tudo programado para a to-
mada de Luanda no dia 11 de novembro. Imagine que os primeiros combates com os sul-africanos, 
que os enfrentou foram os instrutores cubanos com os alunos da escola montada em Benguela, no dia 3 de 
novembro. Em Cabinda foi a mesma coisa: instrutores cubanos e seus alunos tiveram que enfrentar os 
zairenses.

ALGUM DIA  No dia 5 de novembro aqui em Havana, tomamos a deciso de enviar a 
primeira unidade militar. No dia 7  se eu me equivoco  por um dia  decolaram os primeiros avies 
levando a nossa primeira Unidade Especial, com armas anti-tanques, cujo objetivo era parar de 
qualquer jeito a coluna sul-africana que avanava de sul para norte. Os angolanos tinham agUentado 
em Cabinda e no norte, mas no poderiam conter as tropas invasoras no sul, que avanavam com 100 
tanques e muita artilharia pesada. A nossa primeira remessa para essa frente foi de um batalho  600 
soldados cubanos. E essa unidade, unida aos angolanos, parou as colunas sul-africanas.

Simultaneamente  deciso de mandar a Unidade Especial, mandamos por mar um regimento de 
artilharia, que levaria mais tempo para chegar a Angola. No comeo de dezembro, enfim, esses 
soldados estavam chegando ao territrio angolano. Foi exatamente assim, como estou contando, que 
comeou toda a histria. Depois  que tomamos a deciso de enviar a Angola quantas unidades 
faltassem s tropas de Agostinho Neto. N momento mais duro da guerra, o MPLA controlava no m-

174



ximo uns 25% do territrio. At fevereiro de 1976, contudo, j haviam sido liberados cerca de 1 
milho de quilmetros quadrados. S lamento no poder dizer o nmero exato de soldados cubanos 
que lutaram em Angola. Mas algum dia se saber.


175
Os movimentos cubanos
na frente de batalha
CONGO
ZAIRE









O        MEDICO DA SIERRA 
MAESTRA

Uma das muitas crticas que ouvi s 
primeiras edies de A Ilha referia-se ao 
processo revolucionrio cubano. Em dezenas de 
debates e conferncias, era inevitvel a pergunta:

Quem censurou o captulo que falaria da 
campanha na Lerra Maestra?. E a resposta, 
sempre a mesma: ningum censurou nada. Apenas 
o pouco tempo que tive para realizar a primeira 
reportagem impediu-me de tratar de todos os temas 
ligados  histria recente de Cuba.

Este depoimento, creio, preencher de alguma 
maneira essa lacuna. O mdico Julio Martinez 
Paes, um simptico e sorridente magricela de 50 
anos, hoje diretor de um hospital de ortopedia em 
Havana, talvez seja hoje a testemunha que mais de 
perto acompanhou a luta de Fidel Castro e de seus 
homens na Sierra Maestra. Trabalhando primeiro 
na clandestinidade, em Havana, e depois como 
chefe dos servios mdicos de campanha na serra, 
Martinez Paes s esteve ausente a um combate de 
toda a escalada guerrilheira cubana.

Em algumas horas de conversa com ele, no 
ms de junho de 1977, em minha segunda viagem a 
Cuba, pude colher o relato que se segue, e que , 
em suas palavras, um pouco daquilo que Histria 
no registrou em detalhes.

Quando Fidel partiu do Mxico com o iate 
Granma, em direo a Cuba, ns j tnhamos 
sido avisados da data da chegada. Mas, temendo 
que as informaes vazassem, e para deixar o 
governo confuso, ele no disse onde ia desembarcar. 
Fidel nos avisou o dia em que chegaria para que 
ns, o pessoai da clandestinidade em Cuba, 
fizssemos atos revolucionrios por todo o pais, 
com o objetivo de dividir e repartir as foras de 
Batista por vrias provncias. No dia marcado, fi-
zemos atos guerrilheiros em Santiago de Cuba, 
em Havana e em vrias outras provncias. Mas, 
por causa do mal tempo


1
7
7








O        MEDICO DA SIERRA 
MAESTRA

Uma das muitas crticas que ouvi s 
primeiras edies de A Ilha referia-se ao 
processo revolucionrio cubano. Em dezenas de 
debates e conferncias, era inevitvel a pergunta:
Quem censurou o captulo que falaria da 
campanha na Serra Maestra?. E a resposta, 
sempre a mesma: ningum censurou nada. Apenas 
o pouco tempo que tive para realizar a primeira 
reportagem impediu-me de tratar de todos os temas 
ligados  histria recente de Cuba.

Este depoimento, creio, preencher de 
alguma maneira essa lacuna. O mdico Julio 
Martinez Paes, um simptico e sorridente 
magricela de 50 anos, hoje diretor de um hospital 
de ortopedia em Havana, talvez seja hoje a 
testemunha que mais de perto acompanhou a luta 
de Fidel Castro e de seus homens na Sierra 
Maestra. Trabalhando primeiro na clandestinidade, 
em Havana, e depois como chefe dos servios m-
dicos de campanha na serra, Martinez Paes s 
esteve ausente a um combate de toda a escalada 
guerrilheira cubana.
Em algumas horas de conversa com ele, no 
ms de junho de 1977, em minha segunda viagem a 
Cuba, pude colher o relato que se segue, e que , 
em suas palavras, um pouco daquilo que Histria 
no registrou em detalhes.

Quando Fidel partiu do Mxico com o iate 
Granma, em direo a Cuba, ns j tnhamos 
sido avisados da data da chegada. Mas, 
temendo que as informaes vazassem, e para 
deixar o governo confuso, ele no disse onde ia 
desembarcar. Fidel nos avisou o dia em que 
chegaria para que ns, o pessoai da 
clandestinidade em Cuba, fizssemos atos 
revolucionrios por todo o pas, com o objetivo 
de dividir e repartir as foras de Batista por vrias 
provncias. No dia marcado, fizemos atos 
guerrilheiros em Santiago de Cuba, em Havana 
e em vrias outras provncias. Mas, por causa 
do mal tempo


1
7
7

no mar, o Granma levou uma semana inteira na viagem de Tuxpn, no Mxico, at as praias Cobradas, em 
Cuba, e acabou no chegando na data prevista.

Quando o Granma chegava s costas de Cuba, um barco de cabotagem o identificou e avisou a Batista, em 
Havana. Quando a fora area chegou  praia, os guerrilheiros j haviam desembarcado em terra firme, mas 
ainda no tinham atingido as montanhas distantes da costa. Embora se escondessem sob as rvores, no 
meio dos charcos, eles j tinham sido identificados. Ia comear a batalha, a primeira, conhecida como a Batalha 
de Alegria de Pio  nome daquele lugar.
Fidel dividiu os 82 guerrilheiros que vinham no Granma em vrios comandos, espalhando-os pela regio, 
para dificultar o ataque das tropas inimigas. Um dos grupos, o que era comandado por Fidel, tentaria furar o 
cerco e chegar s montanhas. Marcou-se um ponto, j na Sierra Maestra, onde os sobreviventes deveriam 
se encontrar depois da refrega. Cada comando tinha de dez a doze componentes.

Um dos comandos partiu para Havana, para iniciar uma rede clandestina com o nome de 
Movimento 26 de Julho, em homenagem  data da tentativa de tomada do quartel Moncada, ocorrida 
trs anos antes, em 1953. A verdade  que o grupo dos 82 iniciais foi praticamente dizimado pelas for-
as da ditadura. Quando Fidel chegou  serra e se reuniu com os sobreviventes, perguntou: Quantos 
somos?. Algum lhe respondeu: Somos catorze, comandante. Foi a que ele, tremendamente 
otimista, pronunciou o discurso mais curto que j fez e que far em toda sua vida. Colocou-se de p e 
disse: Pois se somos catorze, essa guerra j est ganha. Um dia, passado algum tempo, Fidel me 
contou que a coisa que mais o deixou furioso, naquele momento do reencontro, foi ler num jornal uma 
declarao feita por Batista em Havana. Sem saber de nada, Batista disse aos jornais que, depois da 
batalha de Alegria de Pio, s sobraram uns catorze homens, que morrero de sede e de fome na 
selva. Foi a casualidade, a coincidncia da cifra exata que o irritou.

Nessa poca eu estava em Havana, trabalhando na clandestinidade com Armando Hart, Hayde 
Santamaria, Javierito


178
Passos e Manolo Piffeyro. Eu tinha sido encarregado de levar e trazer Armando e Hayde 
para todos os lados, transport.. los para os encontros clandestinos que tinham com outros ati-
vistas. Eu tinha trinta anos, nessa poca, e era responsvel tambm pelo trabalho de conseguir lugar 
para esconder os companheiros que chegavam aqui, para contatos, vindos da Sierra. O primeiro que 
escondi foi o ajudante do piloto do iate Granma, um tal Pitigrilo. Ele havia se comprometido com 
Fidel a ajud-lo na travessia do Mxico at Cuba, e aqui terminaria sua misso. Eu o mantive 
escondido por uns quinze dias, mas ao fim desse curto perodo o SIM  Servio de Inteligncia 
Militar  comeou a fazer buscas no quarteiro onde eu morava. Algum da minha famlia viu a via-
tura do SIM nas imediaes, me avisou e samos, Pitigrilo e eu, as pressas.

Parece mentira: quando fugamos do bairro, no meu carro, a gasolina acabou. Continuamos a 
p, eu tentando arranjar um lugar para esconder o pobre marinheiro. Primeiro eu tentei deix-lo na 
casa de um amigo que se dizia revolucionrio. Mas ele se apavorou ao ver ali, em carne e osso, o 
marinheiro do Granma, e comeou a dar desculpas. Disse que sua cozinheira era namorada de um 
soldado, e que poderia denunci-lo. Levei-o  casa de uma outra pessoa, e mais outra, e fiquei do 
meio-dia s seis da tarde sem conseguir nada. Resolvi reabastecer o carro, consegui um pouco de 
gasolina, rodamos at um posto e, imagine, quando enchamos o tanque, parou ao nosso lado um 
carro da polcia poltica, tambm para botar gasolina. Por alguns instantes, pensamos que eles 
estavam  nossa procura. Mas isso durou pouco e, por sorte, eles se foram sem nos reconhecer.

Foi a que eu me lembrei de uma clnica onde eu havia trabalhado, logo que me 
formei, na esquina da rua A com a rua 26, em pleno centro do bairro El Vedado. Procurei o 
administrador da clnica, que era um revolucionrio muito amigo meu, e lhe disse: Ou ns 
internamos esse homem aqui, ou ele est perdido. E o homem ficou l por sete dias, at que 
alugamos um apartamentozinho para ele, em nome de uma companheira nossa, militante do 
M-26. Ns nos revezvamos, ela e eu, levando comida para ele l. E ela tanto viu o sujeito que os 
dois se apaixonaram e decidiram se casar.


179


1
Mas, como sair com ele de Cuba e lev-lo ao Mxico? Legalmente era impossvel embarc-lo, pois seu 
nome, quela altura, j era conhecido. Tentar asilo nas embaixadas era impossvel: Batista tinha 
mandado cercar todas.

Ai eu imaginei um plano: passei a ir diariamente  embaixada do Mxico, a pretexto de pedir 
prospectos tursticos. Nessas idas, eu observava detalhadamente o prdio da embaixada, at que descobri 
que, dali da sala de visitas, era possvel passar at a parte interna da casa, onde viviam os diplomatas. Voltei ao 
apartamento onde estava Pitigrilo e lhe fiz uma pequena planta-baixa com todos os detalhes que pude 
guardar. Um dia fomos os dois para l, e como os guardas j se haviam familiarizado comigo, passamos 
os dois sem problemas. L dentro, enquanto o funcionrio foi buscar uma revista para mim, eu indiquei a 
porta por onde Pitigrilo deveria passar. Para resumir: ele passou bem uns seis meses l, como asilado na 
embaixada de seu prprio pas, at conseguir viajar.

Isso foi mais ou menos em abril. S em junho eu pude ir para a Sierra. No dava para ir antes, 
porque eu tinha um companheiro em Havana, que trabalhava numa agncia do Fayr Bank, que era um 
contato importante do Movimento. E eu era a ligao com ele, tinha antes que arranjar algum que 
passasse a fazer meu trabalho. Ele tinha uma misso importante. Era chofer de um caminho do 
banco, e fazia viagens semanais at Santiago de Cuba, levando malotes vazios para transporte de 
dinheiro. A gente recebia mensagens de Fidel, dizendo que precisava de armas, de uniformes, de comida, e 
semanalmente metamos tudo isso debaixo dos sacos vazios. Uma vez por semana l amos ns: 
Manolo Piieyro e eu, entre meio dia e duas da tarde, quando no havia ningum no banco, apenas 
esse companheiro, chamado San Pedro, levando armas, munio e uniformes. Ele tinha um salvo-
conduto que o liberava das revistas na estrada at Santiago de Cuba, e passava sem problemas com o 
material.
Quando j tnhamos mandado tudo o que era necessrio para a Sierra, eu e Manolo Piieyro 
decidimos partir para a guerrilha, juntamente com Javierito Pasos. Fomos no meu carro, que ainda no 
estava queimado, at Santiago de Cuba. Bem, numa revoluo as coisas mudam muito depressa. O


180
endereo que nos d~ram em Santiago era o de um laboratrio. Batemos na Porta e nos recebeu 
um funcionrio  e no havia o menor sinal de que ali fosse um aparelho. Ligamos de l para a 
casa de Frank Pas, um dos chefes revoluci onrios na cidade, e ele quase caiu para trs. No 
me digam que vocs esto a, gritou ele pelo telefone. Essa casa esta queimada h mais d~ trs 
dias. Deram uma batida e desc obriram esse endereo. Esperem a que mando algum limpo busc-
los. Santiago de Cuba tinha coisas curiosas. Frauk Pas, por exemplo, ~stava sendo 
procurado, no podia and ar pelas ruas. Mas podia falar pelo telefone sem medo de ce nsura, 
porque todas a~ telefonistas da cidade eram militantes do Movimento 26 de Jilho. No s 
podamos falar  vontade como at tnhamos acesso a conversaes oficiais. Quando uma 
telefonista percebia uma ligao oficial, dava um jeito de colocar um de n~ na extenso, para 
que soubssemos com antecedncia de muitos planos da ditadura.

Passados uns dez minutos do telefonema a Frank Pais, apareceram trs carros para buscar-nos. 
Cada um de ns foi para uma casa e eu, depois de passar dois dias na cidade, fui levado para Manzaiillo, 
onde me esperava Clia Snchez. Passamos uma tarde ali, e no dia seguinte seguimos para a Sierra 
Maestra, eu e o doutor Pasos, pai de Javierito. Ns fomos numa camioneta, uma espcie de pick-up, com 
dois bancos na frente e um grande porta-bagagens atrs. Esse porta-malas tinha um fundo falso, sobre o 
qual colocvamos pneus, ferramentas e malas. Ns fomos at o engenho Estrada P~il~
ma, onde havia um quartel, passamos sem problemas e fomos at um determinado ponto. onde a pick-up seria 
substituida por um jipe, j que ~ caminho piorava muito. No lugar mar-
?        cado encontramos duas pessoas  nossa espera. Depois viim a saber que um deles era o famoso padre 
Sardia, e o outro um 2aroto chamado Julio Perez, que subiriam conosco.

Pois bem: o caninho era to ruim que poucos quilmetros depois tivemos Cue trocar o jipe por 
dois cavalos. Eu e o menino tivemos 
qu~ ceder os cavalos para o doutor 
Pasos e para o padre Sardifi~, que 
eram os dois mais velhos, e seguimos, 
os mais jovens a p. amos margeando 
o rio Estrada Palma, o qual tnhamos 
que cruzar e recruzar rias vezes para 
ganhar tempo, pois ele  um rio 
sinuoso corno uma ser181
pente. Caminhamos um dia at chegarmos a um barraco, onde nos deram arroz e cenourinha cozida 
para comer. Desse barraco em diante tivemos que seguir com um guia que conhecia o caminho at o sop da 
Sierra Maestra. Logo de sada ele nos avisou:

 Se eu tirar o bon da cabea, vocs tratem de se esconder no mato. Essa vai ser a senha para 
avisar que h soldados de Batista por perto. E no saiam do mato at eu dar um sinal.

Andamos umas poucas horas e o guia tirou o bon. Nos metemos no mato, com cavalo e tudo, e 
ficamos l, encolhidos, embora no vssemos sinal de perigo  vista. Pelas frestras dos galhos podamos 
ver o guia,  distncia, olhando para trs, como se nos procurasse. Ele acabou entrando no mato, 
chamando-nos pelo nome. Ele no entendia o nosso susto e ns dissemos que apenas obedecramos 
ao sinal. Ele se desculpou:

        Eu me esqueci da senha. ifl que tinha um negcio me picando a cabea e eu tirei o bon para 
dar uma coadinha.

Por volta da meia-noite, a sim, surgiu perigo. Um emissrio avisou ao guia que havia uns soldados 
de Batista bebendo num botequim de um casario, dezenas de metros adiante. O guia nos escondeu no mato e 
foi ver de perto o que era. Foi at bom, porque pudemos dormir at as duas da manh e descansar um 
pouco da caminhada. De madrugada ele voltou dizendo que estava tudo bem. Voltamos a andar e s seis 
da manh passamos por um barraco, onde tomamos caf com gengibre e continuamos a marcha at a 
hora do almoo, a pelo meio-dia. Comemos arroz com frango na casa de um campons. Depois do 
almoo continuamos caminhando, mas o doutor Pasos j estava sumamente fatigado, no conseguia 
mais andar.
Ele tinha sado com uma malinha de mo, com roupas, e uma pasta com documentos.  medida que 
avanvamos, ele ia deixando pelo caminho a carga em excesso. Primeiro abandonou a pasta com 
documentos. Depois jogou fora a mala de roupas, e no fim teve que livrar-se at do palet que usava, 
seguindo em mangas de camisa. E nas rampas mais fortes, o guia tinha que se colocar por trs do 
doutor Pasos e


182
empurr-lo pelo traseiro, para que ele pudesse caminhar. Por volta das seis da tarde chegamos a Palma 
Mocha, que  um dos primeiros plats do Pico Turquino, j em plena Sierra Maestra, onde Fidel nos 
esperava com sua pequena tropa. Naquela poca, todos os homens, somados, no chegariam a 35 pessoas.
Ali nos abraamos e Fidel, muito feliz com nossa chegada, queria saber como tinha sido a 
caminhada at Palma Mocha. Quando contei-lhe o susto que passramos com os soldados de Batista, 
ele soltou uma gargalhada. No entendi direito e Fidel me disse: ~ que vocs cruzaram com soldados nossos, 
disfarados com roupas do exrcito de Batista para poder atuar mais facilmente. Isto era o ms de junho de 
1957.

Depois de falar com Fidel, sai percorrendo as redes de campanha para conhecer as pessoas que 
j lutavam na Sierra. Para minha surpresa, muitos dos guerrilheiros eram amigos meus de Havana, colegas de 
escola, que eu jamais poderia imaginar que se engajariam num projeto daqueles. Na manh seguinte, bem 
cedinho, Fidel nos acordou a todos para recomearmos a marcha. A vimos que o doutor Pasos no podia 
andar. Ele no conseguia sequer descer da rede onde dormira  tinha os msculos rijos de tanto cansao e 
fadiga. Para no deix-lo para trs, Fidel ordenou que ficssemos mais um dia ali, at que o velho Pasos 
melhorasse. Mas na manh seguinte a coisa se repetiu. Fidel j estava preocupado, pois no gostava de passar 
mais de uma noite no mesmo local. A verdade  que, apesar das massagens e dos remdios que demos ao doutor 
Pasos, ele s conseguiu andar no outro dia.

Mas o velho Pasos voltaria a ter problemas. Alguns dias depois de marcharmos serra acima, ele comeou a 
ter diarrias brbaras. Dei-lhe todo o remdio que trazia na malinha, mas nada lhe fazia efeito. Parece que ele 
estava acostumado a um regime de protenas, e ali s conseguamos alimentos hidrocarbonados. Passados mais 
alguns dias, Fidel compreendeu que ele no podia seguir conosco. Convocou a tropa e disse que o velho 
Pasos deveria voltar  cidade para trabalhar na clandestinidade, porque ali em cima ele nos colocaria a 
todos em permanente risco.


183


~U~IYFRSJO~flf DE CIII~S OQ SU[
OIOIrflTrflI
Logo que eu cheguei  Sierra~ uma das primeiras pessoas que quis conhecer foi o Ch. Perguntei por ele a 
Fidel, que me respondeu que Guevara tinha ficado numa casa de camponeses, cuidando dos feridos da Batalha 
do Uvero. Algumas semanas depois  e a o velho Pasos j tinha ido embora  estvamos em volta de uma 
fogueira, uma noite, quando o Ch apareceu. Ns tnhamos ordem de nunca falar alto. Conversvamos sempre 
aos cochichos, como se estivssemos contando um segredo, para no chamar a ateno. A dois metros de 
distncia era impossvel saber o que um companheiro falava ao outro  exatamente ao contrrio do que 
ocorria com os soldados de Batista. Estes riam, gritavam, falavam aos berros entre si  o que nos possibilitou 
vrias vezes localizar bandos deles. Nessa noite, a pelas onze e meia, nos espantamos com o vozerio no 
acampamento. Cheguei a pensar que estvamos sendo cercados por tropas da ditadura, e pulei da rede 
assustado. S a percebi que era o Ch que chegava, e os companheiros no se contiveram ao saud-lo.

Minutos depois de ter sido apresentado a ele, o Ch volta-se para mim e diz: Julio, aqui te trago um 
presentinho. Era uma caixinha de metal, retangular, trancada a chave. Ele disse: Veja, este  o meu 
presentinho. So todos os meus instrumentos de cirurgia. De hoje em diante, no sou mais mdico, sou apenas 
guerrilheiro. De forma que a partir de agora voc  o mdico oficial da guerrilha. Na verdade, essa renncia  
Medicina foi apenas formal. Depois, quando ele comandava sua prpria tropa, vrias vezes teve que operar fe-
ridos e at arrancar dentes de soldados.

A vida na serra era durssima. Levantvamo-nos s seis da manh, sempre, e marchvamos at s onze 
horas, mais ou menos, quando Fidel ordenava um descanso de dez minutos. Recomevamos a marcha, 
cruzando a montanha de um extremo ao outro, e s amos parar s seis da tarde, quando comeava a escurecer. 
Geralmente essa parada da tarde era feita num plat protegido. Nunca acampvamos no meio da trilha de 
marcha. mas sob a copa de algumas rvores. Amarrvamos as redes em troncos de arvores e prendamos com 
cordinhas um pedao de nylon, que fazia as vezes de telhado, para nos protegermos da chuva e dos insetos.


184
Dividamo-nos em grupos de quatro ou cinco para fazer a comida. Um grupo cavava um buraco no 
cho, onde se acendia o fogo. Outro grupo ia buscar lenha seca nas imediaes do acampamento  e era 
nesse grupo que eu geralmente ia. Um terceiro grupo fazia o trabalho mais difcil:
buscar gua. Esses soldados tinham que descer a serra at a beira do rio e depois subir tudo de novo, 
trazendo latas dgua. O ltimo grupo ficava encarregado da comida. O companheiro Universo Sanchez, 
chefe da minha esquadra  que era a que marchava logo atrs da de Fidel  era o cozinheiro. Uma vez 
feito o buraco, enfivamos duas forquilhas no cho, passavamos um pau por elas e ali pendurvamos o 
caldeiro.

?        Se havia feijo, comamos feijo. Se havia apenas arroz, s se comia arroz. Se s tnhamos cenourinha 
amarela na regio h muita cenourinha  esse era a comida do dia. Nos raros dias em que havia feijo, 
arroz e cenourinha, comamos como se estivssemos num banquete. A verdade que s comamos uma 
vez por dia, por volta das dez da noite.
?        E, guardados pelas sentinelas de planto, dormamos at s seis da manh seguinte.

Aps alguns dias de marcha, chamei Universo Sanchez para manifestar-lhe algumas dvidas 
minhas. Venha c, Universo, disse-lhe eu. Voc est entendendo essa marcha? Que fazemos ns por 
aqui, vagando o dia inteiro, comendo  noite, marchando de novo todo o dia seguinte, pulando de 
montanha em montanha? Voc no cr que seria melhor termos um acampamento fixo?.

Universo riu muito ao responder-me. ~ que Fidel cuida

?~        muito da segurana da sua tropa, disse ele. E nunca dorme duas noites no mesmo lugar, para confundir 
as tropas de Batista. Outra razo importante  que, aps um combate, temos que sair velozmente, a toda 
marcha, para que, quando venha a aviao para bombardear-nos, j estejamos longe do lugar onde 
pensem que estamos. E para poder fazer essas marchas foradas montanha acima, temos que estar 
treinados, caminhando todos os dias.

E estvamos nesse sobe e desce quando se deu a primeira batalha de que participei, a de 
Palma Mocha. Foi em Palma
Mocha, numa batalha durssima, que eu posso dizer que de


185
fato conheci Fidel. E foi ai tambm que ficou manifesta a coragem, a valentia e a deciso dele. O 
emissrio de Fidel ao quartel de Palma Mocha  que ficava s margens do rio do mesmo nome, quando 
ele desemboca no mar, ao sul da Sierra Maestra  esse emissrio voltou dizendo que devia haver uns 35 a 40 
soldados de Batista aquartelados l. Caminhamos o dia todo e chegamos s oito da noite a um porto 
prximo do lugar do combate. Dividimos as poucas latas de leite condensado que havia e fomos 
dormir. Fidel disse que acordaramos por volta da meia-noite, para que, respeitando um velho hbito 
seu, atacssemos o quartel por volta das duas da manh.
Quando faltavam poucos minutos para partirmos, chegou um campons com novas e terrveis 
informaes para Fidel:
uma nova tropa de reforo havia chegado ao quartel, que passara a ter cerca de 300 homens armados. 
Bem, j que estamos aqui, prontos, disse Fidel, vamos atac-los assim mesmo. Que lhes parece?. 
Embora fssemos apenas uns trinta, aceitamos o desafio. Comeamos a marcha vadeando o rio Palma 
Mocha, e no sei como no camos dentro da gua. De noite e sem lanternas, ns nos equilibrvamos 
sobre enormes pedras escorregadias, beirando o no.
Chegamos l alguns minutos antes das duas da madrugada e montamos uma espcie de campo de 
operaes sobre uma pequena elevao que nos permitia ver todo o quartel. s duas em ponto Fidel 
ordenou que se abatesse a sentinela e imediatamente depois que metralhssemos as tendas de cam-
panha montadas  beira da praia, onde estavam acampados os oficiais. Um minuto depois, dezenas de 
soldados e oficiais saiam espavoridos das tendas e do quartel, alguns deles nus e desarmados. Praticamente 
todos corriam para os barracos de camponeses vizinhos ao quartel, pois sabiam que ali estariam 
protegidos, porque no iramos carregar contra casas de civis.

Refeitos do susto, comearam a responder ao nosso fogo. Depois de uma hora e meia de combate, 
Fidel mandou-me recolher nossos feridos, uns cinco, e atravessar o rio com eles, para medic-los fora da 
zona de fogo. No sei como atravessamos o rio sem morrer, tal era a violncia da artilharia. Meia hora depois, 
Fidel apareceu por l dizendo que eu de-


186
veria transferir os feridos aos cuidados do doutor Sergio DeI Vale, que recm-chegara  Sierra, e voltar para o 
campo de batalha. Para resumir:  uma da tarde chegamos ao vilarejo de Palma Mocha  e pude ver a aviao 
de Batista bombardeando o ponto em que estivramos at o raiar do dia. A eu pude entender na prtica a ttica 
de Fidel que me surpreendera nos primeiros dias na serra. Os soldados no podiam imaginar que 
consegussemos caminhar to depressa.

De Palma Mocha, vencedores da batalha, seguimos para o Pico Turquino, que  o ponto mais alto da 
Sierra Maestra e de Cuba. ~ uma regio to inspita que no se consegue nem gua ali,  preciso levar os 
cantis cheios. Pouco depois de acamparmos, chegou um mensageiro, um campons da regio, para avisar a Fidel 
que do outro lado do pico vinha subindo a tropa do major Sanchez Mosqueda, do exrcito de Batista, para 
enfrentar-nos. Imaginei que estvamos perdidos  afinal, a tropa estava extenuada da batalha de Palma 
Mocha e da caminhada at ali, mas Fidel lembrou-me de uma coisa bvia: na serra, ganha os combates 
quem est por cima. Quem vem subindo perde sempre, ainda que tenha mais soldados. Mas nesse dia nem 
chegou a haver enfrentamento:
quando Mosqueda soube que era Fidel pessoalmente quem comandava a tropa, deu meia-volta e retornou.

Fidel tem uma intuio sobre-humana. A tal ponto que ele chega a adivinhar o que o inimigo vai fazer. 
Eu pude ver isso vrias vezes. Lembro-me de uma vez que estvamos num lugar chamado Arroyones, 
no sop da Sierra Maestra, inspecionando a regio. No meio da noite chega um mensageiro para avisar que 
uma tropa de Batista passaria pelos arredores do nosso acampamento. Vamos debochar deles, disse Fidel 
sorridente  tropa, e traando um plano sobre a mesa. Vamos embosc-los quando eles passarem perto de uma 
casinha que h por aqui explicou num mapa. Imediatamente a tropa vai retroceder e pegar um caminho que 
fica a leste deste ponto  e ali colocaremos uma segunda emboscada. A os soldados tentaro fugir por um outro 
caminho, um pouco mais atrs. Aqui colocaremos a terceira emboscada. E eu, que participei pessoalmente 
desse ataque, pude ver que aconteceu exatamente como ele previa.


187
Em outra ocasio ocorreu o mesmo. Fidel sabia que cada vez que ele passava por um casario da serra, c 
embaixo, perto do descampado, a represso de Batista ao pueblo era imediata. No mximo dois dias depois, 
vinham os soldados matando civis, incendiando casas de camponeses, saqueando a populao. Deixavam o 
povo desabrigado e iam embora. Dias depois, Batista mandava publicar nos jornais de Havana:
Choque entre os soldados de Batista e os de Fidel Castro. Da nossa parte, sem novidades. Da parte de Fidel, 
tantos mortos e tantos prisioneiros~~. Na verdade eram combates que s existiam na imaginao de Batista, e 
mesmo que ningum acreditasse muito nas notcias, ele sempre obrigava os jornais a publicar coisas assim. Um 
dia Fidel nos chamou e disse: Bem, j que Batista fica noticiando essas coisas, vamos a Pino del gua. Este 
era um povoado no sop da serra, onde havia uma grande serraria e um quartel. Chegamos l s cinco da tarde e 
a primeira coisa que Fidel fez foi comprar uma vaca  e, como sempre fazia quando comprava de camponeses, 
pagava o dobro do preo pedido. Matamos a vaca e dividimos a carne entre os moradores pobres da regio 
e ns mesmos. Pela primeira vez, em muitas semanas, pudemos comer umas bistequinhas.

Dormimos ali mesmo  e de novo vimos algo que se tornou corriqueiro: camponeses disputando o 
privilgio dc oferecer uma cama em sua casa para Fidel dormir. Despertamos cedinho na manh seguinte e os 
empregados da serraria arranjaram dois caminhes para nos transportar at fora da cidadezinha. Os caminhes 
nos deixaram em Soijador, a alguns quilmetros dali, e, sem que ns mesmos soubssemos, Fidel havia deixado 
l, em Pino dei gua uma emboscada montada. Na verdade, eram trs emboscadas colocadas nos trs caminhos 
que do acesso a cidade  uma delas era chefiada pelo Ch  esperando que chegassem, como sempre acontecia, 
os soldados de Batista.

Ns j estvamos longe, em Soador. Nessa cidadezinha havia um outro quartel, chefiado por Musferrer. 
um brutal torturador, que o povo chamava de la porra de Batista  um dos piores assassinos do regime. 
Chegamos l e encontrimos o quartel fechado, vazio. Fidel estava louco para acertar contas com Masferrer, mas 
se frustrara ali. J que estamos


188
aqui, disse o comandante, vamos ver se encontramos uma bodega aberta para comprarmos 
vveres, lataria e leite condesado. Saiu um grupo e comprou leite, chocolate, sardinhas em lata, salsichas 
e todas essas coisas. E ele prprio saiu com outro grupo de homens e foi at um caf que havia ali, com 
uma dessas vitrolas caa-nqueis e umas quatro ou cinco mesinhas com gente jogando, no meio de alguns 
casais bailando. Quando os fregueses viram aquele grupo esfomeado, barbudo, aquele bando de homens 
sujos, o bar esvaziou. Os pri.. meiros homens da tropa tiveram que correr, avisar aos casais que no, que 
ningum estava ali para assaltar ou fazer arruaas, mas que era Fidei que estava de visita. Aos 
poucos, o salo foi-se enchendo de novo e em minutos toda a populao de El Sofrador estava 
encarapitada nas poitas e janelas do bar para ver Fidel e os guerrilheiros barbudos.

Depois de muita conversa, compramos o que tnhamos que comprar, enchemos as mochilas e 
saimos. Arranjamos um bosque nas imediaes, montamos as redes e dormimos ali. Quando acordamos, 
na manh seguinte, tivemos notcia de que tinham chegado a Pino del gua trs caminhes. O pri-
meiro com sessenta soldados de Batista. Ao passar pela estradinha onde estava a emboscada do Ch, 
foram metralhados, e os nicos sobreviventes foram o ajudante do chofer e um mdico que ia na cabine  
os restantes morreram na hora. O segundo caminho vinha vazio e foi apreendido quer dizer, vazio de 
soldados, pois vinha abarrotado de comestveis e de armas, para abastecer a tropa. O terceiro caminho, 
que estava tambm lotado de soldados, deu meia-volta, quando o chofer percebeu o que os esperava, e 
assim conseguiram fugir. A verdade  que nesse botim o Ch conseguiu arrebanhar para ns trs bazucas, 
trs metralhadoras grandes,
4
de trip, 61 fuzis Garrant e 11 mil balas de fuzis. Quando chegaram os reforos de Batista, s 
encontraram duas carcaas de caminhes carbonizados. O Ch j estava longe.

Mas, nesse meio tempo, Masferrer j havia regressado ao quartel de El Soilador. Nos portes da 
fortaleza ele encontrou alguns 
jornalecos manuscritos que ns 
tnhamos feito, com provocaes  sua 
pessoa e  ditadura de Batista. At 
nos postos do povoado havia desses 
pasquins com insultos e desafios a 
Masferrer, assinados por ns. Mas 
apesar de to189
dos os estratagemas montados no deu para pegarmos o maldito. O quartel era fortificado demais e nos 
retiramos durante a noite. Na manh seguinte paramos um pouco. Na tal parada feita na bodega, Fidel havia dito 
aos companheiros que quem fumasse devia se abastecer de cigarros ali, e os que gostassem de beber que 
tomassem seus tragos, sem grandes porres. Eu, que no bebo nem fumo, pedi a Universo Sanchez que 
trouxesse para mim uma barra de chocolate, das grandes. Eu queria lev-la na mochila, para algum aperto 
do estmago.

E foi nessa parada matinal que ouvi Fidel dando uma bronca feia na sua tropa. Como minha esquadra 
vinha logo atrs da dele, deu para ouvir o que ele dizia. O comandante, muito nervoso, dizia que no podia 
admitir aquilo, que nesta tropa todos tinham que repartir tudo, que ningum podia ter nada mais que o outro. 
Ao ouvir aquilo, achei que era comigo. Fui at l, onde ele estava e lhe disse: Olhe, Fidel, eu no tenho o 
costume de estar escondido atrs das rvores ouvindo suas broncas, mas estvamos muito perto uns dos outros e 
eu ouvi voc falando. E enfiei a carapua na cabea, mas quero dar-lhe uma explicao. J faz mais de quatro 
meses que estou aqui, e esta  a primeira vez que paramos num bar para fazer compras. Eu no sabia como as 
coisas funcionavam, e pedi a Universo que me comprasse um chocolate. Afinal, no fumo e no bebo. Mas aqui 
est a barra de chocolate. Fidel ficou uma fera e me disse: No doutor, no me diga isso. Tome seu chocolate. 
Eu no estava dizendo isso para o senhor, nem sabia desse seu chocolate. Eu falava da distribuio de 
armas. Para que o senhor no pense que estava dando-lhe uma indireta, olhe o que eu prprio tinha comprado 
para dar-lhe de presente: um quilo de chocolate em barra. Eu acabei dividindo o chocolate com a tropa.

Um pouco depois dessa cena, Fidel nomeou o primeiro comandante da guerrilha, alm dele prprio. Na 
hora de dividir as armas tomadas pelo Ch, Fidel chegou-se para ele e disse: De agora em diante, tu s o 
comandante de metade da tropa. Eu fiquei junto com Fidel. E seguimos naquele ziguezague pela Sierra 
Maestra. Fidel fazia isso por duas razes: para conhecer melhor a serra e para ter contato mais


190
prximo com os caniponeses. Com isso, cada vez que chegvamos a um casebre, os moradores j 
sabiam que na tropa de Fidel vinha um mdico. Ento eu abria uma espcie de consultrio ali mesmo, na mata, e 
minutos depois comeavam a chegar camponeses de todos os lados. No sei como eles se avisam, mas  um 
sistema eficientssimo. E eu, que sempre fui ortopedista, acabei transformandome em clnico geral e, acima de 
tudo, em pediatra.

Uma vez eu estava em um barraco, numa clareira, um lugar sem rvores, que seria um alvo formidvel 
para a aviao da ditadura. Fidel viu aquela movimentao em volta da minha mesa e me disse: Olha, v se 
voc se mete logo dentro do bosque com essa gente, porque se um avio nos localiza aqui, no sobra ningum. 
A partir desse dia, passei a montar minha barraquinha de mdico sempre dentro de algum matagal bem 
coberto por rvores. E Fidel aproveitava esse tempo para fazer propaganda poltica. Enquanto eu, de um 
lado, atendia aos doentes, ele aproveitava os que esperavam, ou que j tinham sido atendidos, para 
conversar. E lhes falava que amos fazer a reforma agrria, que eles no deviam mais pagar aluguel aos donos 
da terra, que enquanto estivssemos na serra eles no tinham mais obrigaes de pagar aos donos  e que 
depois que descssemos  cidade, a sim, eles seriam definitivamente donos da terra. Ele insistia em que 
a terra era de quem trabalhava nela, no do dono que a alugava. E o poder de persuaso desse homem  
to grande que eu vi centenas e centenas de camponeses que eram batistianos se transformarem em 
fidelistas depois de alguns discursos dele.
Nessas condies, chegou um momento em que Fidel conhecia a Sierra Maestra melhor que os 
camponeses que nasceram ali e que haviam ensinado tudo aquilo a ele. Imagine o que seja passar dois anos 
andando para baixo e para cima, dia e noite, quase sem dormir e sem comer. No fim, Fidel conhecia aquilo 
dedo a dedo, e a todos os habitantes da Sierra. Ele virou um dolo da populao.

s vezes apareciam os chvatos, que era como chamvamos os espias de Batista. Um dia apareceu um 
disfarado de vendedor de bilhete de loteria. Mas veja que idiota! Que iria fazer um plena Sierra Maestra, no 
meio de uma revoluo, um vendedor de bilhetes de loteria? Foi descoberto e


191
preso  e logo confessou que estava ali para passar informaes ao exrcito sobre a real situao da tropa.

Quer ver outra coisa? Quando eu era estudante conheci na Universidade de Havana um policial chamado 
Evaristo, um magrela, mais magro que eu. Ele aparecia sempre no hospital para me visitar, para levar parentes 
doentes. Quando a luta emerge, ele se coloca do lado de Batista, mas eu no sabia disso. Passado algum tempo, 
eu j estava na serra, sentado numa pedra, no meio de uma trilha, a alguns metros de distncia de Fidel, que 
estava dentro de um casebre abandonado estudando uns mapas com um grupo de guerrilheiros. A me aparece o 
tal Evaristo pela frente. Como ele havia engordado muito, eu no o reconheci. Ele vinha armado, com uma 
dessas pistolas mexicanas, com a coronha dourada, e me perguntou: Fidel est por a? Eu lhe disse que no, 
que Fidel estava noutro ponto da serra. E como posso fazer para encontrar-me com ele?, perguntou. Pedi que 
ele esperasse um pouco, alegando que ia ver com uns amigos onde Fidel estava naquele momento. Fui at o 
barraco e disse a Fidel que o tal sujeito tinha uma cara que me era familiar, mas que eu estava desconfiado. Fidel 
olhou por uma fresta e me disse:
Mande-o entrar, eu sei quem . Subimos eu e o visitante, mas eu de olho fixo na pistola. Quando 
chegamos ao barraco, Fidel, num gesto rapidssimo, foi cumprimentando o intruso e metendo a mo em 
sua cintura: Ol companheiro, que bela pistola voc tem, disse o Comandante, arrancando-lhe a arma da 
cintura. E em seguida virou-se para os soldados que o cercavam: Prendam esse homem, que  um policial da 
ditadura. S a percebi quem era ele. Ato contnuo, entra uma sentinela esbaforido, querendo saber onde 
estava Fidel. Levamo-lo  presena do Comandante e ele lhe disse: Fidel, acabamos de saber que 
Batista deu dez mil dlares para um homem mat-lo. Parece que o espio burlou a vigilncia e ja esta 
na serra. S sabemos que ele usa uma pistola de cabo dourado. Fidel riu e tirou do bolso a pistola. No 
dia seguinte, s sete da manh, Evaristo era fuzilado.

Todos ns, Fidel inclusive, pensvamos que a guerra fosse durar muitos anos. Porque havia um 
combate, uma emboscada, tomava-se um monte de armas, mas a luta prosseguia, cada dia mais dura, cada dia 
mais frequente. E Batista


192
mandando mais e mais gente para a serra. Em meados de 1958, a ditadura comea a se preparar 
para uma ofensiva muito forte  Sierra Maestra. Sabendo disso, ns tambm nos preparamos. E a 
partir da, Fidel escolheu La Maestra, que  o cume dessa pequena cordilheira, onde se dividem as guas 
pluviais para leste e oeste, para montar, pela primeira vez, um acampamento fixo.

Nessa poca ele me chamou e me pediu que montasse um hospitazinho em El Jigue, um em La 
Plata e um terceiro mais embaixo. Na verdade, eram simplesmente dois barracos, um para operaes e 
consultas e outro para deixar feridos e doentes. Simultaneamente, Fidel comeou a montar trincheiras 
subterrneas em vrios pontos estratgicos da serra  ali dentro, o combatente ficava praticamente s 
com a cabea para fora, e todo o resto do corpo enfiado num buraco. Em cima dessas valetas, colocamos 
galhos secos, terra e mato, de formas que a aviao jamais poderia supor que ali estivessem homens 
escondidos e armados. Assim, esburacamos a Sierra Maestra de Las Vegas e Las Mercedes at La 
Plata, que uma distncia considervel. Onde no havia trincheiras, ramos donos absolutos dos 
cocorutos dos morros, com acampamentos fixos.

Batista ento decidiu despachar trs tropas com objetivos distintos. Uma que sairia de Las Vegas e 
Las Mercedes em direo  serra; uma segunda que avanaria da desembocadura do rio Palma Mocha 
para cima; e uma terceira partiria de Santo Domingo para o norte. A primeira tropa de Batista nos 
derrotou, porque em Las Vegas estava entrincheirada uma tropa muito forte, chefiada por Orlando 
Lara. Ao contrrio de
todos ns, que chegamos  serra um a um, Lara j veio com uma tropa montada, pronta para lutar. Mas ele no 
era ori
5.        undo do Movimento 26 de Julho. Isso significa que seus soldados  to inimigos de Batista como 
ns  no eram fidelistas, mas laristas. No eram inimigos nem discordavam de Fidei, mas recebiam 
ordens e se ligavam at afetivamente a Orlando Lara.

Quando comeou o combate em Las Vegas, uma bazuca das tropas de Batista praticamente arranca 
a perna de Lara, partindo-lhe a tbia em pedaos. Quando os soldados viram seu chefe naquele estado, 
pensaram que ele estava morto e
j        193


~o~I1~nsr~of ~r C~II~S DO Sti~
OIIJ! IflTU~ rr~TDfii
decidiram render-se aos homens de Batista, de forma vergonhosa. Isso causou uma grande comoo na serra. 
Fidel conseguiu descer pessoalmente antes que eles se entregassem ao inimigo, desarmou a todos e deixou-os 
fazendo servios de intendncia, levando recados, fazendo comida, mas sempre desarmados.

A segunda ofensiva de Batista foi feita por mar, ao sul, na regio de La Plata, pelo rio Palma Mocha. Eles 
acamparam na praia, perto de um dos meus hospitais, e ficaram ali por alguns dias, esperando ordens do 
comando batistiano. Eu tinha muita amizade com os camponeses da regio e os avisei do perigo: havia uma 
trilha por trs do casario que dava na praia, e os soldados poderiam subir por ali para atacar. Os filhos dos 
camponeses, que andavam todo o dia por aquele matagal, me garantiram que no havia riscos. Aquela 
estradinha est to arrasada que por ali no sobe nem um bode, disseram eles, para me tranqUilizar.
Mas um ou dois dias depois, vem exatamente um desses meninos, correndo, para me avisar: Doutor, 
doutor, os soldados esto subindo pelo caminho que o senhor disse. Eu imediatamente mandei uma 
mensagem para Fidel, relatando o que acontecia. Entre o ponto em que eu estava e a comandncia de 
Fidel havia uma distncia que demandava duas horas de caminhada a p. No sei como fizeram, mas 
meia hora depois de receber meu recado, Fidel estava com seus homens no alto do tal caminho, esperando o 
inimigo. Poucos minutos de tiroteio foram suficientes para que rechassemos os soldados de Batista.

Eles recuaram algumas centenas de metros e se meteram numas casas, numa colina um pouco mais abaixo. 
Fidel vai cercando-os aos poucos, sem um ataque frontal. Ao final de dois dias de cerco, acaba-se a 
comida que havia nos barracos e, em seguida, a gua. Cada soldado que saa para tentar buscar um caldeiro de 
gua no rio era caado pelas tropas revolucionrias. Eles comearam a sair apenas  noite, mas nem isso era 
mais possvel. O que lhes restava era um pequeno rdio de campanha, atravs do qual decidiram pedir reforos, 
j que no era possvel resistir sozinhos.

L dentro estavam o comandante Quevedo, das tropas batistianas, e apenas 150 homens, de um total de 
300 que co-


194
mearam aquela batalha. Os restantes ou fugiram ou foram mortos. Primeiro apareceu a aviao, 
tentando atirar alimento e armas para os soldados. Mas os campos inimigos estavam to prximos uns dos 
outros que quase tudo o que caia dos aparelhos vinha parar nas nossas mos. Quando um helicptero 
baixava muito, para jogar vveres no meio do casario, ns o abatamos a tiros de metralhadora pesada. 
Isso durou onze dias. No dcimo primeiro dia, Fidel arranjou um altofalante e avisou ao comandante 
Quevedo que no queria matar mais homens. Mas se eles insistissem em permanecer ali, morreriam todos. 
Alm de impedirmos a chegada de reforos por ar, ns j havamos cercado todos os caminhos de 
acesso com poderosas emboscadas. Tudo isso Fidel relatou a Quevedo pelo alto-falante, ao exigir que ele 
se rendesse. Meia hora depois, saam dos barracos o comandante Quevedo, o capito Durn e um tenente, para 
acertar a rendio.

Meus hospitaizinhos foram transformados em priso provisria. Ao todo eram 161 soldados e caixas e 
mais caixas de balas, metralhadoras de trip, bazucas, morteiros. Lembro-me bem de que pegmos ali 112 mil 
balas de fuzil, 161 fuzis Garant, quatro bazucas e seis morteiros. Isso foi o comeo do fim da guerra 
revolucionria. S ai  que percebemos que o movimento seria de fato  e em pouco tempo vitorioso. 
Fidel devolveu as armas aos oficiais e avisou-lhes de que j havia entrado em contato com a Cruz 
Vermelha, pelo rdio, para que no dia seguinte essa organizao mandasse helicpteros para recolher os 
prisioneiros.

 tarde Fidel conversou reservadamente com os trs oficiais. E lhes disse que se eles quissessem 
estavam em liberdade. Mas advertiu-os de que se eles chegassem a Havana, Batista certamente mandaria fuzil-
los. E que se eles decidissem, poderiam ficar por ali mesmo  e foi o que eles fizeram. O tal tenente estava 
ferido na perna e Fidel perguntou-lhe o que ele queria. Se  para pedir alguma coisa, Comandante, disse o 
tenente a Fidel, o que eu quero mesmo uma caneca de caf com leite. Fidel olhou-me de rabo de olho e 
pediu-me a lata de leite condensado que eu guardava como uma relquia, para uma necessidade maior.

Nessa mesma tarde Fidel reuniu todos os presos para um discurso. E lhes falou da essncia daquela 
revoluo, de


195
quais eram nossas intenes, e insistiu em que lamentava muito que tantos homens jovens estivessem 
equivocados e lutassem ao lado de uma ditadura como a de Batista. Ao final, garantiu a todos que poderiam 
dormir tranqUilos, que no lhes ia acontecer nada, assegurando que na manh seguinte eles seriam 
entregues  Cruz Vermelha.

No dia seguinte, s oito da manh, ns nos preparamos para entregar os prisioneiros  Cruz Vermelha, que 
j trouxera helicpteros para recolh-los. Um pouco antes do embarque, um jovem me procura. Olha, doutor, 
este  um retrato da minha me, disse-me o soldado. Eu queria que o senhor pedisse a Fidel para autograf-lo, 
que eu quero levar sua assinatura como recordao desta campanha. Transmiti o recado a Fidel, que assinou 
sobre a foto, e quando levei-a de volta ao rapaz, outro j aparecia com um pedao de papel na mo. Eu 
tambm queria um autgrafo do Comandante, pediu mais um soldado. Levei, Fidel assinou de novo, 
entreguei o papel ao soldado. Para encurtar: todos os 161 soldados que eram nossos prisioneiros 
queriam levar um autogrfo de Fidel como recordao. Era um papelzinho, um retrato do filho, da mulher, um 
santinho, um documento todos j se sentiam amigos de Fidel e queriam levar sua assinatura. A verdade  
que o embarque atrasou uma hora e meia, com os helicpteros parados, esperando a longa fila de ex-
inimigos que aguardavam o autogrfo do Comandante.

quela altura Batista tinha em toda a Sierra Maestra entre 7 mil e 10 mil soldados  sem contar os 
efetivos que mantinha de reserva nas capitais provinciais, para substituies ou emergncias. E ns no 
tnhamos mais que duzentos homens l. Com as armas capturadas na ltima rendio, Fidel se 
prepara, ento, para a terceira mais importante batalha da guerra revolucionria, que foi a de Santo 
Domingo, perto de La Plata, onde estava Sanchez Mosqueda, comandante batistiano. Comea a batalha 
e, logo ao iniciar a subida, Mosqueda  rechaado com morteiros e bazucas. Um tiro de fuzil disparado 
por ns atravessa o pescoo de Sanchez Mosqueda e lhe secciona a medula cervical, deixando-o com 
os braos e as pernas paralisadas. Um helicptero consegue descer no meio do campo de batalha, recolhe 
somente a Mosqueda e deixa abandonados 45 feridos deles, estirados no meio do


196
mato. Como, alis, acontecia sempre com as tropas de Batista. Se eu prprio no curasse os feridos deles, os 
pobres morreriam no mesmo lugar onde foram atingidos.

Mais uma vez tive que recolher esses 45 feridos para cur-los. Um deles era o enfermeiro da tropa de 
Mosqueda. Tinha uma enorme ferida no crnio, mas consegui recuper-lo inteiramente. Quando ficou bom, 
esse moo no quis ser levado pela Cruz Vermelha  disse que tinha sido convertido  nossa causa e queria ficar 
na serra conosco. Hoje esse homem  oficial mdico das Foras Armadas Revolucionrias de Cuba.

Bem, mas a guerra ainda no terminara. Aps a batalha de Las Vegas de Jibacoa, perdida por ns, os 
soldados de Batista permaneceram acantonados l. Com isso, depois da batalha de Santo Domingo, Las 
Vegas passou a ser o nico ponto de toda a Sierra Maestra onde ainda havia tropas inimigas. E Fidel decidiu 
acabar com esse ltimo baluarte de Batista. Uma tarde recebi um recado de Fidel pedindo que eu fosse para l 
imediatamente, acompanhado do mdico Eduardo Ordaz, hoje diretor do Hospital Psiquitrico de Havana, 
porque ele pretendia atacar o inimigo dentro de poucas horas. Como Ordaz estava muito gordo, levamos mais 
tempo do que o normal para chegar ao destino, o que s ocorreu por volta da meia-noite.

Em Las Vegas tomamos um barznho e ali fizemos nosso hospital de campanha. A mesa de operaes 
era o balco frigorfico, e poucos minutos aps nossa chegada, ela j comeava a ser ocupada por feridos da 
batalha que se iniciara. Trabalhamos at as seis da manh, dormimos uma meia hora e recomeamos o 
trabalho. A pelo meio-dia s havia dois feridos  espera. Tratamos do primeiro e quando eu comeava 
a abrir o ventre do segundo, para oper-lo, os avies de Batista iniciaram o bombardeio. Terminamos a 
cirurgia dentro de um refgio cavado sob uma pedra e, quando a aviao diminuiu o fogo, corri at o barzinho 
para pegar uns instrumentos. Os buracos que as balas vindas dos avies abriram no teto eram to grandes que 
tornavam desnecessria a iluminao que improvisramos para as operaes. A luz natural que vinha deles 
clareava todo o pequeno cmodo. Ter-


197
minada a operao, eu, Ordaz e o doutor Trilio passamos a sepultar alguns companheiros mortos em 
combate. Estvamos em plena operao, quando a aviao de Batista voltou. Eu disse a Ordaz: J escapamos 
destes canalhas uma vez hoje, no vamos nos arriscar a outra. Fugimos e deixamos os corpos insepultos at o 
fim da tarde quando finalmente pudemos de novo sair a descoberto.

Quando entrei para a luta revolucionria, eu tinha apenas a patente de soldado, embora fosse mdico 
formado. Um dia, pouco depois do combate de Pino del gua, Fidel mandou chamar-me e, com certa 
solenidade, comunicou-me que eu acabava de ser promovido a capito, grau com o qual passei quase todo o 
perodo da guerrilha na serra. Dois dias aps o combate de Las Vegas de Jibacoa, Fidel mandou avisar-me que 
eu deveria estar com certa urgncia no quartel-general. Ao aproximar-me do barraco onde ele estava, Fidel 
saiu para fora e saudou-me de longe; Boa tarde, comandante Julio Martinez Paes. Eu respondi: 
Voc est equivocado, Fidel. Quem est aqui  o capito Julio Martinez Paes. Ele me abraou forte 
e disse, no meio de uma gargalhada: No, voc acaba de ser promovido a comandante.

Terminada a batalha de Las Vegas, entramos num perodo meio morto. Nao havia combates, 
ningum nos atacava. Batista retirou todos os seus efetivos que restavam na Sierra Maestra, e nosso 
sistema de segurana e proteo s zonas liberadas era to poderoso, que j falvamos alto, andvamos 
por todas as partes, procedamos como se estivssemos em nossa casa. At que, ao fim, Fidel decidiu que, 
j que Batista no nos atacava mais, tomaramos a iniciativa da guerra. Fdel iria, finalmente, atacar Batsta.

Nos primeiros dias de dezembro de 1958 Fidel resolveu baixar com suas tropas da Sierra Maestra e 
liberar todo o pas. Eu j assistira a todas as batalhas que tinham sido travadas at ali, e no quis ficar com os 
pelotes que permaneceriam na serra. Fidel, no entanto, no quis que eu o acompanhasse durante a batalha de 
Guisa, que se daria dias depois. Ele alegava que eu j estava cansado e que Ordaz e Trilio, os dois outros 
mdicos, haviam chegado depois de mim e teriam mais disposio para enfrentar a luta na plancie. Afinal, ele 
desceu s com Ordaz e TrilIo, e eu fiquei na regio liberada.


198
A batalha de Guisa durou 11 dias, e foi a primeira na plancie. Nos ltimos dias de combate 
aconteceu uma coisa que permitiu que eu fosse testemunha de todas as batalhas de que participou 
Fidel. O Comandante tinha se afeioado muito a um soldado de Batista que abandonara suas 
tropas para passar ao nosso lado, em Guisa. E esse moo recebeu um
;        ferimento gravssimo e Fidel mandou algum chamar-me para oper-lo. Foi a minha salvao: operei 
o soldado e acabei ficando por ali mesmo. Montei um hospital em Chaco Redondo, onde a 
maioria dos pacientes eram soldados de Batista, abandonados moribundos nos campos de batalha.

Dali fomos para Baire, onde no chegou a haver troca de tiros: o quartel local se rendeu 
quando soube que as tropas de Fidel se aproximavam. Tomada Baire, seguimos at Maza, que  
vilarejo a alguns quilmetros de distncia. Tomamos uma agncia do Fayr Bank e a 
transformamos em priso, para alojar os soldados presos em combate. Eu passava o dia guiando uma 
Kombi roubada e transformada em ambulncia, indo e vindo de Maza at meu hospital de Chaco 
Redondo, e vice-versa, transportando feridos. Os mais graves eram levados para Baire, que tinha 
um hospital com maiores recursos. Isso durou vinte dias.

No dia 31 de dezembro, Fidel avisou-me que iria para Santiago de Cuba, capital da provncia 
de Oriente, e que, se houvesse batalha na tomada da cidade, eu seria avisado para ir pra l com 
urgncia. Se a ocupao fosse pacifica, ele me pegaria ali no dia seguinte, e juntos iramos para 
Bayamo. E assim foi. Ao chegar ao quartel de Santiago, o comandante das tropas de Batista pediu a 
Fidel uma trgua de trs horas, ao fim das quais ele se rendeu. Tomada a cidade  a segunda mais 
importante do pas, depois de Havana  Fidel convocou o povo para um pronunciamento no 
parque local, onde foi saudado apoteoticamente pela massa.

s trs da tarde do dia seguinte Fidel me pegou e fomos at Bayamo, que era, ento, o nico 
quartel que ainda permanecia nas mos de tropas leais a Batista, e um dos mais bem armados de 
toda Cuba. Para nossa surpresa, a rendio de Bayamo tambm ocorreu sem que fosse 
necessrio dispa-


199
rar um s tiro. Recolhidas as armas dos soldados, Fidel os reuniu num estdio para outro discurso e os libertou 
em seguida.

Naquele momento Havana j estava sendo ocupada por tropas nossas. Batista fugira e o presidente 
provisrio, Urrtia, mandou chamar-me pelo rdio para comunicar-me que eu acabava de ser nomeado ministro 
da Sade Pblica pelo Governo Revolucionrio. Procurei Fidel e lhe disse que no estava interessado em 
ministrios, porque eu gostava mesmo era da minha especialidade, a ortopedia. Acrescentei que continuaria 
servindo  Revoluo, mas no meu antigo cargo no hospital de Havana. Fidel me disse, em resposta: Se a Re-
voluo o nomeou, voc tem que aceitar. Nem que seja provisoriamente, at que arranjemos a pessoa adequada, 
e a voc volta  ortopedia. Tive qu~ obedecer. Tomei um avio, fui at Santiago e ali mesmo montou-se o 
primeiro Conselho de Ministros do Governo Revolucionrio.

De Santiago tomamos um avio at Camaguey, onde Fidel teve, junto com Camilo Cienfuegos, o 
primeiro encontro com o presidente Urrtia. Camilo informou a Fidel que j havia tomado a fortaleza de 
Columbia e que o Ch havia tomado o quartel de La Cabaia, em Havana. E que s faltava, portanto, tomar 
posse formal do Palcio Presidencial. O Comandante transferiu ento o encargo da tomada do palcio 
para Camilo e para o Ch e, naquele mesmo dia, entrvamos vitoriosos em Havana. A terminava um perodo, 
o mais importante, da guerra revolucionria. E comeava a implantao da Revoluo. O resto a Histria j 
contou.














200
Coleo ALFA-OMEGA de Bolso

Histria imediata: as mais importantes reportagens jornalsticas de nossos dias em forma de 
livro de bolso.

A PRISO

Percival de Souza
2.~ edio, aumentada, 132 pp.
~Uma galeria de horrores, com toques de humor e lirismo: as histrias dos homens que 
vivem no maior presdio do mundo  a Casa de Deteno de So Paulo.

A SANGUE-OUENTE

Hamilton Almeida Filho

92pp.
A morte do jornalista Vadimir Herzog: Um dos trabalhos mais dignos da histria do 
jornalismo brasileiro, na opinio de Mino Carta, editor da revista ISTO .


PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL:

 Editora Alfa-Omega Ltda.

Peo, por meio desta, que me enviem, pelo REEMBOLSO POSTAL, os livros da Coleo Alfa-Omega de Bolso abaixo 
relacionados:


A PRISO  Percival de Souza

exemplar(esl

A SANGuE-OUENTE  Hamilton Almeida Filho

-        exemplar(es)

NOME:                                              

ENDEREO:

CIDADE:       
ESTADO:        CEP:            
[EIA TAMBM O~ (W~I(OS DO MARXISMO
CM-1
Obras escolhidas  Vol. 1, 2, 3 e 4
Mao Tsetung

CM-2
Obras Escolhidas  Vol. 1, 2 e 3
V. 1. Lenin

CM-3
Obras escolhidas  Vol. 1, 2 e 3
Karl Marx e Friedrich Engels

CM-4
A Histria me absolver
Fidel Castro

CM-5
Sete ensaios de interpretao da realidade peruana
Jos Carlos Maritegui

CM-6
Dez dias que abalaram o mundo
John Reed


Editora Alfa-Ornega
Solicito enviarem-me pelo reembolso postal, os livros abaixo relacionados:
        - ex. OM-1        - - ex. cM-2        - ex. cM-3
        - - ex. cM-4        - - ex. cM-5        - ex. cM-6

Nome
~EP        En~reo                             
cidade                        Estado                


Assinatura

,~ Editora Alfa-Omega Ltda.
05413  Rua Lisboa, 502  5. Paulo, Capital
Telefones:        64-4622 e 280-9972

Solicite nosso catlogo completo, com lista de preos
RB-1

A classe operria no Brasil 
1889-1930        (Documentos) Vol. 1
Paulo Srgio Pinheiro e Micheel Nau
RB-2
A coluna Prestes (Marchas a combates)
Loureno Moreira Lima - 3. ed. (ilustr.l A B-3
combates e batalhaa (memrias) Vol.1 Octavio Brando
RB-4
Contribuio  Histria daa lutas
operrias no Brasil
Herminio Linhares
A B-5
Coronelismo, enxada e voto - 4.. ed.
Vitor Nunes Leal
AB-6
Dirio da Guerrilha do Araguala
Apres. cvis Moura

A B-7

Ensaios polticos e histricos
Astrogi ido Pereira

RB-8

Estado e partidos polticos no
Brasil 11930-19641
Maria do carmo campeilo de Souza
RB-9
Histria das lutas sociais no Brasil
Everardo Dias
AB-10

Histria e teoria dos partidos
polticos no Brasil - 2.~ ed.
Afonso Arinos de Meio Franco
A REALIDADE BRASILEIRA EM LIVRO
RB-11

Histria sincera ds Republica
Vol. 1, 2, 3 e 4
Leoncio Basbaum
A 8-12

A Ilha - Um reprter brasileiro no
pas de Fidel Castro
Fernando Moraes
AB-13
A luta pala Industrializao no Brasil
Nicia Vilela Luz
A 8-14

O        messianismo no Brasil e no mundo
2. ad. rev. e aumentada
Maria Isaura Pereira de Oueiroz
RB-15

Minha vida e as lutas do meu
tempo (Memrias)
Elias chaves Neto
A 8-16

O        pi-oblema do sindicato nico
no Brasil
Evaristo de Moreis Filho
AB-17

Produo capitalista da casa
Herminia Maricato - Org.
RB-18
Universidade brasileira: reforma
ou revoluo?
Florestan Fernandes
A 8-19

Vida de um revolucionrio
(Memrias) - 2. ed.
Agudo Barata
AB-20
Uma vida em seis tempos (Memrias)
Leoncio Basbaum

Editora Alfa-Omega Solicito enviarem-me,

ex. AB-l ex. AB-5 ex. AB-9 ex. FlB-13 ex. RB-17

Nome
        ~EP        Endereo
        cidade                Estado
Postal, os livros abaixo

-        - ex. RB-3

-        - ex. AB-7

- -        ex. AB-l1 ex. RB-15

ex. AB-19
relacionados:

ex. RB-4 ex. RB-8 ex. AB-12 ex AB-16 ex. RB-20
Assinatura
pelo Reembolso

-        - - ex. AB-2 ex. AB-6

-        ex. AS-lo ex. AB-14

ex. AS-IS

Editora Alfa-Omega Ltda.
05413  Rua Lisboa, 502  S. Paulo, Capital
Telefones:        64-4622 e 280-9972

Solicite nosso catlogo completo, com lista de preos
HISTORIA
IMEDIATA
As grandes reportagens sobre a realidade brasileira
que a-imprensa no quis publicar.
Vol. 1         A Guerrilha do Araguaga  Jaime Sautchuk e outros
        80 pp        Cr$ 35,00
Vol. 2         A greve na voz dos trabalhadores  vrios autores
        80 pp        Cr$ 38,00
Vol. 3         Araceli  Corrupo em sociedade  Carlos Alberto Luppi
        80 pp        Cr$ 45,00
Vol. 4         D. Paulo Evaristo Arns  O Cardeal do Povo - Getho Bittencourt e Paulo Srgio Markum
        80 pp        --- crs 45,00
Vol. 5         A volta da UNE  De lbina a Salvador  Luiz Henrique Romagnoli e Tnia Gonalves
        96 pp        Cr$ 50,00

ATENO:        Na compra de 4 (quatro) exemplares de Histria Imediata, o quinto  grtis.














A
 Editora Alfa-Ornega Ltda.
05413  Rua Lisboa, 502 - S. Paulo, Capital Telefones: 64-4622 e 280-9972


Solicite-nos a incluso de seu nome em nosso servio de remessa automtica Assim, sempre que sair 
um nmero de Histria Imediata, ele lhe ser enviado pelo correio, via Reembolso Postal, pela Editora 
Alfa-Omega.


Editora Alfa-Omega
Solicito enviarem-me pelo reembolso postal, os seguintes volumes de Histria
Imediata:

- - ex. HI-1 - - ex. 1-11-2        ex. HI-3 - - ex. Hi-4 - - ex. HI-5 Fica entendido que, se minha compa for de 4 ou mais exemplares, 
receberei, inteiramente GA4T15, um exemplar de Histria Imediata  Vol      

Nome
cEP        Endereo - -
cidade                 Estado                    


Asa i natura
AMRICA LATINA: CULTURA E HISTRIA
A Grande Revoluo de Outubro e a America Latina
Bons Koval  Trad. Leda R. C. Ferraz (208 pp.)
A Histria me Absolver (3.- edio)
Fidel Castro (112 pp.)

A Ilha  Um Reprter Brasileiro no Pas de Fdel Castra
Fernando Morais  17.~ edio (208 pp.)

Contra Vento e Mar (Testemunho)
Grupo Areito  Trad. Leda R. C. Ferraz (204 pp.)

Cuba: Anotaes sobre uma Revoluo
Eric Nepomuceito (176 pp.)

Cuba Hoje  20 anos de Revoluo (ed. ilustrada)
Jorge Escosteguy 1198 pp.)

Dirio da Guerrilha do Araguala
Apres. Clovis Moura (96 pp.)

Sete Ensaios de Interpretao da Realidade Peruana
Jos Carlos Maritegul  Trad. Salvador Obiol (260 pp.]

Socos na Porta [ed. ilustrada]
Fernando Morais (176 pp.)


























~NIVFflSIIJ~9E U[ C~fl~S ~II~ Su
EDITORA ALFA-OMEGA, LTDA.

05413 - R. Lisboa, 500 - 01000 - 5. Paulo - Capital

Solicito enviarem-me os livros abaixo relacionados:
        contra cheque anexo        D contra vale postal

D pelo reembolso postal
Nome:
Endereo: - -
CEP: ..        Cidade:                Estado:
Assinatura:
Autor.                Ttulo-          









Solicite nosso catlogo completo, com lista de preos
ENSAIOS ECONMICOS
Energia Eltrica e Capital Estrangeiro no Brasil
Catulo Branco
136 pginas

Expanso Cafeeira e Origens da Indstria no Brasil
Srgio Silva (3A edio)
120 pginas

Histria Sincera da Repblica Vois. 1, II, III e IV
Lencio Basbaum
 284 pg.; II  316 pg.; III  252 pg.; IV  216 pg.

A Luta pela jndustrialiiaaO no Brasil
Ncia Vilela Luz (3.~ edio)
224 pginas

A Luta pela ~oderniZao da economia Cafeelra
Hlio Duque
207 pginas

A Produo Capitalista da Casa
Hermnia Maricato  Org.
178 pginas

Trs Industrialistas Brasileiros
Mau  Rui Barbosa  Simonsen
Heitor Ferreira Lima
197 pginas


>4.        EDITORA ALFA~OMEGA, LTDA.
/,llZx 05413 - R. Lisboa, 502 - 01000 - S. Paulo - Capital Solicito enviarem-me os livros abaixo relacionados:

13 contra cheque anexo        13 contra vale postal
13 pelo reembolso postal
                                                    
Nome-       

Endereo-    
CEP:        Cidade:        Estado:         

Assinatura:
Ttulo:        ..-.                 
Autor:        .







ri Solicite nosso catlogo completo, com lista de preos.
LANAMENTOS

ENSAIO
?        O Bravo Matutino  Ideologia e Imprensa: o Jornal OESP
Maria Ligia Prado/Maria Helena Capelato

?        Contra Vento e Mar (ed. ilustrada)
Grupo Areito  Trad. Leda Rita Cintra Ferraz

?        Categorias e Leis da Dialtica
A.        Cheptulin  Trad. Leda Rita Cintra Ferraz

?        A Guerrilha de Capara (ed. ilustrada)
Gilson Rebelo

?        A Grande Revoluo de Outubro e a Amrica Latina
Bons Koval  Trad. Leda Rita Cintra Ferraz

? Histria do Proletariado Brasileiro (1857 a 1967)
Bons Koval  Trad. Clanice Lima Avienina

?        Carta aos Comunistas
Lus Carlos Prestes

LITERATURA
?        A Greve da Rosa (Romance)
Renato Pompeu

?        Os Fornos Ouentes (Fico Poltica)
Reinado Guarany Simes


NOME

ENDEREO

CIDADE
ESTADO        CEP

Solicito enviar-me polo Reembolso Postal, os livros abaixo relacionados
A
 Editora Alfa-Omega Ltda.
05413  Rua Lisboa. 502  5. Paulo Capital
Telefones:        64-4622 e 280-9972

Solicite nosso catloco comnieto. ~nm IiCt2 <I~ n~~in~




        ~J
        A EVOLUO DO DiREITO BRASILEIRO
Direito, Poder e Opresso
Roberto A. R. de Aguiar
192 pginas

Histria e Teoria dos Partidos Polticos no Brasil - 3. ed.
Afonso Armas de Meio Franco
128 pginas

O Problema do Sindicato nico no Brasil - 2! ed.
Evaristo de Morais Filho
424 pginas

Estado e Partidos Polticos no Brasil (1930-1964) - 2. ed.
Maria do Carmo Campelio de Souza
178 pginas

A Idia Republicana no Brasil atravs dos Documentos
Reynaldo Xavier Carlielro Pessoa
176. pginas

Coronelismo, Enxada e Voto - 4! ed.
Victor Nunes Leal
276 pginas


















Solicite nosso catlogo completo, com lista de preos
EDITORA. ALFA-OMEGA. LTDA. -
05413 R. Lisboa. 502 - .01000 - S. Paulo - Capital

Solcito enviarem-me os livros abaixo relacionados:
7 contra cheque anexo        3 contra vale postal

3 pelo reembolso postal

Nome.

Endereo:
CEP: ..        ... Cidade        Estado
Assinatura:        ..
Autor        Ttulo:


OQ>WRL



Data



        ~J
        A EVOLUO DO DiREITO BRASILEIRO
Direito, Poder e Opresso
Roberto A. R. de Aguiar
192 pginas

Histria e Teoria dos Partidos Polticos no Brasil - 3. ed.
Afonso Arinos de MeIo Franco
128 pginas

O Problema do Sindicato nico no Brasil - 2! ed.
Evaristo de Morais Filho
424 pginas

Estado e Partidos Polticos no Brasil (1930-1964) - 2. ed.
Maria do Carmo Campelio de Souza
178 pginas

A Idia Republicana no Brasil atravs dos Documentos
Reynaldo Xavier Carlielro Pessoa
176. pginas

Coronelismo, Enxada e Voto - 4. ed.
Victor Nunes Leal
276 pginas
